Do nada ao lugar nenhum

A manchete de ontem do Jornal da Cidade, o maior de Sergipe, diz o seguinte:

Senadores acusam governo Lula de perseguir Sergipe

O líder do PFL no Senado, José Agripino Maia, usou ontem a tribuna para acusar o governo Lula de perseguir Sergipe. “Se a situação do empréstimo que o governo do Estado está pleiteando junto ao BNDES não for resolvida em uma semana, em nome do PFL saberei reagir à altura contra essa perseguição política”. Segundo Agripino, a discriminação está relacionada ao fato de Sergipe ser administrado por um governador pefelista. Outros senadores se solidarizaram com José Agripino e com Sergipe. O presidente Renan Calheiros disse que cabe ao Senado defender a federação e os interesses dos Estados.

A notícia completa pode ser lida aqui.

Há algo muito esquisito quando senadores de um Estado defendem tão altruisticamente outro. É tão incomum quanto ver um parlamentar recusar a aposentadoria a que tem direito depois de dois mandatos. Mas o altruísmo de Agripino tem razões simples.

O empréstimo em questão é para a construção de uma ponte ligando Aracaju a Barra dos Coqueiros, do outro lado do rio Sergipe. São quase 200 milhões de reais. Ela já é conhecida como “a ponte que liga o nada ao lugar nenhum”. Não há necessidade real de sua construção, porque Aracaju não tem nada a oferecer à Barra dos Coqueiros, e vice-versa.

Quando o governador João Alves Filho anunciou a construção da ponte, garantiu que ela seria construída com recursos próprios. Era uma forma de se livrar da saraivada de críticas que vinha recebendo por apresentar um projeto tão esdrúxulo, tão desnecessário. A princípio não se acreditou na bravata, porque João Alves sempre faz esse tipo de promessa. Uma das mais curiosas foi o anúncio de uma fábrica de catchup de goiaba — seja lá o que isso for — a ser construída no alto sertão sergipano. Ele justificou a promessa lembrando que às vezes o jovem sertanejo não tem catchup para comer no seu hambúrguer. Deve ser verdade. O problema é que normalmente, além do catchup, ele não tem hambúrguer e nem sequer farinha para comer.

Ainda assim, se algum dia sair do papel, a fábrica tem tudo para ser um sucesso — assim que alguém encontrar uma mísera goiabeira no sertão, o que até agora, em toda a história do Brasil, ninguém conseguiu.

Enquanto isso o governador tem feito uma série de viagens internacionais, segundo ele para prospectar investimentos estrangeiros. Até agora nenhum dinheiro apareceu, mas as viagens constantes para lugares como Paris têm feito a alegria de sua entourage, composta inclusive por colunistas sociais — que, como se sabe, são fundamentais em uma negociação econômica.

Quando viu que a ponte realmente ia sair do papel, a oposição sugeriu que se chamasse Zé Peixe, em homenagem a um antigo prático que conhecia como ninguém a barra do rio, extremamente perigosa, e que virou personagem folclórico. Nada mais justo. Ela, no entanto, vai se chamar Construtor João Alves, pai do governador e meu ídolo pessoal, pelo seu singelo apelido de João Pica d’Aço e por ainda mais singelas aventuras com o sexo oposto. É essa a maneira como se faz política em Sergipe, não muito diferente — se diferença há — do modo como se faz política em todo o Brasil.

A promessa auto-suficiente de João Alves não se comprovou, e provavelmente nunca esteve em seus planos. Agora ele faz algo relativamente comum: tenta fazer com que a União pague pelos seus delírios megalomaníacos.

A primeira tentativa de chantagem do governo de Sergipe foi através do então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, com quem o governador sempre teve boas relações. A ponte entrou na pauta das negociações da forma mais simples: ou o empréstimo saía ou matérias de interesse do governo não seriam aprovadas. O governo, refém de uma crise que se estende até hoje mas que era então muito mais grave, chegou a anunciar que o empréstimo ia sair. No meio tempo, entretanto, Severino caiu e o poder de fogo de João Alves foi reduzido a quase nada. Agora ele volta a disparar sua baterias, e de maneira mais organizada por fazer parte de um jogo institucionalmente mais legítimo.

Essa é a oposição ao governo Lula, ou pelo menos parte dela. É capaz de jogar todo o seu peso para a aprovação de uma medida desnecessária e lesiva aos cofres públicos. A ponte é apenas mais uma obra faraônica, feita para reforçar o nome de João Alves e, segundo boatos, garantir recursos para a campanha do ano que vem, quando ele enfrentará uma campanha extremamente difícil. É também uma obra burra: isso poderia ser feito com obras mais relevantes e necessárias, como por exemplo uma ponte ligando Sergipe à Linha Verde, o que aumentaria o turismo proveniente da Bahia. Ou na recuperação das rodovias estaduais, abandonadas de maneira criminosa.

O episódio representa muito mais que uma questão local. É essa oposição que, ano que vem e ao lado do PSDB, vai apresentar uma alternativa a Lula, e que ultimamente andou tomando as cores da moralidade — cores que não combinam com o verde e amarelo do PFL, a propósito — e passou a representar uma antítese ética do governo Lula para uma parcela meio ingênua do eleitorado. Essa oposição, na verdade, nunca agiu de forma diferente. E em meio à derrocada moral que atingiu o governo, aqueles desiludidos pelas quebras de promessas do PT se voltam para uma tábua de salvação que, na verdade, nunca existiu.

21 thoughts on “Do nada ao lugar nenhum

  1. não sei porque mais esse seu post me embrulhou mais o estomago que o do Bia no Mimeographo essa semana. Não pela forma, mas pelo conteúdo. Tristeza.

    abração

  2. …não muito diferente — se diferença há — do modo como se faz política em todo o Brasil.

    Não é nada diferente do resto do Brasil. A ponte Pedro Ivo Campos, aqui em Florianópolis, (é, aquela mesma do Engº Miguel Orofino), foi entregue às pressas, antes de estar pronta, para que recebesse o nome do ex-governador, que faleceu durante o mandato.

    Até hoje a peste da ponte está incompleta. A passagem pra pedestres, por exemplo, nunca foi finalizada.

  3. …não muito diferente — se diferença há — do modo como se faz política em todo o Brasil.

    Não é nada diferente do resto do Brasil. A ponte Pedro Ivo Campos, aqui em Florianópolis, (é, aquela mesma do Engº Miguel Orofino), foi entregue às pressas, antes de estar pronta, para que recebesse o nome do ex-governador, que faleceu durante o mandato.

    Até hoje a peste da ponte está incompleta. A passagem pra pedestres, por exemplo, nunca foi finalizada.

  4. João Alves deveria patentear essa idéia do catchup de goiaba. Ele pode ganhar uns tostões com a patente para construir a tal ponte sonhada.

    (Só ele mesmo para querer ligar a Barra dos Coqueiros…)

  5. É ísso aí. Nem uma oposição que valha nós temos…Me lembro dessa história do catchup de goiaba, é mais uma daquelas que você lê e não sabe se ri, se chora se fica com raiva, enfim…

  6. Rafael, faz tempo que visito aqui, mas nunca tinha deixado comentário, normalmente seus posts são tão bem escritos que os dispensam, esse é outro excelente post, mas cabe o registro da indignação!
    Esse país não tem jeito de dar certo, sai ACM, entra ACM Neto, César Maia quer ser presidente e já tem gente do PFL apoiando, enquanto isso o filho dele já é deputado…
    Estamos todos fodidos, pois sempre vai ser assim, os filhos dos filhos desses filhos das putas sempre vão se eleger, pois o povo além de ignorante (eu tb sou povo), precisa comer, precisa acreditar, aí chegam esses boca-de-veludo trazendo cesta-básica, prometendo mundos e fundos, e sempre se elegem! Parabéns pela “denúncia”!!!

  7. Bom. qdo eu tinha lá os meus seis anos de idade, eu era de esquerda como minha mãe. Qdo eu terminei a 8ªsérie eu já era de direita. Hoje em dia não dá para ser p… nenhuma. Nem partidária. Eu prefiro ser racional, e analisar cada caso conforme a situação. Infelizmente há pouco eu descobri, assim como se vê no seu texto, que o importante nesta política não é projetos bons ou ruins,úteis ou inúteis, e sim, se eu der pra vc o q vc dá pra mim?
    Enfim, parabéns pelo texto, só não digo o mesmo pra política. Quanto ao catchup de goiaba, vou tentar fazer e ver se fica bom, se ficar eu patenteio. Afinal no sertão eu não sei, mais aqui em Guararema tem bastante goiabeira…

  8. O catchup de goiaba está para a produção agrícola assim como o dia do Saci-Pererê está para a política cultural. Que este seja idéia de um ultra-governista e aquele seja idéia de um oposicionista da pior laia (o pefelê coronelista) é, afinal de contas, nada mais que um testemunho do nosso miserê. Grande post, cabôco.

  9. Rafa, mais mais justo q o nome do Zé Peixe para a ponte. Conheci o sujeito. Ele era uma ‘ponte’ viva ali.

    Catchup de goiaba …. cada uma …. se tiver bicho, hein? Irk!!!!

    Bom post!!!

    Beijos,

  10. Que preconceito hein Rafa?! Já tentaram construir uma ponte dessa aqui em Recife(ligando o nada ao lugar nenhum, ficaria pertinho do fórum monolítico com o exterior TODO EM MÁRMORE, esse já tá pronto) e ia passar uns 12 carros por dia pô! 😛
    Minha vergonha nessa história toda é saber que esse povo atende pela alcunha de “Partido da Frente Liberal” pois o único Liberalismo que eles conhecem é o “Libera mais uma verba pro meu bolso aí chêfia!”. Concordo com o Wilson…

  11. Estou pensando seriamente em parar de acompanhar a política nacional, sei lá, virar um alienado, ou coisa assim. Meu estômago não anda mais aguentando. Vou fazer igual meu primo que quer largar a assessoria de ministro para virar designer de interiores. Bem, no meu caso, vou escolher alguma profissão de macho, é claro… ehehhee

  12. Ficou muito boa a transição que fizeste entre o evento regional e a sua implicação nacional. Aliás, como de praxe. É pena que na grande imprensa não haja – habitualmente – espaço para análises lúcidas como a tua.
    Thanks.

  13. Cuidar das escolas, pelo menos tapar os buracos das estradas (que aqui em Sergipe estão lamentáveis), investir em segurança pública… nada disso deixa “placa” nem requer inauguração. Político não gosta de manter, mas sim de inaugurar porque assim aparece na midia, faz discurso dizendo “eu fiz” ao invés de “eu cuidei, eu mantive o que meu antecessor fez, mesmo sendo de outro partido”. Infelizmente João Alves é assim – gosta de inaugurar obras mesmo que depois fiquem largadas, que não dêem certo.

  14. rafael, vou dar uma puxada-de-saco básica e concordar com o roberson: tanta merda escrevendo aí na “grande” imprensa (tipo ODCs e similares)e o povo carecendo de vida e texto inteligentes (tipo o seu…)o mundo é muito injusto mesmo.

  15. Coluna do Cláudio Humberto:
    “O prefeito de Aracaju, Marcelo Deda (PT), o senador Valadares (PSB-SE) e o deputado Jackson Barreto (PTB), que viviam trocando insultos (sobrou até para a mãe de um deles), agora se uniram no boicote de verba do BNDES para uma importante ponte. Porque a obra é do governo João Alves (PFL).”
    O destaque vai para a parte: “importante ponte”… bem informado pra zaraleo ele, e imparcial até debaixo d’água…

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