Joel Silveira

Achei o livro num sebo da Sete de Setembro. No saldão, sempre a seção mais interessante de qualquer sebo, cinco livros por três reais (e Norman Mailer, e Stephen Crane, e Chico Anysio e Graham Greene).

Eu já conhecia o Joel Silveira jornalista. Desde os anos 80, na verdade, na Revista Nacional que circulava encartada em alguns jornais em todo o país e que me parecia ser um dos últimos vestígios de uma época em que o Rio de Janeiro era o centro do Brasil. Eu não gostava dele. Me parecia um sujeito com uma língua muito malvada. Mas aos 15 anos, bobo como todos os que têm 15 anos, eu estava mais preocupado com Jack Kerouac.

Foi só há pouco tempo que descobri o homem que conquistou o ódio eterno dos granfinos de São Paulo, o correspondente de guerra na Itália. Foi quando conheci de verdade o seu estilo, algo que o coloca acima do jornalista comum: em “A Feijoada que Derrubou o Governo”. Aprendi a respeitar o sujeito ali.

Mas eu não sabia que ele era contista.

Da Sete de Setembro fui para a Colombo comer o de sempre, bomba de creme e viradinho de banana. E li o livro quase inteiro ali, porque é um livro curto que pode ser lido numa daquelas mesinhas. Por coincidência o lugar tinha uns paralelos interessantes com o livro. A Colombo é o que restou do Rio antediluviano; o livro traz os resíduos de uma Aracaju que morreu há muito tempo.

O livro que achei no balcão de saldos tem uma capa em preto e rosa, paupérrima, e um título indigente: “Vamos Ler Joel Silveira”. É uma coletânea esquisita, quase inexplicável. Pela data, 1982, e pelas características, parece ser obra de um editor que arranjou algum bom esquema com o MEC, durante a bagunça do governo Figueiredo, e ajudou alguns amigos. O livro foi lançado pela Editora Cátedra / Pró-Memória / Instituto Nacional do Livro.

Há um tom fúnebre nos contos de Joel Silveira, uma nostalgia mórbida e desesperançada, e a seleção neste livro reforça esse aspecto. Todos os contos são aparentemente autobiográficos; e talvez um freudiano qualquer ressaltasse neles a necessidade edipiana em Silveira de matar seu pai e de matar, também, a Aracaju que ele conheceu — Joel Silveira, cansado de brigas constantes com o pai, foi para o Rio com 18 anos. Talvez, mas isso não interessa. Nesses contos, seu alter-ego Jorginho é um adolescente às voltas com o fim do mundo que conhecia e a necessidade de enfrentar um mundo novo. O que há ali é um escritor interessante, talentoso, econômico para a época — um tempo em que o Brasil não conhecia Hemingway, ainda.

Se não há grande profundidade psicológica em seus personagens, seus atos e a descrição do ambiente são suficientemente marcantes para que as histórias fiquem martelando em sua cabeça; mas, principalmente, há uma verdade em tudo o que está ali que não é comum. Vários dos contos estão carregados de sexo; mas não é aquela lenga-lenga da descoberta do corpo feminino numa província esquecida por Deus. Está cheia de vivência real, que sem descuidar dos aspectos exteriores que condicionam os relacionamentos tampouco esquece que tudo aquilo, afinal, é mais antigo que o velho solar que vive seus últimos dias e assistem à desintegração de uma família. Nada é tirado de seu contexto e nada perde o que lhes faz verdadeiros. A impressão que fica é a de que o jornalista Joel Silveira alimenta e fortalece o contista. Nisso ele é um mais que legítimo autor da geração de 30.

Joel Silveira lançou dois livros de contos e duas novelas. Há ainda um de crônicas, mas esse é provavelmente mais próximo do jornalismo que da literatura. Não faço idéia de onde se possa achar esses livros, e não seria má idéia para Sergipe, onde Silveira já foi Secretário de Cultura, reeditá-los agora. Sergipe é pobre em bons escritores, e ainda cai no erro de valorizar apenas uns poucos, os inegáveis como Tobias Barreto, Silvio Romero, Manoel Bonfim, o brilhantíssimo e pouco conhecido poeta simbolista Hermes Fontes e, mais recentemente, Francisco Dantas e Antônio Carlos Viana. Enquanto isso ficcionistas com talento também inegável — e esse é o caso de Joel Silveira, como deve ser o de vários outros — vagueiam em um limbo injusto, enquanto esperam que uma posteridade imaginária lhes faça uma justiça que, provavelmente, não virá.

É uma pena. Porque o que Joel Silveira conta nessas poucas histórias é o panorama de uma Aracaju em que as pessoas moravam no centro e a cidade morria na colina de Santo Antônio, de um lado, e na Barão de Maroim, de outro. Uma cidade que ainda não tinha se aventurado além da rua Lagarto e que respeitava, como ainda hoje, os limites do rio Sergipe. Ainda com bondes, ainda com o Alto da Areia que já foi desmontado há tanto tempo. É uma cidade da qual, hoje, só restam fantasmas murmurejando em quase silêncio nos ouvidos dos mais velhos, que esperam sentados em cadeiras na porta de casa a hora de finalmente seguir o caminho dessa Aracaju que conheceram mas que morreu há muito, muito tempo.

Originalmente publicado em 24 de novembro de 2007. O texto já estava programado para ser publicado hoje, quando veio a notícia da morte de Joel Silveira. Coincidência interessante.

4 thoughts on “Joel Silveira

  1. Querido Rafael
    (sim, quem não sabia, saiba, que você é um querido mesmo)

    Olha só: eu respeito você e suas opiniões e julgamentos tanto, mas tanto, que vou – na medida do possível – suspender todos os meus compromissos de leitura ( prefácios e apresentações e principalmente umas duas ou três recensões e poucas resenhas – não digo isso para me exibir até porque não é o caso, por causa dese post sobre o “coté ESCRITOR* Joel Silveira.
    Li agora seu post e -Pater pecávit) constato que foi escrito em novembro de 2006.
    Mas eu sou doida mesmo, como me chamaram;-))) Como é que eu não vim ler este post, na época, como costumava passar tanto tempo lendo seu blog?.
    Agora voltando ao meu cilício:-) eu preciso começar dizendo que nah nah! vc não era um bobo, pelo menos não nesse aspecto da língua *marvada* do Joel.
    Era sim, mas principalmente (e agora vem o problema para quem se mete a fazer crítica literária) – até onde importam as características pessoaais do criticado?
    Como vc sabe Rafael, *crítica* vem de krinein e que faz dervar kriterion, e não, nunca, pelo menos até os trágicos, parece que Eurípedes, nunca esteve antes associada com o aspecto negativo que ora as pesoas relacionam e não dissociam uma coisa da outra.
    Mas, nesse caso, digamos que por estar mais velho e assistindo o final do que um dia foi o Império (ops a miúscula escapou e conservo-a) que foi os DA, e portanto pensando que não seria lido por mim nem por você;-), ele mandava uma brasa violenta, era ferino no mau sentido, deselegante e… porque não dizer desnecessáriamente cruel. Afinal, como eu mesmo sou testemunha, é disso, desse lado cruel e bizarro de falar mal de quem nem se conhece – apenas opinião e se pior, melhor – é que as pessoas gostam.
    Você deve estar lembrado, se lembrar, que era um tom que ultrapassava a fronteira do “desrespeitoso” – a um ponto tal que as pessoas deixaram de lhe dar crédito. Aquela coisa de que algo levado à hiperbóle chega a perder a função.
    =-=-=
    Ponto 2- A minha vergonha é que por meu blog, hoje em dia não ser mais lido nem ser uma referência como era antes, se é que foi – não me dá o direito de eu ser menos cuidadosa.
    Não me dou muita importância, como já pude provar, mas respeito quem eu admiro e se você diz que ele era bom contista, então eu vou fazer a necesária “suspension of disbelief”.
    Isso é uma questão de respeito próprio também, respeito profissional.
    Obrigada por ter sido tão consistente em seus argumentos.
    =-=-=-
    A acrescentar, querido, só o fato de que sim, (embora não tenha sido do meu tempo, nos meus 317 anos de idade hohoho) os jornalistas todos dessa época já conheciam Hemingway. No *worldwide* todos os jornalistas tinham como ídolo o Hemingway.
    A concisão era meta, o estilo telegráfico era o objetivo maior.
    =-=–
    Um outro ponto: a edição que vc leu fazia parte da “política cultural” da escritora que dirigia o INL à epoca: Maria Alice Barroso que fez edições de muitos autores que sim, estavam no limbo. Ah! e sem *mamata*;-) Moça séria!;
    Vamos ler Joel Silveira é de 1984.
    Há também o “As Grandes Reportagens de Joel Silveira, da extinta CODECRI, editora d’O PASQUIM – que se eu tivesse não me desfaria dela, mas sei que é fácil encontrar em sebos.
    =-=-=-=
    E, por fim dizer a você :
    1-que “Grã-Finos em São Paulo e Outras Histórias do Brasil, 1946
    reportagens, Livraria Martins é INDISPENSÁVEL , mesmo!
    2- que tenho a bibliografia completa do Joel, se é que o Geneton não publicou, e caso vc queira mando por email. Mas claro, é fácil encontrar também (mas eu numa prova de parvoíce e idiotice, disse que me dispensava de publicar. Que vergonha!
    3- Obrigada, obrigada, muitísimo por me chamar atenção para esse lado *escritor de qualidade* do Joel. Agora visto pela ótica de quem entende onde o regional passa a ser universal.
    Só queria mesmo era que vc também tivesse lido os romances, que, corretamente, ele e as editoras chamavam de novelas. (Do inglês, novel)
    =-=
    Pra finalizar, obrigada. Muito mesmo.
    um beijão
    Meg
    P.S Mais uma vez, o livro do Alex Castro, o RRR, vai ter que esperar mais um pouco, embora eu já tenha chegado ao ponto de saber é que é bom, sim.

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