Rafael Galvão

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O horário eleitoral gratuito — e a Voz do Brasil entrando de gaiata

As respostas à pergunta do último post me surpreenderam.

Esperava que mais gente fosse contra o horário eleitoral gratuito. Esperava até que alguém dissesse “ah, mas você é a favor porque vive disso”, como se o fato de ser gratuito ou não fizesse alguma diferença.

A posição, na minha opinião, mais equivocada é a do André Kenji. Ao dizer que “Se o horário político fosse pago, os políticos teriam que pagar ou arranjar alguém disposto a fazê-lo, e não teriamos tanta gente brincando de ser candidato.” Ele pode não saber, mas é justamente a necessidade de ganhar eleições falando o que um amigo chama de “a linguagem do Maranhão” que gera o caixa 2 e outros pequenos problemas políticos brasileiros. É assim que se assumem compromissos. Algo qeu o Roberto Jefferson explica com uma simplicidade que chega a ser cândida.

O horário eleitoral gratuito é uma das maiores garantias da sociedade de que vai ter acesso à informação política. De que não são apenas os partidos ricos que vão conseguir fazer propaganda.

Em um Brasil em que os partidos comprassem o seu horário na TV, o que aconteceria seria simples: apenas os partidos mais ricos conseguiriam divulgar decentemente suas propostas. O resultado seria o fim da alternância no poder — idéia defendida com certo desespero eleitoral pelo PSDB nos últimos meses. Seríamos parecidos com os Estados Unidos, aquele lugar onde um partido só assume dois nomes diferentes e se mantém eternamente no poder.

Dando alguns exemplos: com a força cada vez maior da televisão, se não houvesse horário eleitoral é bem provável que hoje, 21 anos depois do fim da ditadura, o cenário político brasileiro ainda se dividisse entre PMDB e PDS. Talvez existisse já o PFL, que afinal apenas respondia a uma exigência histórica, mas dificilmente o PSDB sairia do PMDB. E, como lembrou o Eduardo, o PT dificilmente teria crescido.

O modo como os partidos utilizam seu horário são outros quinhentos. Pode-se ter desde programas brilhantes como os de Lula, na última eleição, a aberrações anacrônicas como os do P-SOL ou PSTU — sem falar no Eymael. Mas o nome disso é democracia. Se o PSTU insiste no 3×4 agressivo defendendo propostas anacrônicas, problema dele. O que cabe ao Estado não é definir o que os partidos — que representam necessariamente algum segmento social — devem falar, mas sim que tenham o direito de falar.

Graças ao horário eleitoral gratuito, as pessoas vêm aprendendo a votar. Podem comparar propostas, e aos poucos vêm aprendendo a separar o joio do trigo. Têm acesso de delírios protofascistas com os de Enéias a propostas concretas e razoáveis como as do PT e PSDB. E sim, também podem bobagens como as ditas por Clodovil. Mas é justamente essa a força do horário.

***

Outra surpresa foi o fato de tanta gente lembrar da Voz do Brasil, provavelmente por causa de sua compulsoriedade similar.

E quanto a essa, eu já não tenho tanta certeza.

Até há alguns anos, eu seria o defensor mais ferrenho do radiojornal. Em muitas regiões do país, era o único informativo a que as pessoas tinham acesso. E apesar da imagem chapa branca, é um excelente programa, que vale a pena ser ouvido.

O problema é que as antenas parabólicas mudaram um pouco esse panorama. Mais e mais gente tem acesso a outras fontes de informação. A Voz do Brasil ainda é necessária, mas muito menos do que há 15 anos.

Curiosamente, para muitas rádios no interior a Voz do Brasil é, sim, algo desejável — é o único programa jornalístico que têm condições de transmitir. Na verdade, os grandes defensores da sua extinção são as grandes rádios das capitais, que podem produzir seus próprios programas jornalísticos, e querem uma hora a mais em sua programação para faturar com publicidade. É fantástico que uma rádio seja uma concessão pública, mas que seus concessionários não queiram dar a contrapartida social necessária.

Talvez fosse viável apostar na opcionalidade da Voz do Brasil. Talvez ela deva, ainda, ser obrigatória.

Mas, independente disso, posso contar uma coisa por experiência própria: a Voz do Brasil é excelente para se ouvir em carro alugado sem tocador de CD, se você precisa dirigir entre as sete e as oito da noite.

9 Responses to “O horário eleitoral gratuito — e a Voz do Brasil entrando de gaiata”

  1. November 6th, 2006 at 5:14 pm

    Thiago says:

    Rafael,

    Outra vantagem da Voz do Brasil é algo que quase não se encontra mais em qualquer meio de comunicação, isenção.
    Concordo plenamente com o post.

    Abs

  2. November 7th, 2006 at 12:01 am

    Sandra says:

    Das três, uma:

    1) Ou sou uma completa, absurda irremediável alienada;
    2) Ou ando bebendo cerveja sem álcool demais;
    3) ou as rádios de SP não cumprem rigorosamente esse horário da Voz do Brasil?

    Falando em Sampa, quando é que tu vem prá cá???

    beijos

  3. November 7th, 2006 at 1:10 am

    crissmyass says:

    Sim, é um programa ótimo, maravilhoso, a começar pela vinheta de abertura, uma versão cantada à capela, mistura de Hino Nacional com com “Vida de Nêgo é difíci”, cheia de Lê, Lê, Lê, Lê! e arrematada com um entusiástico grito de “Voz-do-Bra-sil!!!” fazendo o desfecho num clima mais pra animadores de torcida de highschool.

  4. November 7th, 2006 at 1:21 am

    André Kenji says:

    Hmmm… Sem o voto obrigatório, as campanhas poderiam ser menos extensivas e caras.

    Até por quê o PT cresceu da sua base sindical, não de horário eleitoral.

    E os Estados Unidos são um país com dois partidos com diversidades imensas(Aliás, boa parte da oposição mais incisiva a Bush vem do próprio partido republicano) enquanto no Brasil temos dez partidos de discursos iguais.

  5. November 7th, 2006 at 9:16 am

    Yvonne says:

    Gostei de ouvir a sua opinião sobre esse assunto. Ainda assim, continuo não gostando. Beijocas

  6. November 7th, 2006 at 4:48 pm

    JULIO CESAR CORRÊA says:

    Não posso concordar com a existência desta aberração. Resquício de um período da história do país que só deixou saudades para alguns
    gd ab

  7. November 7th, 2006 at 5:33 pm

    Filipe says:

    Alguém cogitou a possibilidade de se desligar a televisão? Ou o “resquício saudoso de qualquer coisa de alguma época também impede”. A propaganda talvez não funcione tão eficazmente do ponto de vista da persuasão e informatividade para uma minoria que tem acesso a outros e variados veículos além da TV e rádio. Mas ela age (e muito bem) na maioria da população - que por ser maioria delibera nossos representantes - Dã! Com os marqueteiros esmerados que temos visto ela é mais tragável e pode sim estar ensinando o povo a votar, contudo uma ética interna deveria guiá-los a mercantilizar menos os candidatos e mostrá-los mais
    como funcionários públicos aptos a exercer a função a que se candidatam. Disso todos precisam saber e avaliar. De qualquer forma eu tenho desligado minha TV…
    Quanto a Voz eu gostava e ouvia só até a vinheta d’O Guarany.
    Abraço.

  8. November 7th, 2006 at 7:17 pm

    hermenauta says:

    Eu acho que hoje, em matéria de fonte de informação, há muito poucas alternativas ao horário político gratuito.

    Por outro lado, vivemos em um país onde o sistema político permite que um monte de sujeitos sem voto se elejam graças a um candidato extremamente popular, graças ao coeficiente eleitoral. Nessas circunstâncias acho que a contribuição do horário eleitoral gratuito para a maior diversidade eleitoral é baixa, porque quase tudo é arranjado antes, na hora de ajeitar a legenda.

    Quanto à Voz do Brasil, acho que devia ser tombada e obrigada a repassar, eternamente, as mesmas gravações da época do Getúlio.

  9. November 8th, 2006 at 6:30 pm

    maray says:

    Fora que onde mais você poderia ficar sabendo das marés? Principalmente se você vive numa cidade sem praia? Eu também sempre ouvia na volta pra casa no rádio do carro. Quando o carro tinha rádio. Quando eu tinha carro.

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