Os vagalumes que não acendem o rabo

Um post antigo sobre a Coleção Vagalume é um daqueles que recebem poucos comentários, mas constantes. Quase todos discordando, claro, que concórdia não é o subtítulo deste blog. Para uma sociedade que respeita o livro como um crente respeita a religião dos outros, mas que encara o exercício de ler como uma dieta, ação adiada sempre para a próxima segunda-feira, dizer que a coleção é medíocre e imprópria para ser adotada como padrão escolar é quase como xingar a mãe do sujeito. O fato de ler alguns livrinhos de cerca de 50 páginas, por aí, lhes traz legitimidade e a devida inserção na sociedade.

O que não parecem ter entendido é que não há nada de mau em ler aqueles livros. Eu li muitos; eram bom passatempo, livrinhos que se lia em meia hora. Mas poderia dizer que também li Sabrina, Júlia, Bianca, Tex, Mônica, Sidney Sheldon, Harold Robbins, Tio Patinhas; e daí? A questão nunca foi essa. Era o fato de o sistema educacional brasileiro ter feito uma escolha mediocrizante ao priorizar essa coleção como padrão literário para os estudantes. Goste-se ou não dela, a Coleção Vagalume é sub-literatura.

A outra questão que o post defendia era simples: a Coleção Vagalume não formou mais (ou melhores) leitores que livros de autores de nível muito superior. Continuamos sendo um país de analfabetos e iletrados; mas agora com cada vez menos referenciais. Talvez venha daí o antagonismo que os comentaristas criaram entre os vagalumes e Machado de Assis (que não foi citado no post mas que as pessoas parecem ter como sinônimo de boa literatura em língua portuguesa. Preferiram passar batido pelo Eça que citei; daquele pelo menos ouviram falar).

Essa comparação quase automática com o bruxo do Cosme Velho talvez seja o maior indicativo de que a coleção Vagalume não cria leitores. Eles sequer compreendem que Machado pode ter livros densos como “Quincas Borba”, mas também bobagenzinhas românticas como “Iaiá Garcia”; não compreendem porque, pelo visto, nunca mais leram nada. Talvez por isso, por colocarem tudo em um balaio só, eles façam como o Fábio Lopes e digam que não se pode “fomentar o gosto pela leitura com Machado de Assis”. Não apenas criam um antagonismo que não existe, como fazem supor uma questão muito interessante: para esses comentaristas, antes da Coleção Vagalume ninguém neste país lia qualquer coisa. Porque não se pode fomentar, etc.

Nos anos 80, claro, este país virou um paraíso de literatos. Patrícia:

Não há uma só pessoa que tenha sido alfabetizado na década de 80 que não se lembre de um livro da coleção vaga-lume. E ainda se lembrar dos titulos e das historias… Só por este motivo já esta provado a importância e a influência dos livros da coleção vaga-lume.

Lembrar não é o problema. Eu lembro daquela banda que cantava Vamos a La Playa, ô ô ô ô ô. Mas isso não faz deles algo minimamente importante.

Se alguém conseguir me mostrar qual a vantagem de, por exemplo, (inserir aqui qualquer título da coleção Vagalume) sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, eu ficaria muito grato. Eu não consigo ver nenhuma. Porque, independente do seu nível de compreensão, o livro do defunto autor é sempre adequado a qualquer nível. Não é necessário que se compreenda Machado no nível de um Harold Bloom. Basta ler e gostar. Ninguém está pedindo que se discuta aspectos sociológicos ou psicológicos do sujeito da ABL.

Se alguém consegue entender um livro qualquer daquela coleção — por exemplo, os policiais para retardados de Marcos Rey — consegue entender também “A Mão e a Luva”. Consegue entender, até, “Memorial de Aires”, o livro mais superestimado da literatura brasileira. Mas as crias dos vagalumes que não acendem o rabo, criadas com o vocabulário reduzido e os raciocínios simplórios desses livros, parecem esbarrar nas dificuldades intransponíveis criadas por uma mesóclise. Não conseguem entender que Machado é fácil, é de uma simplicidade enganadora; e que não há nada de mau em ser enganado dessa forma.

Mas mesmo agora eu acabo enveredando por aspectos acessórios do texto. O ponto central daquele post era o de que a intenção das escolas, ao adotarem como prato principal a Coleção Vagalume, não tinha sido realizada. Ela não formou leitores. As livrarias não estão mais cheias hoje por causa dela. O resultado é que continuamos analfabetos — mas agora com mais orgulho e auto-condescendência, porque em algum momento da vida conseguimos ler, sei lá, “O Caso dos Meninos Retardados na Ilha do Girassol”.

Emanuelle:

Jamais uma criança de 10 anos vai se interessar por um chatíssimo José de Alencar, com sua linguagem incompreensível até para pessoas acima de 20 anos…

Jamais é tempo de menos. Eu tinha 10 anos quando saí da Graça, onde morava, e fui andando até a Ediouro que ficava na esquina da Av. Sete com a Politeama para comprar “O Guarani” (junto com “As Viagens de Tom Sawyer”e “Winnetou”). Tinha lido “Iracema” no ano anterior e gostado. Crianças de 10 anos se interessam por Alencar, sim; difícil é entender que uma pessoa de 20 anos ainda corra atrás do cearense. De qualquer forma, o conceito de linguagem incompreensível só é justificado quando as pessoas, além de não serem expostas a boa literatura, também são alijadas da boa gramática por professores analfabetos certos de que, assim como eles, crianças não conseguem entender nada.

É o exemplo do Diogo Basso:

Li Memórias Póstumas de Brás Cubas aos 21 anos, e a muito custo. Se eu me deparasse com esse livro aos 12 tenho certeza que não passaria nem da primeira página (quem já o leu sabe porque). Aos 12 eu lia a série Vaga-Lume, e até pouco tempo tinha pra mim que o melhor livro que eu já tinha lido era um justamente dessa coleção (Açúcar Amargo).

Se aos 21 você não consegue ler nada melhor que o que lia aos 12, você tem problemas sérios. Está explicada a dificuldade em entender um livro tão absurdamente genial. “Açúcar Amargo” deve realmente ser melhor que os outros três livros que o Diogo leu.

Diogo é um exemplo vivo de um dos problemas mais graves da sub-literatura ensinada nas escolas: ela baixa o nível e acostuma ao que é menor. É como o sujeito que toma Canção a vida inteira e estranha o gosto de um Chianti. As pessoas parecem criar uma ojeriza instintiva a literatura um pouco mais elaborada. Jamais leriam um Osman Lins, por exemplo, para citar um de que a imensa maioria deles jamais ouviu falar.

Mesmo assim, gente como o Mauro Cesar se irrita:

Rafael, percebe-se que você não entende absolutamente nada sobre formação de leitores e é graças a gente como você que o Brasil patina nos indicadores de leitura. Leia esse artigo aqui e aprenda um pouco:
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1244

Eu pensava que o Brasil patinava nos indicadores de leitura porque, além de questões sociais mais graves e mais decisivas, professores preguiçosos e mal formados baixaram o nível do ensino. Porque o que sobra neste mundo é gente que adota a demagogia burra como modelo de vida, e se irrita com quem acha os seus valores e suas idéias inadequados. Mas o Mauro, com a arrogância da ignorância que é peculiar em quem tem orgulho de cada livro ruim que leu, viu neste pobre blogueiro um ser nocivo à sociedade. Preciso agradecer a ele.

O Alexandre Franco mostra outra conseqüência:

Infelismente , nao concordo com vc , se hoje eu me interesso, pela leitura ,é porque tive uma introduçao gostosa, sem pressao

O Alexandre tem razão. Eu, concordo, que, pressão, nessas, horas, torna, tudo, mais, traumático. Carinho e paciência, em momento tão importante, são fundamentais. Ouvi falar de mulheres que se tornaram frígidas por isso, pela pressão na hora da introdução. Tem uns escritores por aí que são uns cavalos. Mas acho que agora entendi. Alguns preferem a Coleção Vagalume para evitar esses traumas: porque são pequenos e fininhos.

No fim das contas, eu fico é com o comentário do Elton:

Acho que entendi o seu ponto de vista: nada contra a molecada ir na biblioteca e ler os livros da coleção vaga-lumes por diversão, mas o uso destes livros pelos professores como a base de cursos de literatura, ou melhor, de leitura, não é adequado. Não duvido que tenha gente por ai usando Paulo Coelho com o mesmo intuito. Nada contra os que voluntariamente se prestam a ler este tipo de porcaria, mas existem coisas mais adequadas de se colocar em uma sala da aula. E vamos parar com essa estória de que ler qualquer coisa aumenta o nível intelectual, como se passar os olhos sobre letras pretas em fundo branco tivesse alguma propriedade mágica. Muitas vezes o efeito de certas leituras é exatamente o contrário, como não me deixa mentir a imprensa nacional.

Eu não escreveria com mais concisão e simplicidade. E por isso continuo afirmando que, se é para ser analfabeto, que se seja analfabeto em algo realmente bom. Pelo menos é uma ignorância mais nobre, se é que há alguma nobreza nisso.

Republicado em 06 de agosto de 2010

37 thoughts on “Os vagalumes que não acendem o rabo

  1. Como professora, sinto-me de alma lavada com esse post. Obrigada Rafael. Recomendo a leitura do livro História da Educação no Brasil, de Otaiza de Oliveira Romanelli, para que sejam compreendidas as políticas educacionais deste país. Beijos.

  2. Como ignorante que sou, continuo discordando, em partes. Mas só falo por mim. Digo que sem a série Vaga-lume dificilmente eu teria seguido a trilha (exatamente nessa ordem): Ágatha Christie, Coleção Alfred Hitchcock Apresenta, Stephen King, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Machado de Assis, Rubem Fonseca, José Saramago, Raduan Nassar, Julio Cortazar, Gabriel Garcia Marques, Juan Rulfo…

  3. De fato, nossa sociedade acha que só ler já é o bastante. Talvez pensar não seja tão essencial assim… basta ler. Taí o “Doce Veneno do Escorpião” que não me deixa mentir haha. Entretanto quando a gente vai comprar algo tipo “a casa negra” do Stephen King e vê que, para isso, tem de desembolsar 70 reais você agradece aos céus por existirem os sebos… claro que lá você não achará a casa negra…. mas um “admiravel mundo novo” substitui muito bem. :p (eu poderia ir a biblioteca, mas nao vivo em aracaju onde tudo é logo ali… hahaha aqui no Rio de Janeiro as coisas são “um pouquinho” mais longe)

    abraços

  4. é por estas coleções que o Alexandre Franco escreve, por exemplo, infeliSmente. Putz!

    E ainda defendem estas porcarias!

  5. Vc, pra variar, ta coberto de razão …
    parece que nunca faremos o que realmente temos quer fazer …
    podemos, mas sempre fazemos menos, ou melhor, o que de menor se pode …
    Se, parafraseando o título de outra coleção equivalente (ou concorrente, sei la), à vagalume, “gostar de ler” fosse qualquer coisa, então fio…. TODO MUNDO gosta, e lê.
    Mas claro que não, estamos falando de cultura, de formação, de “crescer”, se é que vc me entende ….rs
    Assim, se “ler” fosse ler caras, sabrina, mônica ou tex então pronto: o Brasil já é apto a conquistar o mundo.
    Mas não.
    E nesse sentido vc tá certissimo (como não estaria .. oras).
    Vc realmente sabe muito e do alto de onde vc está, acho que tá na hora de tomar as rédeas do seu destino …rs
    Brincadeiras a parte, em termos de formação, é evidente que a Educação (leia-se Poder Púlico em todos os sentidos), deveria mesmo se preocupar (fazer!) em dar aos incautos coisas melhores e minimamente “autorais”.
    A própria “gostar de ler” já é, nesse sentido, meio milímetro acima da “vagalume”.
    E como vc tbm disse, temos em nossa literatura, e mesmo na estrangeira, muitos melhores títulos e obras, para um começar, do que a vagalume.
    Tem aquele do Graciliano (acertei?), “Alexandre e outras histórias”, que é delicioso e não força a mente de ninguem.
    Nesse sentido, faz todo sentido massacrar essa inócua opção educativa.
    A vagalume foi mesmo deliciosa, e pode continuar sendo, mas dai a acrescentar algo, vai longa distancia.
    abrassssssssss

  6. Como não lí nada até meus 15 anos me livrei de boa parte dos problemas relatados nos ‘antigos’ comentários.
    Meu primeiro livro, aos quinze anos, foi um que encontrei acidentalmente e roubei, do escritório do advogado que formalizava a separação de meus pais. Era um livro da Edições de ouro, A Republica de Platão.
    Porém o livro não foi impresso inteiro, acabava no número exato de paginas que a editora determinava que um livro deveria ter.
    Frustado com essa experiência fui a uma biblioteca pública e terminei de ler o livro.
    Depois vieram Aristoteles, Santo Agostinho, Dante, Cervantes, Maquiavel, Montagne, Descartes, Pascal, Kant, Oswald de Andrade, Machado, Carlos Drummond, Marx, Engel, Goeth, Guimarães, Graciliano e muitos outros e não na exata ordem que foi escrito aqui.
    Aos vinte e dois anos, bêbado e decadente, comecei a ler a coleção vagalume, e após dois longos dias cheguei tardiamente à mesma conclusão que o Diogo:
    Se eu me deparasse com esse livros aos 12 tenho certeza que não passaria nem das primeiras páginas( quem já leu sabe porque).
    Perdí dois dias da minha vida com bobagens, se fosse criança teria mais critério.

  7. Rafael,

    Eu também fico com o comentário do Elton! hehehe
    De início não havia concordado com seu post, já que na minha infância li vários livros da Coleção Vagalume e nutria certa nostalgia por eles. Porém tudo ficou mais claro com esse segundo post e principalmente com o comentário do Elton (hehehe de novo), agora concordo com você. Tive a sorte de ter uma professora que nos indicava livros “fáceis”, mas também indicava livros bons.

    Obs.: Mesmo assim O Alienista é uma m*rd*!!!
    Abs

  8. tá… posso comentar algo contra agora? hahahahahha sei lá, me incomodei com todo mundo falando bem do post XD “toda hunanimidade é burra” hehe :p

    eu acho a coleção vagalume muito boa tá! tem aquele desenhinho do vaga-lume…

    uma belezura só…

    vocês que é muito blasè hahahahahaha

    sacanagem ^^

  9. Rafa,
    Na realidade – e na minha opinião – o ler na vida de uma criança deve ser inserido com a naturalidade de escovar os dentes todos os dias e de tomar banho antes de dormir e ao acordar. São coisas que precisam ser feitas todos os dias, sem a possibilidade de não fazer…
    Se seu filho nunca vê a mãe lendo, se em sua casa não há livros, isso quer dizer, se ela não tem o exemplo dentro de casa, com certeza a leitura vai ser “um trabalho” e não um prazer. Meu filho tem livrinho para ler na banheira, quebra-cabeça que quando montado se transforma em livro, livro que acompanha musiquinha, que acompanha DVD. Antes de dormir, quase todo dia, sentamos um ao lado do outro, ele “lê” – pq só tem 3 anos – os livrinhos dele enquanto eu leio os meus. Isso é estimular, e isso não me faz ser boa ou má mãe, isso somente cumpre meu papel de preparar meu filho para um mundo cada vez mais competitivo e para os prazeres de uma boa leitura na vida de uma pessoa. Não é a escola que faz uma criança, é o que ela vive em sua sociedade, em seu meio, em sua casa e isso está muito além de classes sociais. A escola pode até mandar ela ler livros dos vagalumes que não acendem o rabo, mas jamais essa poderá ser sua única fonte de informação literária.
    Beijos

  10. Oi,
    Sou professora há uns dez anos, sempre ensinado português no ensino médio e fundamental. Adoro mesmo é dar aulas para o fundamental, quanto mais crianças, melhor. E nesse meu caminho cada vez mais tenho a convicção de que a escola deve sempre oferecer o que há de melhor para os alunos lerem. Meus alunos lêem comigo somente grandes autores e grandes livros, que eu leio e me emociono lendo, que fazem sentido, em excelente português e excelentes traduções. Pode ser Poe, Arsene Lupin, Tolkien, Machado, Clarice, Drummond, enfim… Esse ano a oitava pediu até para ler Dostoievski, por que não? Que leiam, que curtam, ou não, mas se lerem uma página e curtirem, já valeu, e não há porque diminuir. Desculpa… você só vai comer batata frita e bife porque é muito novo para experimentar um coq au vin, sei lá. Que besteira!!
    Em primiero lugar, a literatura ruim eles que leiam em casa, iamgina, dar Código Da Vinci na escola, ou col. vagalume, ou Simmel, não… não porque não devam ser lidos, mas porque quem lê esses livros, e gosta, vai ler de qualuqer jeito, não precisa de alguém que os apresente. E imagina uma prova de leitura de Harry Porter… Coitado do Harry!!
    Enfim, por que apresentar algo que eu acho médio e guardar para mim o Visconde Partido ao meio, do Italo Calvino? Acho até sacanagem, e uma espécie de condescendência. Ninguém nunca vai gostar de todos os livros lidos na escola, aliás muitos jamais vão gostar de algum ,qualquer que seja, simplesmente porque acham chato, por princípio, ler por obrigação, um princípio aliás que respeito, mas essas pessoas também não vão gostar nem de Sabrina, essa que é a verdade. Pelo contrário, às vezes essa história de facilitar acaba retirando dos meninos a possibilidade do encantamento real com a boa literatura. O ano passado fizemos uma sessão suspense terror e detetive na sexta série, e entre Arsene Lupin , Poe e Agatha Christie, e Poe ganhou na preferência geral, o Arsene também fez muito sucesso e a Agatha Christie ficou sem graça… na opinião dos alunos. O médico e o monstro, a ilha do tesouro o fantasma de Canterville… um ótimo quadrinho, Eu robô, do Asimov. Literatura legal e boa é literatura legal e boa, pronto. Vamos guardá-la para quê? para quando?
    Conto de todas essas minha sexperiências no meu blog, na parte lulu na escola, onde inclusive tem uma lista de livros que eu elaborei para ler com meus alunos do ginásio. Quem quiser olhar e opinar, é super bem vindo.
    Abraços a todos,
    Luana.
    http://lulu-diariodalulu.blogspot.com/search/label/lulu%20na%20escola

    o blog é
    http://lulu-diariodalulu.blogspot.com

  11. Talvez um dos dramáticos problemas seja que os próprios professores tem idéias bastante tacanhas e leituras limitadas. Vc ficaria surpreso com a quantidade de professores-não-leitores com os quais trabalhei…
    AÍ, calcado nessa pouca ou nenhuma leitura, optam por textinhos mais lights e , muitas vezes, idiotas. O QUE É UMA PENA.
    Não acho que todos dessa coleção sejam ruins, de forma alguma, mas concordo com sua argumentação.
    Afinal, “ler” não tem valor intrínseco, a menos que “o que” é lido tenha qualidade.
    (Mas aí entramos em uma discussão tão complexa…o que é qualidade literária…e como professora de Hist, não me arrisco e tentar definir.)
    Se não vou definir, me utilizo da avaliação dos estudiosos do gênero, passo a bola pra eles.
    Assim, concordo com vc.

  12. Belo texto, baiano, corretíssimo. Eu li vários livros dessa coleção, nem exatamente por indicação escolar – “A Mão e a Luva” sim – mas porque eu os tinha à mão e eu leio até instrução de tintura pra cabelo. Mas nunca atribuí a eles minha vontade, por exemplo, de buscar os clássicos nas prateleiras. Antes pelo contrário.

  13. Concordo plenamente. Acho um porre esses velhos que ficam com saudosismo em torno daqueles novelões.

    Aliás, me lembro bem que em um daqueles livros(Acho que Meninos sem Pátria) um dos personagens, o irmão do protagonista, simplesmente some de cena na metade do livro.

    ô coisa ruim…

  14. Acho que o mais importante é despertar na criança o gosto pela leitura. Se isso não acontecer na infância, dificilmente acontecerá depois. Difícil adquirir o hábito de ler depois. Muito difícil, infelizmente.
    Penso que o gosto pela leitura está intrinsecamente ligado aos estímulos que desde muito cedo são oferecidos à criança. Ser criado numa casa com livros e em uma família de leitores é o melhor início na formação de um leitor. Não te conheço senão daqui do blog, que visito com certa regularidade, mas posso apostar que a sua casa de infância transbordava de livros e teus pais gostavam muito de ler.
    Mas não é tudo e nem todos têm essa sorte. Por isso, à escola cabe um papel primordial. Talvez para você, que deve ter tido esses estímulos caseiros que citei um pouco antes, o Eça e o Machado tenham sido leituras fáceis aos 10 anos, mas para aqueles que não estão acostumados aos livros e vivem num ambiente onde todos encaram o exercício de ler como uma dieta, quem sabe não seja assim tão simples e a Coleção vaga-lume não seja um bom começo, que sirva para despertar interesse e curiosidade? Como você disse em algum momento, basta ler e gostar.
    Alguns dos comentaristas disseram que começaram pela Vaga-lume e não pararam mais. Me parece uma tentativa válida, porém acho que a formação do leitor pela escola deve começar um pouco antes.
    Acho que qualquer criança que, logo após a alfabetização, seja apresentada de maneira adequada a Monteiro Lobato, não largará os livros nunca mais e estará pronta para ler e entender os “clássicos” que foram substituídos pela Vaga-lume nas escolas.
    Divagando um pouco, vejo que o estímulo à leitura deveria ser, mas não é e nunca foi, uma das -prioridades de uma escola. Tenho 33 anos e muitos amigos que não lêem. Eles não têm livros em casa. Ando de metrô quase todo dia e vou e volto lendo e vejo as pessoas lá sentadas por meia hora ou mais e quase ninguém tem um livro. É uma pena. Eles não sabem o que estão perdendo e, pior, não querem saber…

  15. é aquilo mesmo: se vc não gostou de dom casmurro aos 12, então provavelmente vai continuar não gostando aos 21.

    e essa nostalgia da coleção vaga-lume não me atingiu, que a minha infância foi na década de 90. eu lia josé de alencar na escola e já detestava. o romantismo brasileiro, aliás, é das piores coisas que eu já vi na vida.

  16. Ri do começo ao fim de seu texto. Lembrei-me da minha infância e do meu primeiro contato com o pessimista Machado: foi aos doze, revelador, diria doloroso e bonito, quase um hímen rompido, rs…
    Mas o cerne da questão está, para mim, na capacidade crítica que é formada a partir de leituras que instigam essa formação e “melhora”. Não importa a idade.
    Isso do “pelo menos se está lendo” é besteira. Pode-se tirar proveito de livros ruins apenas quando se sabe discernir quais são estes.

  17. Eu tenho dois problemas quanto a esse post (no mínimo):

    _ Não me lembro de ser alfabetizado (sem ironias, por favor);

    – Aprendi a ler beeeeem antes da década de 80; e criei-me, na escola, à base de “A Mágica do Saber” e professoras que adoravam Machado e Érico Veríssimo.

    Eu tendo a concordar com você…em parte. Porque existe um aspecto da questão que não está sendo considerado por nenhum dos dois lados que aí se digladiam: não basta ler, tem que entender. E o problema é que um número absurdamente grande de crianças das escolas públicas não têm em casa nem um dicionário, nem muito menos pais ou irmãos que consigam lhes explicar passagens ou palavras que não consigam entender.

    Isso, decerto, vale tanto para a Coleção Vagalume como para os clássicos, embora certamente seja mais relevante no caso dos clássicos.

    Por isso discordo de você nesse detalhe: um analfabeto é um analfabeto, não é analfabeto em Paulo Coelho ou Shakespeare. E embora do ponto de vista estritamente das competências para a vida um cara que só tenha habilidades básicas de leitura ainda assim esteja melhor que um analfabeto total, é meio evidente que se este tipo de qualificação passar a ser entendido como objetivo e razão de ser de nosso sistema educacional, é melhor irmos todos pro aeroporto mesmo.

  18. Certíssimo. Ler como lazer é uma delícia e não tenho nada contra isso, mas a escola “should have known better”. Adorei essa história: “se é para ser analfabeto, que se seja analfabeto em algo realmente bom”. Lembrei do português da piada, que correu atrás do táxi para economizar mais. 🙂
    Bjs

  19. “Pode-se tirar proveito de livros ruins apenas quando se sabe discernir quais são estes.”

    Carolina, você deixa eu roubar essa frase?

  20. Lembrei de um episódio da infância:
    No primário, uma professora lá pediu pra ler um livro chamado “O Caranguejo Bola” (falo o nome pra ninguém cair na besteira de comprar pro filho caso esse atentado ainda exista). Lembro perfeitamente de já ter achado um lixo na época (e li em uns 20 minutos, enquanto as outras crianças semi-analfabetizadas penaram por meses). Além de ser má, muito má “”literatura””, a cultíssima autora passou o livro inteiro chamando o tal do caranguejo de “molusco”. Na época, eu ainda não conhecia essas classificações do reino animal, mas tive a imensa sorte de ter pais biólogos (e leitores compulsivos, como eu) que evitaram que eu absorvesse essa pérola da incultura. (Mas magoa-me que a minha mãe não tenha ido reclamar à diretoria imediatamente. É o que eu faria, se o filho fosse meu.)
    Nesse caso, quem é mais culpado? A autora ignorante e desinteressada de pesquisa, do tipo eu-estudei-na-escola-da-vida-e-juntei-dinheiro-para-poder-publicar-meu-livro ou a professora que COMPROU o livro, LEU, enxugou aquela lagriminha de emoção e o incluiu no currículo de suas aulas de língua portuguesa – lembrando que no primário a mesma professora também dá todas as outras aulas, inclusive as de ciências?

    Arre! Sem defender a coleção vagalume, que é de fato subliteratura do tipo “não quero pensar hoje”, pelo menos dá pra dizer que foi a editora quem pagou aos autores, não o contrário. E quem publica livros sabe do que estou falando.

    (comentário bagunçado da porra. São 7h30 da matina e não preguei o olho ainda. É que nem estar bêbada, mas sem o bafo de cachaça)

  21. Ui, coleção Vagalume na escola é dose. Me livrei dessa, apesar de ter lido varios que não lembro o titulo nem a historia.

    Engraçado esse problema com Machado se Assis, que concordo é facil de ler: claro, bem escrito, sem frescura.

    Gostei muito do comentario do Elton.

  22. Li toda a referida coleção, já que eram de leitura obrigatória. Fizemos inclusive peças de teatro baseadas em alguns desses livros. Eu gostava. Mas isso não me, digamos, deseducou. Não tenho antipatia pela série, nem me arrependo de tê-la lido.É um bom parâmetro. Mas Asimov é que devia ser obrigatório para adolescentes.

  23. Li toda a referida coleção, já que eram de leitura obrigatória. Fizemos inclusive peças de teatro baseadas em alguns desses livros. Eu gostava. Mas isso não me, digamos, deseducou. Não tenho antipatia pela série, nem me arrependo de tê-la lido.É um bom parâmetro. Mas Asimov é que devia ser obrigatório para adolescentes.

  24. Eu sou filhote dessa geração vagalumiante, mas ainda bem que eu tive uma mãe mais “iluminada” que o inseto pisca-pisca abastecendo as estantes de casa com livros mais interessantes e educativos. Pq se dependesse só da escola… ixe, tava no sal.

  25. Eu fui alfabetizado aos quatro anos de idade e li a Enciclopédia Barsa inteira e muito Monteiro Lobato, José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Castro Alves, Mário Quintana, Olavo Bilac, Isaac Asimov, Arthur Clarke, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e outros bem antes de ter contato com a Coleção Vagalume e com a Coleção Para Gostar de Ler, na sexta série.

    Lembro ainda das professoras passando como tema de casa fazer resumos de algumas histórias destas coleções. Era uma tarefa tão simples que eu não conseguia entender o propósito daquilo, mas muitos colegas tinham uma imensa dificuldade.

    Se a Coleção Vagalume e a Coleção Para Gostar de Ler fossem usadas na primeira ou segunda séries, como instrumentos auxiliares de alfabetização, acho que estaria perfeito. Eram histórias curtinhas e agradáveis, com enredo simples e vocabulário acessível, perfeitas para um primeiro contato com a leitura, junto com as histórias em quadrinhos da Turma da Mônica.

    Eu me assusto ao lembrar que tenham sido usadas no currículo da sexta série (não me recordo de na sétima e na oitava também) e que tantos colegas achavam difícil a leitura e a confecção de resumos. (Eu sempre achei enfadonho resumir, mas nunca difícil.) E me petrifico ao perceber que o panorama talvez tenha piorado de lá para cá.

  26. Lembro me bem da minha infância, onde o maior problema dos autores brasileiros era a linguagem rebuscada, pelo menos para a minha infância, a coleção vagalume era um bom começo, logo trocado por Poe, Shelley, e até Agatha Christie…

    Terminei por achar a literatura clássica brasileira parnasiana demais, e até hoje tenho um preconceito encrustrado sobre autores brasileiros, e uma preferência por autores estrangeiros traduzidos, onde a linguagem é muito mais clara (Crime e Castigo é um ótimo exemplo)

  27. hahaha… gostei muito do post, e sou da mesma opinião.
    mas a parte q me fez gargalhar e q valeu a leitura foi o comentário do Alexandre Franco e sua resposta…
    digna das melhores edições das *Alegrias q o Google me dá*…
    grande abraço!

  28. Não lembro de ter lido um único livro dessa série. Mas lembro de todas as HQ que li. rs.

  29. Deve-se sempre ter em vista ao apreciar uma obra de arte, seja ela qual for, certos critérios. Não é apenas qualidade, densidade, como também se é ou não vanguardista, isto é, se há na forma da obra algo que lhe traga novidade. Machado de Assis é exemplar nisto. Guimarães Rosa ou Dostoiévski, também. No entanto, o professor que dá para seus alunos a Coleção Vagalume ou qualquer tipo que tenha tido isso como única literatura na vida, não têm critério para avaliar os três acima citados. E, se esse tipo de subliteratura for única coisa que ele pôde ler, nem capacidade terá de fruir a literatura propriamente dita. Duvido até que essa gente consiga ler Graciliano Ramos na sua rude clareza. Mas isto não é tudo. Há algo que vejo como pior, que é, no período hodierno, a falta de distinção entre cultura popular, cultura de massas e alta cultura. Aposto que a mera distinção traz, equivocadamente, alguma impressão autoritária aos que não têm critérios para distinguir uma da outra.

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