Gosto literário se discute

Qual o livro que você mais relê?
“Como Era Verde Meu Vale”, livro de início de adolescência. Minha primeira cópia, comprada em 1984 por acaso, está quase se desfazendo pelo uso de 20 anos, primeiro relendo, depois voltando a ele apenas para aquelas cenas de que gosto. Há alguns anos comprei uma versão inglesa, porque o melhor do livro são a linguagem e o ritmo e no original é ainda melhor (Is he dead? For if he is, then I am dead, and we are dead, and all of sense a mockery), que tem uma história curiosa.

E que livro relido ficou melhor?
“O Caso Morel”, Rubem Fonseca. Continuo achando Fonseca um romancista muito inferior ao contista, mas reler esse livro me fez mudar a opinião original de que ele era ruim.

Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.
Não é que nunca tenha sido apropriadamente elogiado: a injustiça contra ele é posterior, é a mudança radical de opinião da crítica, o desprezo de que sua obra foi vítima. O livro é “1919”, de John dos Passos. Seu método narrativo era inovador, mas agora — e já há algum tempo — o julgam cansativo, datado, o diabo. No entanto ele continua atual num mundo disperso, cada vez mais fragmentado. A maneira como Dos Passos estrutura o livro é quase uma antevisão do mundo da internet e de multi-tarefa.

Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas.
Tantos, tantos… Para escolher um, que seja “Dublinenses”, de James Joyce.

E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?
“O Lobo da Estepe”, de Hesse. Eu esperava algo tipo “Demian”. É outra coisa, embora com boa vontade Harry Haller possa ser intepretado como um Emil Sinclair mais velho, mais cansado e menos chato.

Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.
Uma é o assassinato das velhas por Raskhólnikov em “Crime e Castigo”. Foi a minha preferida por muito tempo, e nenhum romance policial jamais conseguiu chegar perto dela. A morte do pai Goriot no livro homônimo de Balzac. E Rastignac acabando de enterrar o pai Goriot no Pére Lachaise, voltando-se para encarar Paris e desafiando-a: “A nous deux maintenant!”

Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor.
Lucien Chardon. Lucien de Rubempré (é, eu sei, não precisa me lembrar). Julien Sorel. Humbert Humbert sofrendo pela labareda em sua carne. E Phllip Marlowe e Lew Archer.

Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?
Nenhum livro me fez mal. São só livros. Minha conta no psiquiatra ainda é baixa.

E qual o que lhe deu mais prazer e alegria?
“Minha Vida, Meus Amores”, Frank Harris. Sem comentários. E não que se comparasse às Mini Fiestas, claro.

E o que mais lhe fez pensar?
Provavelmente os dois primeiros volumes de “A Experiência Burguesa – Da Rainha Vitória a Freud”, de Peter Gay, e “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.

Cite…
a) um livro meio chato, mas bom

“Infância”, de Tolstói.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu
“Os Buddenbrook”, Thomas Mann.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático
Quase todos os livros que tenho se encaixam nessa categoria.

d) um livro difícil, mas indispensável
“Em Busca do Tempo Perdido”, Marcel Proust.

e) um livro que começa muito bem e se perde
Que lembre agora, “Estorvo”, de Chico Buarque. E poderia citar também “Enderby por Dentro”, de Anthony Burgess.

f) um livro que começa mal e se encontra
Não consigo lembrar, embora deva conhecer alguns. Normalmente, se um livro se encontra, acaba absolvendo um eventual início fraco, provavelmente necessário para o desenrolar da história, e então deixa de ser ruim. Mas se demora a se encontrar ele me perde.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário
“O Morro dos Ventos Uivantes”, por Heathcliff.

Qual o início de livro mais arrebatador para você?
It was the best of times, it was the worst of times“.

De que livro você mudaria o final? Como?
“Seara Vermelha”. O livro é brilhante, o melhor da tal “literatura da seca”. É uma obra-prima. Mas por causa das imposições do realismo socialista Jorge Amado precisa fazer a apologia da revolução e de José Praxedes, e inclui um final desnecessário sobre a revolução de 1935 em Natal, quebrando a unidade narrativa do livro e fazendo do que poderia ser uma das grandes obras do modernismo brasileiro quase um panfleto. Eu simplesmente retiraria essa parte.

Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?
Qualquer livro com mais de 150 páginas poderia perder um ou outro pedaço.

Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?
Os livros de Evelyn Waugh.

A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro(s), escrito(s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça(m) a honraria de clássico(s) ou obra-prima(s).
Não posso. Sou um dos que criticam a literatura contemporânea. De modo geral, em que pesem excelentes livros publicados aqui e ali, vejo aqueles que fazem a literatura contemporânea como combatentes de uma revolução já vencida (ou perdida); não vejo respostas novas a problemas que foram abordados, por exemplo, durante o modernismo; e não tenho essa cultura do novo, de me sentir obrigado a estar atualizado em literatura. Há muito tempo decidi que há livros muito importantes que não li, em mais de 2000 anos de história, para que eu perca tempo. Vou morrer e não vou ler tudo o que devia. Mas pelo menos eu vou tentar. Exceção aberta para uma ou outra eventualidade e para a literatura policial, claro. Hard boiled, de preferência.

Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?
Longe de ser o melhor, mas “Brás, Bexiga e Barra Funda” me faria escrever algo decente, talvez.

Cite um vício literário que considere abominável.
A necessidade hemingwayana. De objetividade. Acima de tudo.

E qual a virtude que mais preza na boa literatura?
Partindo-se do princípio de que boa literatura contém necessariamente verdade, seria um bom ouvido.

De que livro você mais tirou lições para seu ofício?
Ogilvy on Advertising, David Ogilvy.

E que frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?
“Nada nos salvará”, Isaac Bashevis Singer.

(Copiado do Milton e do Alex.)

6 thoughts on “Gosto literário se discute

  1. Rafa, essa foi gênero, número e grau. Concordo especialmente com o que você disse sobre Seara Vermelha, Rubem Fonseca, Dublinenses e o 1919 de John Dos Passos. Este último para mim ainda é dos escritores mais assombrosos do século passado, que hoje infelizmente pouca gente lê. Sua marginalização foi especialmente feroz depois do macarthismo. A U.S.A. Trilogy da qual é parte o 1919 traz uma das passagens politicamente mais relevantes e atuais de toda a literatura americana, We Stand Defeated in America.

  2. “Dublinenses” não tem nada demais até chegar em “Os Mortos”, o último conto, que para mim é uma obra-prima de Joyce. Concordo com sua opinião e a do Idelber sobre John dos Passos.

  3. Seara Vermelha é meu Jorge Amado favorito. Não acho que o final quebra a unidade narrativa da obra. Seara Vermelha é uma história de luta pela sobrevivência e de esperança. Jão vai pra polícia, Zé entra no cangaço e Nenê se incorpora ao partido comunista. Eles buscam uma vida melhor, buscam respostas pras os problemas que vivem. E cada um, a seu modo, acha. O problema maior é que JA escreve de modo a tentar convencer o leitor que a solução é o comunismo. Se se cortassem algumas frases e refizessem outras, o texto ficaria perfeito. Mas não precisava arrancar um pedaço lindo do livro, a despeito de alguns (tá bom, muitos) exageros.

  4. Li a história “curiosa” sobre seu exemplar de Como era Verde Meu Vale. Muito interessante.
    Ano passado, aconteceu algo parecido comigo, quando comprei Gatos e Ratos do Gunter Grass em alemão, num sebo na Alemanha. Tinha um ingresso para uma peça de teatro no meio das páginas amareladas. A sessão das 21, no Schiller Theater, em 1964.
    Eu o encontrei exatos 40 anos depois! Que história deve ter tido esse livro hein, também me peguei viajando e inventando diversas alternativas. Até postei uma.

  5. Rafa:

    Esse pedacinho que transcrevo recebeu uma réplica no meu blog.

    “Sou um dos que criticam a literatura contemporânea. De modo geral, em que pesem excelentes livros publicados aqui e ali, vejo aqueles que fazem a literatura contemporânea como combatentes de uma revolução já vencida (ou perdida); não vejo respostas novas a problemas que foram abordados, por exemplo, durante o modernismo.”

    Nada de polêmica não, só um contraponto.

    Saudações literárias.

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