A sorte de um amor tranqüilo

Notting Hill é o típico filme de que as pessoas têm vergonha de gostar — eu incluído.

Muita gente o compara a Pretty Woman, talvez por serem ambos comédias românticas, talvez por serem estrelados por Julia Roberts, ou porque os dois falam de uma história de amor entre pessoas sem nada em comum. Mas são filmes muito diferentes entre si.

Talvez a diferença esteja nos dois protagonistas masculinos. O personagem de Richard Gere é o sujeito que todo mundo gostaria de ser: bonito, rico, absolutamente seguro de si e do que representa na cadeia alimentar. É o sujeito acrofóbico que fica na cobertura porque não aceita menos que o melhor. E é homem o suficiente para casar com uma prostituta — embora isso só seja possível porque ela tem bons sentimentos, sente a verdade na ópera e, no banheiro, usa fio dental em vez de fumar crack. Ela pode ser puta, mas sua alma é a de uma dama.

O problema é que o único jeito de ser Richard Gere é nascer Richard Gere.

Mas em Notting Hill o personagem de Hugh Grant é exatamente o contrário. Um sujeito normal, com uns tantos fracassos na vida; inseguro, mas tranqüilo em relação à vida que leva; e extremamente capaz de amar. Ao contrário de Gere, o personagem de Grant não perdeu sua humanidade e sua fragilidade. Qualquer pessoa honesta se identificaria mais facilmente com Grant que com Gere. Mas além de tudo isso há um pequeno detalhe, que faz toda a diferença aí: William Thacker é também um vencedor, a seu modo. Não é inseguro demais; é confiante o suficiente para ir atrás de uma mulher que qualquer um julgaria impossível. É esse equilíbrio que faz dele um modelo melhor: ele é mais acessível, sem deixar de ser invejável. Lá no fundo você sente que não pode ser Richard Gere; mas pode ser Hugh Grant — e nem precisa gaguejar.

Pretty Woman não se eleva acima do seu amontoado de clichês. Notting Hill é uma das melhores comédias românticas feitas em muito, muito tempo. É, para começar, um dos filmes menos sexuais dos últimos anos. William Thacker e Anna Scott vão para a cama; mas é um não-evento, e na manhã seguinte não se vê nenhum deles cantando loas ao desempenho do outro. Sexo, aí, é entendido como apenas parte do amor, algo belo mas que não precisa ser supervalorizado, e talvez seja assim que deve ser.

Talvez o segredo de Notting Hill esteja no final.

Eu teria terminado o filme na cena da entrevista coletiva. Terminaria nos dois sorrisos, o de Julia Roberts e o de Hugh Grant. É assim que se encerram os filmes hoje em dia. É algo semi-aberto, que oferece apenas a promessa de uma possibilidade de futuro. As pessoas acreditam cada vez menos em finais felizes. Nos tornamos céticos e carregamos nossas cicatrizes com uma certa vergonha e muito medo de abri-las novamente.

É assim, por exemplo, que Pretty Woman termina. Em uma cena clichê e exagerada, mas adequada ao que o filme veio construindo, com o personagem de Gere dando uma de príncipe e vencendo suas limitações pelo amor de Julia Roberts. Ninguém sabe o que vai ser deles; mas ninguém se importa, porque naquele momento o amor se realizou completamente, e nestes tempos em que isso nunca acontece, em que as pessoas têm medo de dizer “eu te amo”, talvez não seja sábio esperar que sejam felizes para sempre.

Mas Notting Hill não tem vergonha de ser piegas, de se assumir romântico até as últimas consequências e de espalhar, sem medo de parecer bobo, os seus desejos. Talvez seja essa a grande força do filme. E por isso nós vemos o casamento de Anna e William, porque quando duas pessoas se amam sorrisos de parte a parte não bastam mais, elas querem ficar juntas; e então vem a belíssima cena final, com os dois no banco de um parque particular, ele lendo um livro, ela grávida, os dois se dando as mãos.

O que vemos ali, por alguns poucos segundos, é o que Cazuza chamou de a sorte de um amor tranqüilo. E por mais que as pessoas se digam modernas, por mais que elas assumam suas individualidades endurecidas e respeitem o espaço do outro, ainda é isso, afinal, que todos querem.

Originalmente publicado em 25 de outubro de 2005

19 thoughts on “A sorte de um amor tranqüilo

  1. adorei o filme e os personagens. um deles, que não lembro o nome agora, é totalmente um maconheiro doidão. bem engraçado!

    quero te sugerir uma incrível comédia romântica chamada Spanglish. adoraria ver seu comentário a respeito desse filme.

    todos procuram um amor tranquilo porque ninguém nunca encontrou.

    eu pelo menos não conheço ninguém.
    sou casada há 12 anos. conheço vários casais e nunca vi tranquilidade numa relação amorosa duradoura … se há amor, há também uma barreira atrás da outra…

    se não há amor, não há dificuldades

  2. Eu também gostei muito do filme. É para mim uma daa melhores comédias romÂnticas de sempre. MAs eu vi esse filme depois de passar umas férias em Londres em que fiquei hospedado em Notting Hill. Talvez por isso me tenha marcado mais o filme.

  3. Incrível, mas eu não consigo assistir a esse filme. Já vi umas cenas do início, do meio e do fim, mas nunca inteiro. Não vai. Acho que é o Grant que não ajuda. Se fosse o Gere, quem sabe! 😉

  4. esse filme é bonitinho. mas eu não quero a *sorte* de um amor tranquilo nao…
    Por: Kelly

    Por que não Kelly? Medo de amar, e ter de se entregar mais do que recebe da pessoa amada, ou é por saber que o verdadeiro amor é um trabalho diário de conquista da pessoa amada? Ou nenhuma das opções?
    Acho que um amor tranquilo, onde os dois se entregam totalmente um ao outro, sem cobranças, sem expectativas, é uma utopia. Mas é a utopia mais maravilhosa que se pode querer.

  5. Quando um dia eu der uma de Ítalo Morriconi e editar o livro dos “Cem Melhores Posts do Século”, este texto entrará na coletânea com certeza.

  6. Esse é o post pra fazer as pazes com a mulherada, né? Hehehehe.
    Mas eu concordo, tb adoro. E a música ajuda um bocado… sempre fico com nó na garganta com as cenas finais. 😛

  7. Rafa, eu AMO esse filme, eu chorei esse filme, mas tem um outro filme que eu aconselho: “As Pontes de Madison”…no final dá vontade de tomar a decisão pela protagonista…vale muito a pena ver esse filme também.
    Beijos

  8. Olá…fiquei um tempinho sem vir aqui.
    Me surpreendi com esse post.Sei lá, lendoi algus posts seus sobre cinema, achei que vc não gostava de nenhuma desses filmes de amor. Tbém curti Notting Hill, pelos mesmos e exatos motivos que vc. E a citação a Cazuza é perfeita…o filme retrata bem o desejo de um amor tranquilo. Mas antes de chegar, nesse amor real, (tbém utilizando Cazuza)…acho que todo mundo procura um amor inventado…exagerado.
    Adorei (vou agorinha procurar o post citado aí em cima, do Em algum lugar do passado)
    beijosss! adoro seu blog.

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