Rafael Galvão

Flower

Meu beatle preferido

Agora é minha vez de dizer qual o meu beatle preferido.

Todos.

As razões basicamente são as mesmas alegadas pelo Allan. Os Beatles são um caso raro em que a banda só funciona com seus quatro elementos, em que o resultado final é muito maior que a soma dos quatro. Os Stones são os Stones sem Brian Jones ou Bill Wyman; os Beatles não seriam os mesmos sem George Harrison ou Ringo Starr. O melhor exemplo está nos discos solo de John Lennon e de Ringo Starr: em alguns deles os ex-beatles tocaram, mas o som não era igual ao que faziam na banda. Era o som de Lennon ou de Ringo. Por outro lado, mesmo quase 40 anos depois do fim, quando fizeram aqueles caça-níqueis chamados Free as a Bird e Real Love, o som era inegavelmente beatle. Isso é mágica, e não dá para explicar.

Já em termos de carreira solo, acho a de McCartney mais consistente, mais ousada, ainda que com resultados variáveis. Mesmo que seja encarado como o conservador da banda, McCartney é quem historicamente mais se aventurou musicalmente — rock, baladas, music hall, música erudita, standards. Dentro e fora dos Beatles.

Isso não quer dizer sempre melhor, necessariamente. McCartney tem discos deprimentes como o Wings at the Speed of Sound e o Off The Ground. Mas quem fala de Lennon deveria lembrar que boa parte de sua produção solo foi medíocre, que depois de dois discos geniais, John Lennon/Plastic Ono Band e Imagine ele gravou uma sucessão de discos ruins como o Mind Games e o Walls and Bridges. Já George Harrison, em que pese um início maravilhoso, viu sua carreira ficar cada vez mais rarefeita, lançando apenas dois discos solo inéditos nos seus últimos 20 anos — um deles póstumo, a propósito.

O Victor está errado ao dizer que Harrison era quem tinha mais vontade de refazer a banda. Na verdade, é exatamente o contrário. Até Lennon, quando se acalmou aí perto da metade dos anos 70, admitia a hipótese da banda voltar. Harrison, nunca: quando Lennon morreu ainda estava brigado com ele (saiu até tapa, foi uma baixaria, rapaz) e até o fim da vida manteve uma relação tensa com McCartney (ele dizia “cármica”), muito semelhante a de um irmão caçula em relação ao irmão mais velho. Foi Harrison quem disse que tudo o que os Beatles lhe deram foi “um sistema nervoso em frangalhos”. E só aceitou participar do projeto Anthology porque estava quebrado, graças à sua Handmade Films.

Já o Bruno justificou a sua preferência por George Harrison de maneira engraçada. Harrison não era hippie — nenhum deles era. E o seu relato de sua única visita a Haight-Ashbury (que Hunter Thompson chamava, brilhantemente, de Hashbury), no Verão do Amor, é interessantíssima pelo horror que aquilo tudo lhe causou. É verdade que era o menos pedante; ao mesmo tempo, era o sujeito que cantava a mulher de Ringo na frente dele e que ofereceu a própria mulher a Eric Clapton para poder comer a cunhada. E que me desculpe o Bruno, mas dos quatros Beatles acho o pior instrumentista. Melhorou muito depois do fim da banda, quando praticamente migrou para o slide guitar, mas ainda assim fica atrás de gente boa como Duane Allman. Por outro lado Ringo, um baterista forte, econômico, é relegado a quase nada pelos críticos.

Mas o mais curioso nessa pequena enquete é o número de pessoas que preferem McCartney. Alguém devia dizer isso a ele, porque o velhinho tem um problema sério em relação à afirmação do seu passado. McCartney é um gênio, um dos poucos que ainda restam. É um homem capaz de, aos 65 anos, lançar um disco cheio de frescor e ao mesmo tempo pungente como Memory Almost Full, e que em 2 anos lançou dois grandes discos pop, um de musica clássica e vai lançar agora mais um de música lounge, dance, ambiente, sei lá. Não conheço muita gente com sua idade capaz de fazer isso. E dos mitos dos anos 60, é (junto com Dylan) o único que ainda lança grandes discos, e o único que ainda explora frentes novas.

O diabo é que o melhor disco de McCartney não pode ser, por convenção, melhor que o pior dos Beatles. Se a convenção está certa ou não — e eu acho que não está; Tug of War é muito melhor que o Beatles For Sale –, não interessa. Quando o Chaos and Creation foi lançado, o produtor Nigel Godrich declarou que não queria McCartney soando como os Beatles. Basicamente, repetiu o que todo crítico diz sobre o ex-marido de Heather Mills. E aí está o seu drama, coitado. Para qualquer banda, dizer que lembram os Beatles é um elogio. Para McCartney, que mais que qualquer outra pessoa no mundo tem o direito a esse título, é um crime.

E a culpa é dele mesmo. Dele, de John, de George e de Ringo.

11 Responses to “Meu beatle preferido”

  1. January 4th, 2008 at 8:33 am

    victor freire says:

    ok, disso eu não sabia.

  2. January 4th, 2008 at 9:06 am

    Biajoni says:

    belo post, rafito.
    é incrível eu concordar.
    :>)
    mas o último melhor disco do macca foi FLAMING PIE, e lá se vão 10 anos. tem coisas boas nesses últimos, mas nada UAU!
    :>*

  3. January 4th, 2008 at 9:33 am

    Olivia says:

    mas o george harrison era mais gatinho ;-)

    era.

  4. January 4th, 2008 at 10:35 am

    Enio Luiz Vedovello says:

    De fato, dá para considerar a carreira de qualquer um dos quatro (mesmo o Paul) medíocre, se comparadas à carreira do grupo. Individualmente, eu vejo qualidades diferentes em cada um deles, não me arriscaria a classificá-los e escolher um melhor ou pior.

  5. January 4th, 2008 at 2:36 pm

    João says:

    Na festa de ano-novo eu e alguns amigos discutimos essa que é uma das grandes questões da história da música e, no final das contas, chegamos à mesma conclusão que a sua, Rafael: não existe um Beatle melhor entre os Beatles.

    A única coisa que até hoje não perdôo é o Ringo cantar “What´s Goes On” entre “Michelle” e “Girl”… Fica parecendo um amigo chato e bobão entre dois gênios românticos. :)

  6. January 4th, 2008 at 5:15 pm

    mari says:

    Nao valia dizer todos, tinha que escolher : PPP

  7. January 4th, 2008 at 5:21 pm

    gustavo says:

    “Isso é mágica, e não dá para explicar.”

    e eu achando que essa mágica era coisa de fã neófito impressionado (7 anos de beatles, mas ainda neófito). fico feliz em saber que não estou ficando louco e que existe mesmo algo de inexplicavelmente bom na banda.

  8. January 5th, 2008 at 4:33 am

    Allan says:

    De vez em quando eu acerto uma.

  9. January 5th, 2008 at 10:41 am

    Gabriel Trigueiro says:

    Rafa,

    Já escutou Arthur Alexander? Eu (meio ignorantão) só descobri agora que Anna (Go to Him) é dele. Gostei um bocado, rapaz.

  10. January 7th, 2008 at 11:31 pm

    Bruno says:

    George era o cara. E eu mudei de blog. =)

  11. January 18th, 2008 at 12:36 am

    Vivien Morgato says:

    Elvis..;0)

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