Numa madrugada de março

Madrugada, fumando na varanda, e olhando para o edifício em frente.

Eu estou no décimo-segundo andar do edifício, e não conheço a vista. Depois me dirão que dali, daquela varanda, dá para ver todo o cotidiano das pessoas que moram nos apartamentos para os quais olho agora, mulheres indo nuas do banheiro para o quarto, jogando a toalha na cama, colcando calcinhas e até absorventes, homens coçando a bunda e o saco, sentando diante da TV com o gestual do cansaço do dia ou da vida para ver o Jornal Nacional ou a novela das oito.

Mas agora, a essa hora, não há nada disso. A maioria das janelas está às escuras, como o apartamento em que estou. Algumas poucas dançam com luzes azuladas e fracas que mudam conforme muda a cena exibida pela televisão.

Uma das janelas, no oitavo andar, se acende. Um velho está em pé, diante de sua cama, de frente para a janela. Ele é magro, pequeno, como se o tempo tivesse tirado mais que sua vitalidade, tivesse tirado também sua substância. Ele está nu. Seus cabelos são brancos, mas seus pêlos pubianos ainda são pretos.

Uma velha sai de perto da porta, onde acendeu a luz, e vai até um criado mudo perto de sua cama, embaixo da janela, onde pega algo que parece um vaso ou uma jarra.

Ela é baixa como o seu marido, mas é gorda, seios grandes caídos, e anda balouçante, cada passo a inclinando para o lado como um pingüim. Usa uma camisola branca barata, de algodão transparente ou algo parecido. Ela anda até o velho.

O apartamento tem três quartos. No último, sempre o maior, provavelmente dormem os donos da casa. Os dois velhos dormem no quarto do meio. O quarto que resta, provavelmente, é do filho ou filha dos donos da casa, do neto dos velhos que estão acordados às três da manhã. Não é difícil adivinhar que eles são pais da dona da casa, porque essa é a sina das mulheres cujos pais são velhos a quem têm a decência de não colocar em asilos, cuidar deles quando já não podem cuidar direito de si mesmos, muitas vezes não tão graciosamente assim, porque em troca partilham com generosidade e falta de opção suas aposentadorias. A velhice já separou fisicamente o casal, e dormem em duas camas de solteiro paralelas.

A velha segura o jarro diante do marido, com paciência e uma mão na cintura.

Ele está fazendo xixi.

Quando ele acaba, ela sai do quarto, com a jarra na mão. O velho fica lá, em pé, cabisbaixo, os braços abandonados ao longo do corpo gasto.

A velha volta, com um pano nas mãos. Se fala algo não dá para ver, mas eu sei que fala. Joga o pano no chão, diante do velho, e limpa o que o velho deixou cair. Ela sai mais uma vez do quarto, o velho ainda em pé. Volta com outro pano, talvez agora com desinfetante.

Ele se senta na cama com a lentidão característica dos velhos. Sua mulher uma terceira vez do quarto, e volta com um lençol novo. Cobre o velho que agora está deitado, com uma perna magra dobrada, como uma criança. E então ela apaga a luz.

E ainda tem gente que pede vida longa.

11 thoughts on “Numa madrugada de março

  1. O sexo tanto aproxima quanto afasta um casal e no caso da velhice acaba-se toda a burrice dessa disputa. Tornam-se amigos e companheiros e têm um ao outro. Pior seria envelhecer sozinho. Beijus

  2. Vouyerismo diferente esse Rafa…

    A Luma disse algo que me lembra uma questão dialética, dos que se aproximam porque querem te comer (o óbvio) e dos raros que se afastam, porque querem te comer.

  3. Fale a verdade, espionar a casa dos outros de vez em quando é muito bom, não é? Já tive altas inspirações assim ao fazer isso.
    Quanto aos velinhos, relaxa! Vai ver são felizes assim. Um cuidando do outro. Foi que se casaram. A geração deles se casou para um cuidar do outro no final.
    gd ab e ot semana

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