O pior surdo

Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava “A Força do Destino”, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar, mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita… E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez “A Força do Destino”, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio…

Eu só tenho uma coisa a dizer: esse cachaceiro sem intuição mereceu toda a miséria, toda a falta de sorte, toda a pindaíba por que passou, e merece viver a sofrer enquanto é apedrejado pelas ruas, e que ao morrer na sua campa nenhuma inscrição.

É preciso ser muito burro para cantar “A Força do Destino” pela segunda vez. A Tosca lhe dava sorte. “A Força do Destino”, não. Bem feito. O pudim de cachaça viu o que acontece quando não se ouve os recados dados pelas musas.

11 thoughts on “O pior surdo

  1. Qdo criança, Vicente Celestino se fazia presente em nossa casa. Nunca mais ouvi isto. Agora, vejo desmoronar uma imagem infantil: ‘Uma pequenina boneca de carne…’eu tinha como ‘Uma pequenina boneca de Carmen…’ e achava a fala toda tão triste … lembranças, lembranças …

    Beijão, Rafa!

  2. *roflmaopimp*
    *rolling on floor laughin my as off and peeing in my pants*

    “Toooooooorrrrrrrrnei-me um éeeebrio e na bebiiiiiida busco esquecer….”

  3. Dele eu também gosto de “Pooooorta Abeeeeerta”.
    Prá quem só tinha um pulmão, até que berrava muito bem.

    Vicentão, r.i.p.

  4. Vicente Celestino é um clássico! O Ébrio é uma das músicas mais tristonhas de nosso cancioneiro, melhor é aquela … io ti voglio tanto bene… la mia Giocoooonda!

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