O fantasma e o vento

Mais uma daquelas pesquisas utilíssimas e significativas de universidades inglesas — desta vez da Universidade de Hertfordshire e do Laboratório Nacional de Física.

O pesquisador Richard Wiseman afirma que o infra-som é o grande responsável por sentimentos de “sobrenatural” que às vezes temos. Nas igrejas, por exemplo, as notas extremamente baixas de alguns órgãos facilitam o êxtase religioso. Nas casas mal-assombradas, calafrios seriam o resultado do som provocado pelo vento. “O fantasma, na verdade, é o vento”, diz glorioso em seu racionalismo o bom Wiseman.

Longe de mim querer contradizer um sujeito sábio no próprio nome, até porque estou mais próximo de um wiseguy que de um wiseman.

Mas a esse pessoal falta poesia, falta aquele respeito pelo metafísico, falta aquela sabedoria que vem da convivência com o mistério que torna a vida um pouco mais bela. Seu racionalismo cético cega e oprime, e tenta levar o mundo a uma irremediável chatice. E é por isso que ouso dizer que Wiseman está errado em suas conclusões.

O fantasma não é o vento disfarçado. O vento é que é o fantasma disfarçado.

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2003.

7 thoughts on “O fantasma e o vento

  1. Eu até acho que você tem razão. Só que, por outro lado, racionalismo anda tão em falta que mesmo em poesia ando preferindo Alberto Caeiro.

  2. Não quero tirar mérito ao Wiseman mas o que descobriu é algo que os budistas sobretudo os das variantes tibetana e zen já sabem há séculos. Uma das funções da oração colectiva e da recitação de mantras é a de “massajar” as glândulas endócrinas, tiróide e hipófise entre outras, com as vibrações das cordas vocais. A voz e o canto querem-se assim o mais graves possível para surtir o efeito pretendido.

    Quanto à falta de poesia da comunidade científica felizmente há excepções: Fritjof Capra, Hubert Reeves…

    Grande blogue, Rafael. Leitura diária.

    Abraços,

    Jorge

  3. Uai! Sempre soube que os dois existiam: fantasmas disfarçados de vento e ventos disfarçados de fantasma.

    É bom viajar de vez em quando! (ou será de quando em vez?)

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