Dos prazeres baratos

Estou longe de ser um bibliófilo. Não posso dizer que conheço os mistérios da coleção de livros como hobby sério, e nunca fiz um ex-libris para mim (mas há algumas semanas uma senhora na Kosmos, um bom sebo no Rio, me deu o endereço de um encadernador sério: Largo de São Francisco de Paula, 01. L.C. Encadernação, e o telefone é [21] 2252-6051. Vi o trabalho do sujeito, que não conheço, e me pareceu decente. A quem interessar possa).

Mas eu tenho um prazer bobo e inconseqüente. Não é o do bibliófilo, é o do alfarrabista, aquele sujeito que compra e vende livros velhos na esperança de achar uma raridade que vai fazer seu trabalho valer a pena.

Como sabe qualquer pessoa que tenha tido o desprazer de andar comigo pelo centro do Rio ou de São Paulo, eu gosto de sebos. Se tenho pena de dar 100 reais numa edição de “Sobrados e Mucambos”, que só consegui ler em 2006 porque ganhei de presente, fico feliz quando consigo comprar uma dezena de livros de uma só vez, até por mais que isso. Ou, de preferência, por quaisquer dez ou vinte reais.

A graça de um sebo não está nos livros raros e corretamente avaliados — e portanto caros, como uma primeira edição dos “Sermões” do Padre Vieira que esteve à venda há alguns anos por 3 mil reais. Está nos livros que se pode comprar por um real, ou três por cinco, e nas pequenas raridades escondidas em estantes empoeiradas e aparentemente desconhecidas dos próprios livreiros.

Em qualquer sebo, a minha preferência é pelos balcões de livros baratos. É onde se pode encontrar bons livros por preços ao alcance de todo mundo. Por isso me irrita quando vejo alguém — principalmente professores — reclamando que livros são caros. Livros novos são caros, sim, mas você pode achar bons exemplares por um real. Quem reclama que livro é caro é porque não quer ler e fica arranjando desculpa. Os balcões de livros baratos atendem perfeitamente ao objetivo primário de qualquer livro: ser lido.

Mas há também o que se poderia chamar de livros normais de sebo.

Posso dar um exemplo simples: há anos procuro uma edição barata de “Ascensão e Queda do III Reich”, de William Shirer. A edição brasileira, em 4 volumes, está esgotada há décadas mas é encontrável nos sebos com alguma facilidade, sempre por volta de 150 reais. Não pago. Li a maior parte do livro no começo da adolescência e queria reler há bastante tempo, mas não pago quase meio salário mínimo por isso. Não vale a pena.

No fim de outubro, na Livraria São José, na Primeiro de Março, achei uma edição comemorativa do livro, no original em inglês. Capa dura, sem sinais de que sequer foi lido. 40 reais. Comprei. E fiz um grande negócio, porque não vou ter que me sujeitar ao tradutor e tenho a garantia de que quaisquer correções históricas já foram feitas. E continuo rindo de todos aqueles que tentaram me arrancar 150 reais por ele.

Essa é a minha mania. É o que me deixa próximo de um alfarrabista e distante de um bibliófilo como o José Mindlin. Mas aos poucos vou me especializando — se é que se pode chamar tal atividade bissexta e normalmente casual de especialização — em um tipo de livro específico que só se encontra em sebos: primeiras edições de livros americanos.

São sempre o melhor negócio a ser feito em um sebo brasileiro. Por exemplo, há muito tempo comprei uma primeira edição de Quiet Days in Clichy, de Henry Miller, por 3 reais, um dólar na época. Já contei o caso aqui. Na minha última visita ao Abebooks.com, o livro chegava a ser cotado por 3714.36 dólares. Mesmo que o meu valha muito menos, ainda acho que fiz um bom negócio. Certamente venderia o livro por ao menos 10 dólares, o que já me daria um bom retorno percentual do investimento. 1000%.

Tenho outros pequenos orgulhos do tipo. Entre outras, uma primeira edição de Billy Bathgate, de E. L. Doctorow, e outra de The Information, de Martin Amis, compradas uns dois anos atrás por dez reais, cada, no antigo Imperial, sebo que funcionava no Paço Imperial e que hoje deu lugar a um desses ambientes que misturam livros caros, CDs e bar (um dia ainda entendo por que alguém em sã consciência inventa de vender CDs nos dias de hoje), esses sambas do crioulo doido que viraram mania porque dão a a impressão de ser algo sofisticado.

Gosto de saber que esses livros valem muito mais do que paguei por eles. É bobo, eu sei, mas isso me dá uma sensação de esperteza que me falta em praticamente todas as outras áreas da vida cotidiana.

9 thoughts on “Dos prazeres baratos

  1. há alguns meses, nem anos, meses, me propus a trazer das cidades que visitar, pelo menos um livro comprado num sebo ou em livreiros sem CDs e bar.

    até hoje deu certo. por enquanto, no entanto, não procurei (nem vi, a bem da verdade) itens raros, valiosos, que pudessem me fazer sentir o mesmo tipo de prazer que você sente.

    te entendo. se posso me arvorar essa pretensão…

    é um dos meus maiores prazeres (dos poucos reais) estar em um sebo, fuçando prateleiras empoeiradas, bancas de 1 real…

    abraços, Rafael.

  2. Sebos não somente são ótimos para comprar livros baratos, como para achar livros que não estão sendo editados mais; como outro dia, eu só consegui achar livros da Patrícia Hightsmith em um deles.
    E no que tange a preço, como disse o Galvão, só não lê que não quer, em sebos o livro é muito barato.

  3. Andava há algum tempo atrás do raro “Turo em Cor-de-Rosa” de Yolanda Penteado. Chegaram a me pedir 90 Dólares (sim, DÓLARES, em uma livraria no exterior especializada em livros raros de literatura brasileira)…

    De tanto procurar encontrei em um sebo, intacto, por 12 Reais.

    Não consigo conter o sorriso no canto da boca quando me deparo com episódios assim, nos quais o vendedor não tem a menor idéia do que tem na mão. 🙂

  4. Eu também me sinto esperta comprando livros baratos ^.~ Contraditoriamente, também fico com pena dos livros, por receberem tão pouco valor. Eu sou louca pra conhecer os sebos do rio, minha tia disse que eles são bem organizados, já aqui em recife é uma loucura, há algum tempo fui ao sebo e encontrei um volume de uma série que qria ler, a sétima torre(é de fantasia), perguntei por carta se tinha outros volumes, ele olhou pro livro, fingiu q se lembraça e disse q não, eu continuei olhando e achei mais outro 2 volumes, agora só me faltam três, fechei com a cara do homem, e fui embora, feliz da vida, já imaginando o prazer de ler as primeiras páginas.

  5. mas que excelente post. entendo perfeitamente o que tu queres dizer! acho.

    na Feira do Livro daqui de POA, eu sou capaz de ficar horas fuçando nas caixas de sebos e saldões a sustentar um olhar demorado entre as iscas de prateleira.

    e de um jeito análogo, eu me divertia no tempo em que uma rede de lojas de cds daqui tinha balaios a 3 por 10 pilas. comprava um Sabbath (renovei toda a coleção) e outros dois só pela capa. entre eles comprei um Gorguts, da qual nunca tinha ouvido falar, e descobri que é famosa por fazer o que fez comigo – despertar para o horizonte do metal avant-garde. e não custou 3,50. não é colecionável, mas receber tanto valor tendo pago tão pouco (que é diferente de nada) é uma delícia.

  6. Oi, Rafael!
    Tbém adoro frequentar sebos…
    Onde moro tem alguns, mas são meia-boca.
    Porém, para minha alegria e economia, pertinho da minha casa descobri uma locadora de livros…idéia que achei genial, e já li muitos, muitos (3 ou 4 reais a locação).
    Bem melhor que bibliotecas, que normalmente não possuem os títulos mais atuais (pelo menos as das cidades que já morei tinham um acervo bem pobrezinho). Como só compro um livro se realmente gostar muuuito, a locadora é o meu melhor achado recente.

    Essa parte do post: ” É bobo, eu sei, mas isso me dá uma sensação de esperteza que me falta em praticamente todas as outras áreas da vida cotidiana’ …ehehehe, adorei.

    beijosss!

  7. Sebo é muito bom mesmo…Comprei há algum tempo o “Homem que rí” do Victor Hugo e percebi, ao terminar de ler, que o livro tinha acabado mas a história não. Tinha comprado apenas o primeiro volume. Desde então procuro uma edição completa ou o segundo volume. Vc conheceu o Alfarrábio, que ficava em Ipanema?

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