Caos e criação no quintal

Em setembro Paul McCartney lança seu novo disco, Chaos and Creation in the Back Yard (seis dias depois do lançamento do novo dos Stones, que o Brigatti, fingindo que coisas medonhas como Undercover, Dirty Work, Steel Wheels, Voodoo Lounge e Bridges to Babylon não existiram, ainda espera com ansiedade. Vida de fã é triste. Sei bem como é).

Para um sujeito que durante muito tempo chegou a lançar dois discos por ano, além de vários compactos, já há algum tempo a produção de McCartney é bem mais esparsa. Nas últimas duas décadas McCartney lançou apenas 5 álbuns (sem contar uma infinidade de discos ao vivo, umas coletâneas, uns discos de experiências sonoras, duas incursões medíocres pela música clássica e dois bons discos de covers de clássicos do rock and roll).

Algo estranho e engraçado acontece quando McCartney lança um novo álbum. A recepção é normalmente boa. Elogiam o disco e dizem que o disco anterior era uma droga. No lançamento seguinte tudo se repete: este é um grande álbum e o último foi um lixo. É sempre assim. Nesse vaivém, nem sempre a crítica está certa — nos elogios imediatos ou no desprezo posterior. Por alguma razão que não sei explicar, McCartney acabou sendo um artista ao mesmo tempo paparicado e perseguido, o que prejudica um julgamento imparcial da sua obra. Um exemplo disso é todo mundo lembra daquela parceria infame com Michael Jackson. Mas todos esqueceram que Mick Jagger também gravou com o Comunista de Neverland.

Na verdade, os resultados dessas últimas duas décadas têm sido irregulares. Press To Play (1986) é considerado um dos seus piores discos, inclusive pelo autor; Flowers in the Dirt (1989), aclamado por sua parceria com Elvis Costello, é considerado o seu retorno. Off the Ground, 1993, é elogiado por muita gente, mas é um disco absolutamente medíocre. Aí vem Flaming Pie, de 1997, para mim seu melhor disco nesses últimos 20 anos, e finalmente Driving Rain, de 2001 — que para alguns é excelente, mas que para mim soa estranho e pouco inspirado; vale apenas por umas três ou quatro faixas. Driving Rain traz a pior música que McCartney gravou em toda a sua carreira, Freedom, hino guerreiro deprimente composto logo após o 11 de setembro. Quem quiser entender por que Lennon, um músico inferior, é mais respeitado que McCartney, só precisa comparar essa canção com Give Peace a Chance.

Talvez por isso eu não estivesse muito ansioso pelo novo disco. Nem mesmo com o anúncio de que ele tinha dispensado sua banda e tocado a maioria dos instrumentos (hábito antigo, típico de um sujeito que tem que passar a vida provando a si mesmo que era melhor que Lennon). Nem o de que seria co-produzido por Nigel Godrich, produtor do Radiohead e de Beck.

Mas aí ouvi a nova canção do sujeito. Está disponível em seu site. Desde 1997 McCartney vem lançando seus singles na internet, antes do lançamento do disco. Young Boy em 1997, Driving Rain em 2001. Ouvi as duas e lembro de achar Young Boy um pop sem consistência e de achar Driving Rain francamente ruim.

Fine Line, a música de trabalho desse disco, é diferente. É uma canção típica de McCartney, com ecos dos tempos dos Wings; há muito tempo ele não faz isso. Não é brilhante, não é inovadora. Mas é consistente, e esse é um adjetivo que já não se dava a McCartney há algum tempo.

Paul McCartney já deixou de ser um artista fundamental há muitos anos, e o novo disco não vai reverter isso. Seus dias passaram, e hoje o tempo é dos Wilcos da vida, ou seja lá qual a sensação da última semana aclamada como os novos Beatles. Mas ainda é o sujeito que transformou a música ocidental, ainda é uma lenda viva, ainda é um dos mais completos e inventivos instrumentistas da história do rock e do pop, ainda é uma grande músico. O novo single é um bom presságio. Pelo menos para fãs.

4 thoughts on “Caos e criação no quintal

  1. O trabalho de Paul McCartney, hoje, pode ser comparado ao de Elton John (pode ficar puto, estou do outro lado do oceano): não tenho CDs dele mas não me incomoda ouvir suas músicas, que raramente tocam no rádio,
    Ciao

  2. O single do Maca parece ser bom, Dom Galvão. Mesma sorte não tive com o dos Stones, Streets of Love. Nada mais que uma baladinha pra ninar acampamento da terceira idade. Resta esperar pelo disco inteiro. Sucks.

  3. Como fã certamente terei dificuldades em fazer uma análise isenta. Mas vou prestar atenção no que você falou quando ouvir a nova música.

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