Era Uma Vez na América

Tirei uma noite dessas para assistir de novo a “Era Uma Vez na América”. Noite, mesmo: o filme dura 4 horas.

Não tenho certeza de quando vi o filme pela primeira vez; por alguma razão, penso em 1986, mas me parece improvável que a Globo tenha exibido o filme apenas dois anos depois de sua estréia no cinema; é mais provável que tenha sido em 1990.

Não interessa. Rever o filme é uma experiência fascinante.

“Era Uma Vez na América” é o último filme de uma trilogia iniciada em “Era Uma Vez no Oeste” e seguida por A Fistful of Dynamite, o mais fraco de todos. Sergio Leone quis contar aqui a história da “América” da maneira como ele via: a evolução de um país construído não sobre os ideais de trabalho puritanos, mas sobre a ganância e o crime.

Não é, ao contrário do que alguns malucos dizem, o melhor filme de Leone. Esse mérito pertence a “Era Uma Vez no Oeste”, seguido de perto por “Três Homens em Conflito”. Entre seus problemas está sua duração, longa demais. Perde tempo demais na parte “mafiosa” e deixa um pouco de lado algo que faria toda a diferença do filme, a transição do crime organizado para a organização trabalhista após o fim da Lei Seca. Algumas situações são improváveis. O destino de Deborah é inverossímil diante da óbvia fixação homossexual de Max em Noodles, e desnecessário. Além disso, o filme foi trucidado pela Warner Brothers, que fez o impossível para que ele não prejudicasse as chances de outros blockbusters seus, como The Killing Fields.

Mas não estamos falando de um diretor qualquer: e “Era Uma Vez na América”, com todos os seus defeitos, ainda é um grande, grande filme.

A mais bela cena do filme é uma das mais simples: Patsy compra um doce para dar a Peggy, projeto de prostituta que presta favores sexuais no banheiro ou no telhado por um doce de 5 centavos. Mas enquanto espera por ela não agüenta e come o doce inteiro. Aqueles pequenos marginais, prestes a se tornarem assassinos, são apenas crianças. É uma cena digna de Truffaut.

Isso ajuda a lembrar que Leone, acima de tudo, era um poeta. Dizem que ele tinha na cabeça cada movimento de seus filmes; e é difícil não acreditar qando se vê o cuidado com que ele define o enquadramento deles. “Era Uma Vez na América” fica como um documento importante da formação dos Estados Unidos, porque é narrado de forma quase divina.

“Era Uma Vez na América” deve ser visto em conjunto com “Era Uma Vez no Oeste”. Se empalidece, e muito, diante deste, dá um panorama brilhante da evolução dos Estados Unidos. E é isso que faz um filme ser inesquecível.

9 thoughts on “Era Uma Vez na América

  1. – vc sabia que eu ia comentar, vai dizer?

    esse post dava um TEXTÃO, rafito… mas… “era uma vez no oeste” creio que possa ser visto mais como o fechamento da quadrilogia SPAGHETIANA que começa com “por um punhado de dólares”. não é um filme que possa ser COMPARADO com “era uma vez na américa”. ok, vc vai dizer que LEONE dizia que o projeto era de uma trilogia sobre a AMÉRICA e, portanto, podem ser comparados. mas, como diz o alex, muitas vezes o AUTOR não tem consciência de sua obra; “era uma vez no oeste” tem a mesma consistência dos westerns anteriores… até o EASTWOOD deveria estar nele, no lugar do BRONSON. apenas DEPOIS do filme pronto (e com outro em andamento), BATEU a idéia no leone de fazer UM QUADRO AMPLO DA AMÉRICA E BLÁ-BLÁ-BLÁ… deram uma grana boa pra ele fazer o “era uma vez na américa” e ali ele pode EXERCITAR todo seu talento OPERÍSTICO. o filme é isso, uma ÓPERA BUFA, o tema batido do HOMEM EM GUERRA CONSIGO MESMO, etc… e, por isso, na mão do ITALIANO, isso vira uma MARAVILHA quase incomparável. aliás, pensando agora enquanto digito aqui alucinadamente, penso em outro filme (com o mesmo de niro) que talvez possa ser comparado a este; “1900” do BERTOLUCCI. hehehe… acho que isso dava mesmo um TEXTÃO!

  2. “Rafito”, que coisa tão meiga! Mas enfim… Mesmo que eu te diga, todo santo dia, o quanto você é genial, preciso assumir uma coisa: os COMENTÁRIOS do BIAJONI são geniais ao quadrado!!! Pôxa, a gente bem que podia fazer um blog só para ELE comentar, assim, mais ninguém, SÓ O BIA, o que você acha???

  3. Minha mãe comprou o dvd de era uma vez na américa antes de comprar o aparelho de dvd, tanta a empolgação dela qnd ela viu o filme ali, ao alcance das mãos dela, ela viu o filme no cinema e depois quando estava com uma menina, chamada eu: ), na barriga em 86 tmb. Poxa q engraçado descobrir q alguém além da minha mãe gosta de um filme q eu nunca consegui terminar d assistir… talvez depois do monólogo, hj quem sabe?

  4. Boa Noite Rafael! Sou louco para assistir “Era Uma Vez No Oeste”, é um dos filmes que possui a trilha sonora mais bonita que se tem notícia. Parabéns ao Ennio por sua composição, talvez seja por este motivo que eu gostaria tanto de assistir este filme!
    Tchau, tchau… até mais!

  5. Valeu não só pelo comentário bem elaborado, como pelas dicas que vc dá:
    Era uma vez na América e Três Homens em Conflito. Estive com este último nas mãos, mas por falta de indicação não comprei…
    Só gostaria de saber os nomes das músicas que compõem a trilha do Era Uma Vez no Oeste.

    Grato.
    Vítor.

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