A crise dos Correios

A incompetência do governo federal no gerenciamento da crise dos Correios está me impressionando.

O aspecto ético, discussões sobre a honestidade ou corrupção do governo não me interessam, porque vai acabar numa discussão estéril entre apoiadores e opositores do governo, em que a oposição se esbalda nas acusações de corrupção enquanto desconsidera a sua própria responsabilidade nisso, e o fato de que o governo, além de não ter controle sobre todas as suas esferas, acaba na prática dando apenas uma resposta às exigências da sociedade.

Mas no terreno da comunicação, o governo tem a obrigaçao de encampar publicamente a CPI dos Correios. E não falo isso por uma concepção ética do que deve ser um governo; falo porque os danos que esse episódio pode causar a sua imagem podem ser gravíssimos. É uma crise muito mais grave que o caso Waldomiro. A razão é simples: estamos muito mais próximos à eleição, e a falta de uma atitude enérgica do governo pode levá-lo a uma situação muito parecida com a vivida por Sarney: um governo fraco, acossado por várias forças, sem controlar o que se passa em seu governo.

O noticiário do Jornal Nacional, ontem, foi um exemplo trágico de tudo o que não se deve fazer.

O cinismo do Maurício Marinho, dizendo que aquele dinheiro que ele foi filmado recebendo era um “adiantamento” por serviços de consultoria a serem prestados daqui a dois anos só serve para uma coisa: irritar ainda mais qualquer pessoa que tenha juízo, porque ninguém gosta de deboche. Depois disso apareceu o Roberto Jefferson dizendo que já que as acusações foram retiradas o PTB vai retirar o apoio à criação da CPI. Erro. Desconsiderando o que quer que fizesse nos bastidores, o PTB tinha o dever de exigir o esclarecimento dos fatos. A mulher de César.

Por incrível que pareça, tenho a impressão de que se as eleições fossem hoje Lula ganharia no primeiro turno. Por falta de uma oposição organicamente coesa, por uma série de resultados positivos na economia, por algumas iniciativas brilhantes do governo em várias áreas — quem acusa o governo Lula de incompetência absoluta deveria prestar mais atenção ao que o governo vem fazendo. Seria um cenário com vários pontos em comum com a reeleição de Fernando Henrique: se as coisas não estão tão mal, é melhor não arriscar.

O problema é que uma derrota do governo na comunicação em relação a esse caso pode ter conseqüências graves. Pode enfraquecer o governo a ponto de possibilitar à oposição a coragem de lançar um candidato realmente forte nas eleições presidenciais do ano que vem. Pode tornar o governo cada vez mais dependente das forças que o apóiam — basicamente as mesmas que apoiaram todos os governos civis. E o resultado pode ser um segundo governo ainda mais enfraquecido, mais suscetível à pilhagem das estruturas de poder.

6 thoughts on “A crise dos Correios

  1. A disputa na comunicação o governo já perdeu há tempos. Desde 2003 que uma parcela crescente da classe média considera o governo petista símbolo e causa de todos os problemas brasileiros, e não há números que contradigam isso. Até os que apóiam o governo estão convencidos pelo discurso da incompetência perfeita, desde muito antes da CPI. Aliás, a incompetência da comunicação petista, em não conseguir fazer ninguém se lembrar da função que o Jucá ocupava no governo FH, ou das loas de amor FHC-Jefferson, é impressionante. Vai ver é isso que eles querem com o boato de que estariam ressuscitando a CPI das privatizações, mas a base-aliada-pero-no-mucho não vai gostar da idéia.

    Acho a udenização em curso mais problemática no lado propriamente político. Qualquer agenda legislativa, vinda do governo ou do congresso, gorou, e a cooperação com os governos estaduais e municipais só tende a piorar. Anteciparam a eleição em mais de um ano, e o governo não soube ou não quis impedir isso.

  2. Não sei se ainda há tempo para manter o freio.
    Penso que o governo, na discussão entre bancar as lutas históricas (que na verdade não houve) e abrir-se, ainda que moderadamente, ao fisiologismo (em nome da governabilidade) optou pela segunda via. Acabou por ser engolido por ela. Aliás, tenho dúvidas se um governo de um país da relevância do Brasil pode abrir frente contra a banca internacional. Tendo a apostar que não e talvez Lula também tenha apostado nisso.
    Agora, restará o debate do “são todos iguais” x “a CPI é eleitoreira”. Concordo com o Rafael no ponto da necessidade de apuração, independentemente da existência ou não de acusação a Jefferson. Mas já houve o precedente Waldomiro. Este sim, no meu entendimento, um fato inesperado, que deixou Lula sem ação e deu início às articulações desestabilizadoras do governo, que almejam, de fato, enfraquecer Lula na corrida da reeleição.
    Ano ímpar é ano de CPI, o governo deveria saber disso mais do que eu. Cabia acautelar-se. Agora, o estrago está feito. Na minha opinião, o pleito de 2006 não tem mais favorito.

  3. Belo post, Rafa. Concordo com o Roman que a abertura ao fisiologismo foi particularmente desastrada, porque em nenhum momento jogou-se com o notável mandato popular que Lula recebeu em outubro de 2002. Ao tentar construir maioria a qualquer custo, acharam que estavam entregando os anéis e quando se deram conta os dois braços já haviam ido. No início do mandato, a coalizão PT-PL poderia ter construído um marco bastante sólido de governabilidade, mesmo considerando o fato de que só possui 100 e poucos deputados. Como? Usando politicamente o mandato popular para pressionar o Congresso, para colocar os deputados mais fisiológicos na posição de ter que ceder sob pena de ser execrados pela população e perder a boquinha na próxima eleição. Sei que é mais complicado que isso, mas quando nós, da esquerda do PT, falamos de partir do imenso apoio a e admiração por Lula entre a população para negociar no congresso, quando falamos isso no começo de 2003, a tropa de choque delúbica-genoínica se recusou a conversar e veio nos aulas de “realismo”. “Ingênuos! Não sabem que é necessário negociar? Não sabem que o mundo é mais complicado que os sonhos de vocês?”, e todas essas caricaturas que são usadas para desqualificar as críticas à grotesca política parlamentar adotada pela administração Lula. Fizeram os acordos mais espúrios sem consultar o partido. Começaram a falar em “ala progressista” do PP, “ala progressista” do PTB, e outras asneira. E viraram escravos da sua própria falta de princípios, reféns de raposas políticas que não têm 5% da representatividade de Lula. Afinal, nesse jogo, os ACMs e Jeffersons da vida são muito mais espertos que os Genoínos. Esse é mais um episódio que demonstra, em minha opinião, que a direção do PT deveria pensar seriamente nas críticas que ela vem recebendo dentro do partido. Alegra-me muito que você tenha feito esse post.

  4. Rafael escreveu: “Pode enfraquecer o governo a ponto de possibilitar à oposição a coragem de lançar um candidato realmente forte nas eleições presidenciais do ano que vem.”

    E eu só posso dizer: “tomara”.

    Porque aguentar mais 4 anos de Lula vai ser dose…

  5. Rafa:

    É difícil acreditar em tanta incompetência na gestão de uma crise política, que também reputo como grave. É óbvio que a melhor saída para o Governo seria encampar a CPI e aproveitar a oportunidade para uma limpeza ética na administração. Mas, enquanto Lula passeia na Coréia, Zé Dirceu e os insepulto Aldo Rebelo (pasmem, Ministro da desCoordenação Política) batem cabeça.
    Agora, o mais duro para um contrariado sempiterno eleitor de Lula, é ouvir os representantes do governo dizerem que CPI, nesse momento, só serve àqueles interessados em desestabilizar o governo ou para prestar um desserviço à democracia. Confesso: dói fundo.

  6. Fala sério. O que é isto? Um ataque nacional de
    ingenuidade? É praxe na política brasileira o
    tráfico de poder vai do Enéas ao Suplicy passando
    pelo ACM e Severino. Mas, você não sabia? Poder
    é dinheiro. Tempo é dinheiro somente para
    assalariados mané, como eu e você.
    Todo mundo sabe como funciona a política
    nacional, entra dinheiro sai favor político. Como você
    acha que as grandes empresas sobrevivem? Ou mesmo
    as causas sociais têm que haver certo agrado para que
    as coisas se mexam em Brasília.
    Este é somente um dos meios do poder, ainda restam
    a chantagem, o sexo e o escambo de favores.
    O grande vilão desta historia é a imprensa que ataca
    um partido em vez de colocar em cheque os moldes
    políticos. Pois entra partido sai partido e o tráfico
    de poder permanece. Nossa sorte que é um processo
    democrático, qualquer um com uma verba para lobby,
    pode influenciar a política.

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