Sexo Anal
Uma tarde de sexta-feira de julho e eu estava saindo de casa para a doceria aqui perto. Na portaria, um pacote para mim.
Vinha embrulhado em papel pardo, como imagino que venham os vibradores e bonecas infláveis comprados por reembolso postal. O envelope não podia ser diferente, nem mais adequado.
Ali estavam eles. Dois exemplares de “Sexo Anal”, o livro do Bia, finalmente.
Eu já estava me sentindo humilhado. Todo mundo tinha o seu, menos eu. Tudo bem, eu pensava. Vou retirar tudo o que eu disse do livro. Genial um cacete. Brilhante uma ova. O despeito e a inveja sempre fazem a gente diminuir as uvas que não pode pegar.
Mas ali estavam os livros, finalmente.
A demora compensou. Além da edição normal, eu recebi também o número zero, onde o Bia fez ainda algumas correções. Agora é esperar que o Bia se torne famoso para eu vender minha cópia única do seu primeiro romance. Quer dizer, talvez. Porque a dedicatória me envergonharia um pouco. Imagine-se o leiloeiro da Sotheby’s dizendo, naquele inglês pedante-quase-gay: “And now for your appreciation: the very first copy of “Sexo Anal”, Anal Sex, the book that made Mr. Bea Jones famous. It includes a few words to his friend Rafael Galvão: ‘Toma, guei! O número zero!’”.
É uma forma meio complicada de passar à posteridade.
Mas é isso. São essas as idéias que vêm à sua cabeça enquanto você lê “Sexo Anal” numa doceria.
Sentado diante de uma torta de morango, um exemplar na minha mão e o outro na mesa, à minha frente. É quando sai uma velhinha da doceria. Ela olha para o livro na mesa, e vê a Marilyn fazendo biquinho para a vela túrgida e palpitante, e lê o título grande em letras brancas, “Sexo Anal”, e tem um sobressalto, e olha de novo para se certificar de que aquilo é verdade, de que aquilo não é uma peça pregada por sua mente, de que desejos há muito sublimados não forçam sua passagem pelas barreiras do superego. Ela vira a cabeça, como aquilo de que agora lembra virou tantas vezes antes, não pára de andar. Deve sair pensando que somos “uns indecentes. No meu tempo a gente fazia, mas não falava”.
Cheguei em casa e coloquei um disco do Howlin’ Wolf. A voz do negão combina com “Sexo Anal” como poucas outras. Combina também com minha nova idéia.
Eu agora tenho um novo divertimento. Demente como todos os divertimentos genuínos são. Agora vou para as casas de chá com o meu exemplar de “Sexo Anal”. Quero virar a cabeça das velhinhas. Fazê-las lembrar de tempos d’antanho, e olhar para mim com aquela cara de “se esse putinho fosse meu filho eu o enchia de porrada.”
This entry was posted on Thursday, August 18th, 2005 at 12:00 am and is filed under Cultura e outras bobagens. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can skip to the end and leave a response. Pinging is currently not allowed.
August 18th, 2005 at 12:25 am
A demora compensou. Além da edição normal, eu recebi também o número zero, onde o Bia fez ainda algumas correções.
Tô ARRASADA! Não ganhei nada disso de número zero e, depois que o zero é dado a alguém, o zero está perdido. Nunca mais faço café e muito menos macarrãozinho pro Bia! Tô ARRASADA!
Ah, essa das velhinhas, hein? Queria ver a cara das danadas…
August 18th, 2005 at 12:36 am
Se você levar pras velhinhas das campanhas que faz aí, acho que todas partem pra cima de você… e não será pra dar porrada.
August 18th, 2005 at 12:37 am
Quer dizer que o Bia deu o ZERO dele pra você? Não sei quem é mais GUEI !
August 18th, 2005 at 12:43 am
Pois é … e n recebi o meu exemplar. Vcs dois, hein?
Beijo,
August 18th, 2005 at 8:54 am
Depois que eu li a notícia de que algumas livrarias no Brasil estavam “censurando” o livro do Garcia Marquez por causa do título - “Memórias de minhas putas tristes” - me convenci de que o Biajoni vai ter muuuuuuito trabalho para vender o livro dele.
August 18th, 2005 at 2:38 pm
“Demente como todos os divertimentos genuínos são.” Perfeita essa afirmativa. Nos anos 70, ditadura a pleno vapor, toda vez que eu precisava ir a uma repartição pública, principalmente do Exército, eu fazia questão de colocar debaixo do braço uma das edições recolhidas que eu tinha d’O PASQUIM. Os caras olhavam e ficavam putos, principalmente se a identificavam como recolhida e eu - romântico! - me sentia um pouco “vingado”.
August 18th, 2005 at 2:52 pm
EU TAVA BERBO!
August 18th, 2005 at 7:53 pm
Sobre o que fala o livro? Vou ver se acho na net…Realmente é um livro que causa certa polêmica se ficar numa mesa de doceria…Ainda bem que a velha não estava armada com uma bolsa…rs
Abraços!
August 20th, 2005 at 12:40 am
Rafael, a capa do livro do Bia me rendeu algumas situações bem hilárias também. Eu inclusive fiz um tópico na comunidade dedicada ao livro no orkut (que, sabe-se lá por quais forças estranhas, escafedeu-se. A comunidade, não o tópico) falando sobre isso.
As pessoas não estão preparadas para a irreverência, pelo menos muitas delas. Que saco!
Espero que isso não seja um empecilho para a publicação, mas pelo que disseram aqui, sobre a censura ao livro do ‘Gabo’ (camon, né??), parece que muita gente ainda se preocupa com isso. Bandiburros!
Eu queria que o livro fosse publicado e virasse best seller!! Seria a glória!
Beijos.