Homem-Aranha, Homem-Aranha, nunca bate, só apanha

André, não acho que seja difícil fazer boas histórias com a fórmula clássica do Aranha. Ele não é o Surfista Prateado.

Por suas próprias características, Peter Parker é um personagem maleável ao extremo. A existência de mudanças é quase uma necessidade, porque ele foi o primeiro super-herói em que a metade “civil” era tão ou mais importante que seu alter-ego uniformizado.

Além disso, a idéia de que mudanças drásticas no personagem são necessárias não se comprova na prática. Algumas podem ser boas, a maioria é ruim. A questão é a forma como fazem essas mudanças.

Se fosse para estabelecer uma regra, ela seria a de que não se mexe na estrutura básica de um super-herói. Mata-se personagens secundários, dentro de limites. Eventuais mudanças de rota devem ser feitas de modo a não colocar o personagem em um beco sem saída, sempre com a consciência de que qualquer nova situação se esgotará mais cedo ou mais tarde.

Mas para mim o problema central não está em alterar o personagem. Está em mudar o passado. Esse é o erro que deve ser evitado a todo custo.

Por exemplo, o pessoal da DC matou Jason Todd, o segundo Robin, no fim dos anos 80. Era um personagem secundário, porque àquela altura o “verdadeiro” Robin ainda era Dick Grayson, na percepção do leitor. Matou e pronto, agora vamos em frente. Foi uma mudança drástica, mas compreensível, até lógica. E eles não ficaram fazendo auê em cima disso, ressuscitando o coitado a cada 10 edições. Pelo contrário: “Morte em Família” é até hoje uma das histórias mais lembradas do Batman porque continua imaculada, ninguém tentou desdizê-la. Agora, alguém conhece um admirador da “Saga dos Clones” do Aranha? Eu não.

Quanto ao DeMatteis, eu gostava das histórias dele; mas isso era uma opinião pessoal e concordo com a crítica que se fez a ele: o Aranha é intrinsecamente um personagem leve, apesar dos problemas, e a profundidade psicológica depressiva que o DeMatteis dava era algo arriscado. (Talvez tenha sido a época em que a Bezinha tenha lido o personagem, por exemplo.)

Mas o mais importante, mesmo, é que há algo de muito errado quando se pega uma tradição de 40 anos e altera tudo em função do sucesso de um filme.

Basta olhar o que fizeram com o Batman e com o Superman. Os filmes de ambos foram sucessos monumentais. Mas os editores do Batman não transformaram o Coringa em assassino dos pais do Bruce Wayne, nem o pessoal que escrevia o Superman matou Jonathan Kent só porque ele morria no filme. Evitando um cenário ainda mais assustador, não transformaram o Batman em ícone gay depois depois do seriado dos anos 60. Pelo contrário: foi justamente depois disso que Denny O’Neill e Neal Adams empreenderam a primeira “volta às raízes” do Batman, inclusive diminuindo a importância do Robin em suas histórias talvez para evitar, digamos, mal entendidos que levassem Bruce Wayne a ser preso por formação de uma rede de pedofilia.

Roger, acho que a melhor idéia do filme não foi a teia orgânica, mas a transformação da aranha radioativa em geneticamente modificada. Faz até mais mais sentido, agora que o mundo inteiro sabe que se você é mordido por uma aranha irradiada no máximo desenvolve um baita câncer, não super-poderes. Mas não acho que isso seja motivo suficiente para alterar o elemento constitutivo do Aranha. O Henrique lembrou uma coisa importante: uma das coisas interessantes sobre Peter Parker é que ele era um quase gênio. Foi por isso que conseguiu bolsa para a universidade. A teia orgânica, além de desnecessária, torna isso quase irrelevante.

De modo geral, o filme empobreceu o Homem-Aranha, comprimiu sua história e retirou personagens importantes para sua evolução como Betty Brant e Gwen Stacy. Funciona como filme, claro, mas é uma mídia diferente, e os editores do Aranha deveriam lembrar disso. Por serem públicos diferentes, balizar os quadrinhos em função deles é um erro descomunal.

É preciso lembrar também que o público de cinema não necessariamente se transforma em leitor de quadrinhos; não consta que as revistas do Aranha tenham conquistado 10 milhões de leitores. Eu não passei a ler o Superman só porque saí fingindo que voava do cinema, quando fui ver o primeiro filme (eu tinha 7 anos, ora). Além disso, a relação do menino que assiste ao Aranha no cinema pela primeira vez é diferente do leitor que o acompanha há anos, muito mais frágil.

Comparando ainda com o Batman, acho que uma das razões pelas quais suas revistas passaram incólumes pelo sucesso do filme está no fato de que ele atravessava uma de suas fases mais consistentes. Tinha saído de uma série de histórias fundamentais: “O Cavaleiro das Trevas”, “Ano I”, “Morte em Família”, “A Piada Mortal”. Enquanto isso o Aranha já se arrasta há algum tempo, e roteiristas desesperados parecem estar tentando achar uma fórmula mágica para retomar o sucesso.

Um exemplo dese deserto criativo pode ser notado num belo e-mail que o Pedro me mandou, esclarecendo que a Marvel Millenium Homem-Aranha é um universo alternativo, mesmo. Aí se torna mais aceitável recontar a história de Peter Parker, pretensamente de acordo com os novos tempos.

Mas eu faria diferente. Em vez de criar um universo novo, eu me restringiria a recontar a história nos moldes estabelecidos por Stan Lee. Aproveitaria lacunas, daria mais profundidade a aspectos que não podiam ser melhor explorados na época.

Por exemplo, a primeira namorada de Peter Parker foi Betty Brant. Imagine o que não se poderia fazer com isso. Um adolescente, ainda no high school, namorando uma mulher mais velha e financeiramente independente. As possibilidades dramáticas que isso permite: conflitos emocionais, descobertas sexuais — Deus do céu, eu fico babando quando imagino o que esse pessoal tem nas mãos e não aproveita.

E o caso Betty Brant é apenas uma delas. Deixemos claro: Stan Lee era um gênio. Os novos responsáveis pelo Aranha não são.

10 thoughts on “Homem-Aranha, Homem-Aranha, nunca bate, só apanha

  1. Parabéns pelas referências! Sim, ao velho clichê saudosista do “como ERA bom”. Porque toda a magia narrativa e tramas e personagens escorreram para um ralo escondido em algum lugar, não tudo, claro. Ainda há gênios! Talvez a indústria capitalista tenha secado a fonte dos escritores, talvez os processos e o “sistema” hoje seja outra. Fato é que as HQs atuais já não têm o mesmo brilho. E com tantas brigas e galhofadas das editoras brasileiras, com tantas estratégias furadas, preços absurdos, inscontância nas publicações e descontinuidades: tudo ajudou a enterrar e “renovar” os leitores.

    Eu ERA leitor ávido de histórias em quadrinhos.

    Abraço.

  2. A rigor, é fácil fazer histórias do Aranha: coloque-se umas piadinhas nos instantes iniciais, lutas com bandidos, Jameson resmungando, um combate com um super-vilão. O problema é justamente sair dessa fórmula. Você corre o risco de fazer uma historia repetitiva. Ou de fazer algo que fuja à essência do Aranha.

    O Roger STern deu uma boa sacada ao introduzir o Duende Macabro, o DeMatteis usou bem o Duende Macabro. O problema é que desde de Venom(que foi usado à exaustão) não conseguiram emplacar nenhum vilão ou mesmo coadjuvante novo.

    O problema da linha Ultimate é que ela foi projetada para apresentar aos leitores novos um Aranha sem o peso de anos de cronologia, mas logo se mostraria ter histórias mais complexas que na linha normal.

  3. André, essa é a mesma fórmula de qualquer história de super-herói, desde os anos 1940. Com ou sem grandes cagadas, é a fórmula das novas histórias do Aranha, também. A diferença no Homem-Aranha é que Peter Parker tinha um peso tão grande quanto o Aranha. E é por isso que eles estao fzendo grandes cagadas.

    De qualquer forma, outros têm conseguido sucesso fazendo com outros personagens (já estou ficando chato, mas vou citar o Batman de novo: é que eu acho esse o grande personagem mais bem tratado dos quadrinhos nos últimos 20 anos). Então o problema é incompetência, mesmo.

    Me desculpe, mas não há nada de genial no Duende Macabro. Aquilo é simplesmente os roteiristas falando “é, nós matamos o melhor inimigo do Aranha. Já o trouxemos de volta 2 vezes, com Harry Osborn e com seu psiquatra. Não dá para trazer o desgraçado de novo porque a fórmula esgotou, então vamos fazer o seguinte: a gente traz ele de volta, mas disfarça com outro nome”. Como se isso não bastasse, veja só como terminou: Ned Leeds? Por favor. Aquilo foi um absurdo que eles mesmos tiveram que corrigir mais tarde. E nada impede que sejam criados novos vilões, ué. Rãs Al-Ghul é um personagem relativamente novo na cronologia do Batman. O Venon, que você citou, é outro.

    Em vez de perder tempo tentando achar uma grande merda no passado do personagem, se eles se dedicassem a criar um vilão consistente teriam mais sucesso.

    Na minha opinião, o melhor personagem que o DeMatteis usou foi justamente um por quem ninguém dava nada anteriormente: Rattus (era esse o nome?). E aí talvez esteja o segredo: você não precisa virar um personagem de cabeça para baixo para renovar o interesse por ele. Basta aproveitar o que não foi aproveitado antes. (No começo dos anos 90 Peter Milligan tentou fazer isso com o Charada nas histórias do Batman. Não foi adiante, mas ele tinha descoberto um jeito de recriar um vilão que tinha se tornado redundante.)

    Agora, as características que DeMatteis deu ao Aranha, que podem parecer interessantes para alguns (eu, pelo menos, gostava muito), foram uma tragédia em termos de mercado. Ele teve que ser tirado porque as vendas estavam caindo. Conclusão: o povo quer o amigão da vizinhança.

    Quanto à linha Millenium, é uma escolha, válida até. Nada contra, mas tampouco nada que me faça comprar suas revistas. Agora, a idéia deles de que é preciso um personagem “sem o peso de anos de cronologia” é uma bobagem. É justamente esse peso que garante a sua permanência, que estabelece uma ligação emocional com o leitor. Quanto ao fato de ter histórias mais complexas, uma nova cronologia não é necessária para isso. Continuo achando que melhor é reinterpretar o que já se tem, porque as fundações são muito boas.

  4. Olha, a linha Millenium tem boas histórias, não só os arcos do Homem-Aranha como também os de outros personagens. Mesmo assim acho que é algo completamente desnecessário. Concordo com vc quando diz que era só pegar a linha original e abordar todos aqueles temas ótimos que poderiam ter sido desenvolvidos…

  5. Eu odeio o Venom. Quando eu era moleque achava fuderoso, babava no desenho do Mc Farlane e ficava tentando copiar aqueles dentes, aquela teia composta cheia de fios enrolados e as posições bizarras do homem-aranha. Mas com tempo fui percebendo o quanto aquilo era ridículo. A idéia do Venom é até interessante, o alien-uniforme do aranha caindo em mãos erradas, mas já usaram ele o suficiente pra encher uns 5 sacos… E isso sem contar o duende macabro do Venom, o tal de “carnage”.

    E sem contar também que o desenho do McFarlane colabora imensamente pra isso. Aquela arte cansa, de tão over: quando lançaram o Spawn eu já não conseguia ler um gibi ilustrado por ele. O que são aquelas boquinhas que ele desenha? E o cabelo que ele faz nos personagens negros? Por que todo vilão dele tem uma boca gigante com a mandíbula grande demais pro maxilar superior? O trabalho dele encolhe ainda mais se a gente reparar que dá perfeitamente pra ser over e mandar bem, como faz aquele John Romita Jr. O Mc Farlane pra mim já entrou na fossa séptica dos engodos que quase acabaram com as comics, junto com o Jim Lee e o Rob Liefeld (que pra mim é o pior: devia ser proibido, como aquele episódio de Pokemon que causou convulsões em crianças no Japão).

    Mudando ligeiramente de assunto… Rafael, você esqueceu de citar uma fase curta mas ainda mais imbecil no processo de destruição do aranha. Na verdade dessa ninguém lembra, às vezes eu tenho a impressão de que só eu li: aquela em que inventaram de dar “poderes cósmicos” pro HA, e ele ficou com um uniforme preto com uns grafismos espaciais que envergava enquanto voava por NY soltando raios pelas mãos. Ridículo.

    Ah, e ainda sobre a teia orgânica: ok, foi boa a sacada da aranha transgênica. Mas sempre que eu lembro desse ponto não consigo deixar de lembrar que a glandula “teiosa” desses aracnídeos fica no final do abdome – e se essa mudança foi em nome de uma maior verossimilhança, então talvez devêssemos ver Tobey Maguire em um filme x-rated, interpretando um spiderman que atira teia pelo cu… Hahaha

    Tô falando, o negócio é ler Conan. Apesar de eventuais artistas ruins, não tem como o roteiro fugir da fórmula. E além disso, não se pode tirar do bolso alguma “fase” ou “reinvenção”, já que o R.E. Howard já deixou definida toda a história da vida do bárbaro antes de morrer – então qualquer papagaiada dura no máximo um arco de histórias.

    Foi mal o tamanho do comentário.

  6. Rafael, os grandes heróis da Marvel e DC já apresentam dificuldades naturais. São heróis com mais de quarenta anos de tradição, com uma fama bem maior que seus autores, com as vezes mais de quatro gibis por mês(E participações especiais em outros gibis), pressões editorais, muitas vezes mais ocasionadas pela imagem de personagens que geram fortunas em licenciamento. Então, é preciso geralmente gente muito, mas muito boa para dar conta do recado. Mesmo o Batman teve momentos horrendos de uns vintes anos para cá(creio para mim serem a maioria), como a destruição de Gotham City num terremoto, a queda do Morcego(Batman aleijado e substituído por uma maníaco homicida), um surto de Ébola em plena Gotham. Isso sem contar as sagas repetitivas desde de então.

    E ah, errei. O que eu queria dizer é que a grande virtude do DeMatteis foi ter usado Harry Osborn, agora um cara inseguro, com bastante introspecção psicológica(ele era fã confesso de Dostoievski). Ele só saíria do título naquela reformulação dos títulos depois da saga do clone. Hoje ele escreve pro desenho da Liga da Justiça.

  7. Eu ainda não me conformo com o fato deles terem ressucitado o Normal Osbourne (Duende Verde original).

    E ainda disseram que ele foi o responsável pelos eventos da saga do clone, agindo nos bastidores.

    Oras, o Duende Verde era louco, nunca iria ficar por baixo dos panos, ele iria tentar acabar com o Aranha diretamente, como sempre fez.

    Aliás, o grande mérito da Marvel era o fato de que seus personagens morriam, e morriam pra valer. Eu tinha uns 9 anos quando li a história da morte de Fênix! Era uma baita história! Depois eles ressucitaram Jean Grey, e a história perdeu todo seu peso.

    E sairam ressucitando todo mundo que podiam. Então meu “lado leitor de quadrinhos” morreu e esse, acreditem, não ressucita mais.

  8. homem aranha, homem aranha sempre bate e os vilão apanha!
    O homem aranha é demais eu sou fã dele, eu tenho revista do homem aranha mais deixa isso pra lá eu quero comenta uma coisa o filme do homem aranha 2 foi, besta no final o homem aranha nem deu uma surra no doutor Oquitapolis e nem mato ele o doutor Oquitapolis foi que morreu querendo em vez do homem aranha, acabar com ele mais, o homem aranha 1 foi melhor porque no final o homem aranha mato o duende verde foi assim ó:O homem aranha estava na frente do duende verde ai o duende verde tiro a mascara e aperto um botão que tinha nele, ai aquele negosso que o duende verde usava pra vuar estava atrás do homem aranha ai aquele negosso se aprossimou de uma vez ai o homem aranha sentiu o sensor de aranha dele e pulou e o negosso bateu na barriga do duende verde, com aquelas facas ai o duende verde morreu fim!
    mais não se esqueça peter pra você manda um otografo pra mim mande pro meu email o nome do meu email é esse:homem.aranha5@bol.com.br

  9. olha não sou de criticar quero apenas deixar uma questão em alta: por que estão explorando tanto os nossos herois no cinema …achei um absurdo o que fizeram com o coitado do hulk, ele tão amigavel que gosta tanto de esmagar..se for pra fazer o que fizeram com o hulk é melhor deixa-los no gibi..estou esperando o superman e dizem que vai sair a mulher maravilha…vamos ver se vai dar sorte e não ser aquele drama de quase três horas de duração.

Leave a Reply

Your email address will not be published.