A lenda de Vanderlei

Apesar de toda essa empolgação esportiva que tomou conta do Brasil nos últimos dias, a verdade é que este é um país que, em se tratando de Olimpíadas, nunca passou do medíocre. Um país que até 1980 tinha apenas 3 campeões olímpicos — Adhemar Ferreira da Silva, duas vezes, e o primeiro, Guilherme Paraense — e que, juntando todas as 20 medalhas de ouro que conquistou nesses 108 anos, mal se equipara ao que os Estados Unidos conquistam em um único dia, em qualquer Olimpíada.

Acima de tudo, o Brasil nunca protagonizou um único grande momento nas Olimpíadas. Vencemos algumas, perdemos muitas, mas com raras exceções cumprimos apenas o papel que outras nações desempenham com mais brilho.

Os grandes momentos, aqueles inesquecíveis, não são definidos pelas medalhas que se conquista, pelas vitórias ou derrotas. Às vezes são memoráveis pelo que poderiam ter sido, às vezes são a derrota que toca em algum lugar obscuro do subconsciente mundial.

Jesse Owens entrou para a história não pelas medalhas que conquistou na Alemanha, mas por ter feito Hitler abandonar o estádio enquanto passava em sua cara a teoria da superioridade ariana. A ginasta americana que saltou com o pé torcido ou quebrado em 1992 entrou para a história dos jogos pelo seu esforço, pela disposição em superar seus limites em prol de um ideal de competição.

E, acima de tudo, a suíça Gabrielle Andersen-Scheiss entrou para a memória coletiva de todo o mundo ao conseguir completar a última volta da maratona de 1984.

É uma das imagens mais belas da história das Olimpíadas, e dificilmente será igualada, muito menos superada. Por uma eternidade ela se arrasta pela pista de atletismo, contorcida, pernas dobradas. Se há algum limite de esforço e resistência humanos, ela o havia transposto uns dez quilômetros atrás. À margem da pista os médicos esperam que ela cruze a linha de chegada ou caia de uma vez, para que eles possam atender a uma mulher que já tinha dado mais do que tinha para dar, há muito tempo.

Não havia nada em jogo ali. Ela não iria ganhar nada. Ninguém a reprovaria por desistir. Ela não tinha que provar nada a ninguém. Ela já tinha perdido.

E mesmo assim ela insistia em completar aquela prova, como Fidípides correu para avisar que haviam ganho a batalha. Ela conseguiu. E entrou para a história.

Agora diga o nome da vencedora da maratona daquele ano.

Até hoje pela manhã, ninguém fazia idéia de que existia um sujeito chamado Vanderlei Lima que se considerava capaz de repetir o feito de Fidípides, ou pelo menos o da suíça Gabrielle. Quando a corrida começou, ninguém estava interessado em acompanhá-la. Só quando as pessoas perceberam que aquele brasileiro desconhecido tinha chances reais de vencer uma das provas mais nobres das Olimpíadas é que esqueceram um pouco a vitória no vôlei masculino e passaram a praticar o esporte preferido do Brasil, o de torcer pelos vencedores.

E foi então, quando Vanderlei liderava a corrida e se aproximava da realização de um sonho que nenhum brasileiro além dele sonhava, que apareceu o irlandês maluco e o segurou.

Agora o Comitê Olímpico Brasileiro quer a revisão do resultado da maratona.

Ganhar a maratona não vai fazer Vanderlei entrar na história. Ele vai ser apenas mais um, entre tantos. Ninguém lembra dos nomes dos vencedores das maratonas. Nem mesmo do pastor de ovelhas grego, cujo ídolo era Fidípides e que ganhou a primeira em 1896.

Mas a história do sujeito que poderia ter vencido, que estava na frente até ser atrapalhado por um louco, iria fazer de Vanderlei uma lenda, o símbolo do “quase realizado”, do “faltou pouco”, o homem que quase venceu a maratona. E há uma diferença abissal, incompreensível para os poucos neurônios do Comitê Olímpico Brasileiro, entre “o brasileiro que ganhou a maratona” e “o homem que quase ganhou a maratona”.

O Comitê Olímpico Brasileiro, mais acostumado às safadezas e negociatas da CBF, deveria respeitar a grandiosidade das lendas olímpicas. Que deixem os tapetões para os Flamengos, Vascos e Fluminenses da vida. As Olimpíadas têm, ou pelo menos deveriam ter, um ideal bem maior que isso.

Tentar dar esse título a Vanderlei é lhe tirar uma glória maior: a grandiosidade a que só as lendas podem aspirar.

Originalmente publicado em 29 de agosto de 2004

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