Rafael Galvão

Flower

Retorno a Zohar

Final de uma tarde de verão em 1979, Salvador. Eu estava no playground do edifício brincando com meus dois melhores amigos, Jailton e Pedrinho. Tínhamos arranjado alguns pedaços de pau, e algumas caixas de papelão das quais fizemos escudos. Brincávamos de batalha medieval; sou de um tempo em que as referências do passado, como cruzadas e cowboys, eram mais fortes que as do futuro nas brincadeiras infantis.

O edifício fica numa espécie de vale, porque de um lado está a escarpa da Ladeira da Barra, e do outro a 8 de Dezembro, outra grande ladeira. Além disso há prédios altos em volta.

E então, no meio da brincadeira, alguém notou algo estranho, que passava rápido e silencioso no céu. Quando olhamos para cima vimos um espetáculo inédito, e assustador. Um show de luzes vermelhas e azuis, informes, passou rápido e sumiu, em menos de um segundo, atrás do prédio que ficava em frente.

Eu era um garoto urbano. Nada relativo ao progresso, à civilização, me era estranho. Os cachorros dos lugares onde morei já não corriam atrás de carros. Nunca brinquei de pião ou de bola de gude quando era menino. Nunca me emocionei ao ver o mar pela primeira vez.

Mas aquilo era diferente. Era um disco voador, só podia ser um disco voador. Não era um avião — eu já tinha visto tantos, já tinha viajado em alguns. No mínimo, aviões faziam barulho.

Aquilo era um disco voador.

Jailton, Pedrinho e eu ficamos aterrorizados. Minha mãe havia ido comprar pão, e na volta viu um Jailton que, de bem pretinho, estava cinza de medo. Pedrinho também estava apavorado. Quanto a mim… Eu poucas vezes havia sentido um terror tão grande. Nada neste mundo — e, dadas as circunstâncias, em qualquer outro — me faria subir aquela escada. Eu tinha certeza de que havia um ET no vão embaixo dela. Esperei mamãe para subir com ela. Tinha certeza de que ela botaria aqueles homenzinhos verdes e maus para correr.

Os anos passaram. Minhas conclusões sobre o que eu tinha visto foram mudando com o tempo até que cheguei a uma conclusão preguiçosa de que aquilo era algo perfeitamente explicável, um balão meteorológico ou um avião (apesar da falta de som), ou qualquer coisa do tipo. Mas nunca tive certeza absoluta; era apenas uma conclusão racional, do tipo “discos voadores não existem, ponto”.

Exatos 20 anos depois, eu estava na varanda do meu apartamento em Fortaleza, de madrugada, ninando minha filha. De repente minha ex-mulher olhou apavorada para o céu atrás de mim: “O que é aquilo?” Me virei, rápido. E então eu vi.

Havia demorado duas décadas, mas meu disco voador havia voltado.

Pensei claramente algo em um átimo, imensurável de tão rápido. E naquele momento eu gostaria de ser outro, de não ser este ser humano cansado e lógico que acha que entende as coisas e que pode explicar tudo.

Eu gostaria de ter pensado que guerreiros do planeta Zohar haviam voltado para me buscar, duas décadas depois de terem sido impedidos naquele dia pela presença indômita de minha mãe. Que ali estavam pesquisadores waldosianos que me abduziriam e fariam experimentos genéticos inomináveis comigo. Que iriam me levar para Kandor e me exibir como um espécime de uma raça inferior, imperfeita e estranha, preciosidade de um planeta tão distante. Ou que, fascinados com minha perfeição genética, sábios yukiahans iriam me levar para revitalizar sua raça, devolver a eles atributos ancestrais que a evolução lhes havia tirado.

Gostaria de ter pensado qualquer coisa assim, que mostrasse que a criança de 8 anos ainda estava ali.

Mas naquele momento eu só pensei em uma coisa: “Pronto. Agora vou saber que porra é essa”. E então eu soube.

Era um avião.

Um simples, um prosaico Boeing, voando baixo por entre nuvens também baixas. Aviões têm luzes azuis e vermelhas que piscam intermitentemente. Por causa das partículas de água contidas nas nuvens, a luz se dispersa e dilui, e o resultado é um objeto disforme e assombroso. Não é tão comum; em duas décadas só vi algo assim duas vezes.

Durante a maior parte daqueles 20 anos, tive a certeza de que aquele disco voador era um fenômeno humano perfeitamente compreensível, provavelmente um avião, mesmo. Mas, lá no fundo, havia a esperança de que fosse realmente uma nave interplanetária de um planeta distante, trazendo pesquisadores para entender melhor esta raça de que faço parte.

Ali o adulto cético e racional obtinha a sua vitória definitiva e incontestável, e a sombra da criança de 8 anos se esvanecia para sempre. A falta de imaginação venceu.

Originalmente publicado em 11 de setembro de 2003.

13 Responses to “Retorno a Zohar”

  1. July 16th, 2005 at 12:13 am

    Cipy says:

    Rafa, parabéns pelos 2 anos do RG e obrigada pelas alegrias todas q ele me dá.
    O post de hj tá lindo, como vc!
    Beijos,

  2. July 16th, 2005 at 12:20 am

    André Pessoa says:

    Belo post. Muito bom mesmo.

  3. July 16th, 2005 at 4:44 am

    Bruno says:

    Quando morava em São Paulo, no Portal do Morumbi, lembro claramente do dia em que, sentado ao lado das quadras de futsal, já de madrugada, avistei pontos brilhantes no céu. Brilhavam de forma estranha; pareciam holofotes poligonais. Dançavam entre si (eram três) randômicamente. Não conseguia tirar meus olhos daquele espetáculo. De repente, um ponto se vai, e dois seguem, paralelos, a cruzar meu campo de visão. Vagarosamente vasculhavam meu condomínio, eu sabia, e tinham que ter me visto. Pensei que seria escolhido, que teria a oportunidade de conhecer seres de outro planeta.

    Ainda era católico, como todo menino de 9 anos é quando vai todos os Domingos à missa com os pais, e mesmo assim sabia, SABIA, que existia vida lá fora. Não estávamos só. Aqueles pontos eram óvnis, e se desse sorte eles iriam me levar.

    Os dois pontos pararam de cruzar o céu. Ficaram mais fortes; achava que estavam descendo para me buscar. E num piscar de olhos sumiram, e fui tomado pela imensidão azul escura de um céu de outono do Morumbi. Nunca mais vi tal espetáculo. Mas sempre sonhei no dia em que meus amigos brilhantes voltassem pra me buscar. Tinham me esquecido e não sabiam.

  4. July 16th, 2005 at 6:21 am

    Flavio Prada says:

    Rafael não quero dar a impressão que te acho um ingênuo, mas você acredita em Boeing?

  5. July 16th, 2005 at 7:52 am

    Afonso says:

    Parabéns pelo aniversário. Ia comentar, mas o comentário do Flávio também merece elogios, hehehe. Pena que a criança se esvaneceu. abs

  6. July 16th, 2005 at 11:30 am

    maray says:

    infelizmente, depois de algum tempo, a conclusão a que chegamos é que infância não existe…

  7. July 16th, 2005 at 12:54 pm

    Gejfin says:

    Grande Rafa!
    Parabéns pelos 2 anos de blog, chê!

    :) Abraço!

  8. July 16th, 2005 at 4:47 pm

    Marcus Pessoa says:

    Eu também já tive uma ilusão dessas. Era mais grandinho, um nerd participando de um grupo ufológico (sic). Aqui no campus da UFPA é rota de aviões (eu não sabia, claro), e um que vinha vindo por cima do Rio Guamá parecia nitidamente um OVNI, até que passou por cima de nossas cabeças.

    Feliz aniversário para o blog.

  9. July 16th, 2005 at 9:08 pm

    Ricardo Antunes da Costa says:

    Belo post. E feliz aniversário para o blog.

  10. July 16th, 2005 at 9:43 pm

    Cláudio Costa says:

    Eu também já vi. Juro! Duas vezes. Não acredito, mas vi! As luzes coloricas riscando o céu sem núvens, rápidas… O pior de tudo: já era adulto e não acreditei. Mas que “eles” existem, existem… ou não?

  11. July 16th, 2005 at 11:13 pm

    Donizetti says:

    Já eu fui mesmo abduzido… O horror!

  12. July 17th, 2005 at 3:17 pm

    Biajoni says:

    já vi um ovni… foi estranho.
    mas mais estranho ainda é um grupo que vem crescendo no país, tomei contato com alguns membros recentemente. o nome deles é aquantarium - acreditam que espíritos de ets influenciam a vida de terrestres, existe uma guerra entre espíritos, algo assim. um lance muito, muito louco mesmo! assim que puder farei post a respeito. abração a todos.
    :>)

  13. August 16th, 2005 at 8:49 am

    Míriam says:

    Neste domingo último, dia 14/08/05, estavamos e eu e meu namorado sentados no chão do meu quintal brincando com meus cachorros, derrepente olhamos para o céu elá estava algo estranho…uma luz que piscava em cores diferentes, tamanhos diferente, movimentos aleatórios…e no final sumiu!!(simplesmente)Ficamos uns 10 minutos observando. Tb já fui abduzida para reprodução. Já frequentei dois grupos de Ufologia…atualmente estou ligada á casa AQUANTARIUM…continuo meus estudos…coincidência eu sei que não existe..portanto….
    Se quiserem entrar em contato comigo meu e-mail é miriam.paula@uol.com.br
    Valeu!!!

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