A rosa púrpura da digitalização

A essa altura todo mundo já sabe que os projetores de cinema de 35 mm estão condenados. Em no máximo uma década devem ser substituídos por projetores digitais, que exibirão não rolos de filmes, mas um arquivo digital.

A digitalização, à primeira vista, parece trazer apenas vantagens. As cópias não se deteriorarão com o uso. O custo de distribuição vai baixar, porque copiar um arquivo digital não custa nada, ao contrário das cópias em celulóide. Na hora em que um filme estiver disponível no Brasil todos os Estados poderão exibi-lo ao mesmo tempo, não precisarão mais esperar a disponibilidade de cópias. Filmes de baixo orçamento não precisarão mais ter lançamentos restritos por outras razões que não as de mercado.

Mas essa mudança deve trazer, logo, outra discussão.

Até há uns 20 anos, os filmes exibidos pela TV eram telecinados, exibidos diretamente de um projetor para a TV através de uma máquina especial (o telecine, óbvio). Traziam riscos, sujeira — fios de cabelo, por exemplo. Aí eles começaram a transferir os filmes para vídeo. O primeiro filme que assisti assim foi “Nunca Fui Santa”, com Marilyn Monroe e Rock Hudson, em 1986.

Parecia uma coisa maravilhosa, porque aquela limpeza era uma grande novidade. Mas havia um detalhe: se celulóide e videoteipe eram praticamente antagônicos (o celulóide oferecia mais profundidade e maior espectro de cores, entre outras vantagens, mas o mais importante, do ponto de vista do espectador, sempre foi a textura superior do filme), essa diferença havia baixado. Agora o filme tinha um quê de vídeo.

Filmes são exibidos a uma razão de 24 quadros por segundo. É um pouco menos que o vídeo, de 30 — mas bem menos que a maioria dos videogames, que passam bastante disso.

A digitalização torna definitivamente possível uma outra mudança, dessa vez importantíssima: o aumento no frame rate, fazendo com que filmes sejam captados a uma razão de, sei lá, 150 quadros por segundo, tornando-o cada vez mais semelhante ao olho humano.

É isso que me incomoda. Porque eu não quero um cinema cada vez mais parecido com a vida real. Eu quero cinema parecido com cinema. Não quero me imaginar como o personagem de Mia Farrow em “A Rosa Púrpura do Cairo”, misturando uma coisa e outra, até a mais completa loucura.

15 thoughts on “A rosa púrpura da digitalização

  1. …a textura superior do filme…

    Essa é uma coisa que não consigo entender, mas que dá pra sentir. Olha, eu não quero um cinema tão vida real também não. Boa forma de falar a respeito, citando “A Rosa Púrpura do Cairo”. 🙂

  2. Belo post, Rafa. Porque eu não quero um cinema cada vez mais parecido com a vida real. Eu quero cinema parecido com cinema. Disse tudo!!!Beijão, querido!

  3. Mas deve ser possível reproduzir a sensação de menos frame rate nos filmes digitais, os grandes diretores farão isso, eles também gostam da Rosa Púrpura do Cairo =P

    eu nunca vi, infelizmente

  4. Meu comentário chega a ser quase off-topic, mas me lembrei daquelas barbaridades “colorizadas por computador” que andaram fazendo. Ainda bem que não foi pra frente.

  5. Tb gosto do cinema com cara de cinema… mas o aumento do “frame rate” me parece inevitável com a digitalização. Não vai dar para brigar contra isso, assim como não conseguiram brigar contra o cinema falado.

  6. O fato é que todo o encanto existente em filmes antigos, os ditos clássicos, está mesmo perdido no passado e, infelizmente, em breve serão apenas parte de uma história contada por velhos quase gagás.

  7. Não acho que dê pra fazer uma previsão, Rafael. O George Lucas usou um novo tipo de câmera digital no Episódio II que fotografa em 24 quadros por segundo, que nem uma de cinema normal.

    A câmera era experimental e ele fez alguns testes antes de adotá-la. Percebeu que a qualidade da “textura” era muito superior à convencional. Não vi o filme ainda, mas o trailer me pareceu igualzinho a um filme normal — isso porque Lucas garante que há uma QUEDA de qualidade na hora de fazer a kinescopia (que, para quem não sabe, é o inverso da telecinagem, ou seja, passar do digital para a película que será exibida nos cinemas).

    A qualidade total, segundo ele, só apareceu nos cinemas totalmente digitais, que aqui no Brasil acho que nem existiam naquela época.

  8. Rafael.
    Eu adoro ver aqueles filmes mudos do inicio dos novecentos onde a camera era movida a manivela. Isso nao quer dizer que eu gostaria que todos os filmes fossem feitos daquela maneira. A arquiteutra gotica é maravilhosa, mas o que foi feito no seculo 13 ou 14 foi feito, nao se pode fazer hoje. A coisa toda so anda em uma direçao, infelizmente. Em todo o caso, os recursos digitais permitem simular qualquer situaçao e retardar o frame rate é o dos mais faceis. Da ate pra simular a manivela, mas deixa pra la, vai.

  9. Lindo final de post, Rafael… Mas, paradoxalmente, me lembrei dos filmes de putaria q costumava assistir nas telonas dos cinemas do Centrão de Salvador hoje substituidos por esses famigerados telões digitais! Argh…

  10. É que nem a história vinil x cd. Não é ser purista ou não – escutar o baixo de John Paul Jones em Physical Graffiti ou o de Geezer Butler em Vol. 4 no bolachão é trocentas vezes mais tesudo do que no acrílico. Aí sempre tem quem diga que é frescura, que não faz diferença. Balela.

  11. E eu li até o final do post confundindo A Rosa Púrpura do Cairo com A Cor Púrpura, hehehe.
    É a idade.

  12. Só uma correção. O olho humano não distingue acima de 26 quadros por segundo, se não me engano, então não adianta aumentar a taxa de quadros. Os 30 do digital já são um excesso, utilizado apenas por “garantia”.

  13. Acreedite, seu olho não sabe a diferença. Já têm cinema 100% diigtal aqui em Sampa, já fui assistir. Você é mais tomado pelo filme do que em película, especialmente se a produção for 100% digital. Assisti Guerra dos Clones assim, tudo digital, é uma experiência inebriante. Vale a pena. Morra o celulóide.

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