O fim da crítica de cinema

Tenho a impressão de que a principal função dos críticos de cinema será avisar aos espectadores se eles devem ou não ficar no cinema até o fim dos créditos de encerramento, para ver ou não aquelas pequenas codas que viraram mania nos filmes e principalmente nos desenhos animados. Será uma função nobre e honrosa, e vai dar a única informação realmente útil em suas resenhas.

Porque o estado da crítica de cinema nunca foi tão ruim. E quando falo em crítica não me refiro sequer a artigos de fôlego médio — tenho em mente um ensaio antológico de Robert Warshow sobre “Luzes da Ribalta”, de Chaplin, ou ainda a belíssima e sensível resenha de “Hiroshima Mon Amour” por Moniz Vianna como exemplos. Em vez disso, falo de crítica leve, a crítica diária a ser entregue no prazo de fechamento do jornal, como as pequenas obras primas de simplicidade e argúcia de Francisco Luiz de Almeida Salles.

Quando a Folha de S. Paulo dedicou duas ou três páginas a “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, trouxe entrevistas com o diretor e o ator, valores investidos na produção, repercussão na mídia, o diabo. Talvez aquele fosse um bom trabalho de reportagem — mas faltava a ele uma avaliação aprofundada do filme, que se apoiasse numa boa análise da obra em vez de apenas reverberar a opinião da mídia em geral, inclusive usando os mesmos clichês, ou falar do “impacto” social da obra.

É um tipo de abordagem cada vez mais comum, que pouco a pouco veio substituindo a crítica cinematográfica como se entendia. De crítica, mesmo, fica apenas o nome. Se assemelha mais aos resultados de uma campanha de marketing do que à apreciação racional de uma nova obra.

Parece ter havido uma contaminação irreversível e completa do exercício da crítica pelos press releases. É cada vez mais difícil achar uma resenha realmente boa, que permita um olhar adequado ou novo sobre o filme — um exercício de criação sobre uma obra de arte. Todos parecem trabalhar a partir do que a máquina de marketing da indústria quer que se diga. Não é implicância minha: pegue qualquer lançamento e procure o que se diz dele. Há sempre referências à indústria, ao mercado — tudo isso mascarando uma profunda indigência crítica.

(Nos Estados Unidos a situação é marginalmente melhor. Ainda há bons criticos como A. O. Scott e Manohla Dargis no New York Times, e o Roger Ebert [de quem nunca consegui saber se gosto ou não] está voltando para a crítica de jornal. Mas lá também a síndrome do press release parece ter tomado conta do cenário.)

Hoje estamos mais para Dulce Damasceno de Brito do que para Moniz Vianna. Ou, para usar figuras mais recentes, e ressalvadas as diferenças e dimensões, mais para Ana Maria Bahiana do que para Inácio Araújo.

Talvez o baixo nível geral do cinema no século XXI contribua para isso. Nunca, no pouco mais de um século do cinema, a produção cinematográfica foi tão homogeneamente medíocre, tão repleta de pequenos nadas repetitivos. Talvez a indústria em si seja mais interessante do que seus produtos. Talvez a formação de grandes estruturas de comunicação e entretenimento tenha feito de nossos críticos seres menos criativos, menos aplicados, menos corajosos. Mas a isso se alia também o baixo nível cultural dos jornalistas, um estado que tende a se espalhar cada vez mais, sem perspectivas de quimioterapia eficiente.

Cinema é uma arte derivada. Para interpretá-lo, é necessário levar em consideração outras artes e disciplinas. Não basta se trancar numa sala com uma pilha de DVDs durante semanas a fio para entendê-lo realmente (embora o conhecimento estritamente cinematográfico seja indispensável, e mesmo esse anda em falta). Não dá para avaliar, por exemplo, “Era Uma Vez no Oeste” tendo em vista apenas a evolução do western, de Tom Mix a John Wayne a Clint Eastwood, embora esse seja o ponto principal: é preciso entender o que era o mundo em 1969, ver por que a abordagem ideológica do processo de colonização do oeste americano sofria, ali, uma mudança importante e sutil.

E no entanto, quando se vê uma resenha de cinema em uma revista ou jornal, não parece haver nada a mais que a simples copidescagem do material de divulgação do filme — quando muito referências aqui e ali a opiniões emitidas lá fora e antes, nem sempre creditadas. Não há idéias, muito menos novas idéias, e o empréstimo de linhas inteiras de pensamento parece ter se tornado a norma. Por exemplo, a crítica a Superman Returns na Veja tinha sido inspirada, nitidamente, na resenha do New York Times — um exemplo de pobreza intelectual ainda pior que a original, que já não era muito boa.

No fim das contas, o único lugar onde ainda se encontra algo aprofundado é na crítica acadêmica — e essa costuma ser chata, pedante, com seus “signos” e “paradigmas”. Apesar de sua pretensão, não costuma formar um público melhor, porque é necessariamente restrita, elitista e inacessível a boa parte das pessas. É a crítica de jornal e revista, aquela mais simples e despretensiosa, que forma bons espectadores, por exercer um papel social mais importante e efetivo. Crítica de cinema não precisa de semiótica e quejandos. Precisa apenas de inteligência e talento. E é da falta disso que quem gosta de cinema tem todo o direito de reclamar.

Republicado em 09 de outubro de 2010

9 thoughts on “O fim da crítica de cinema

  1. putcha la vida, que belo texto. eu e o Brigatti conversamos sobre isso seguidamente (não só na esfera do cinema, mas da música, literatura). é press release, é “vê o que já saiu” – e lembro de um post recente do Sergio Leo falando que em cobertura de política internacional, nenhum jornalista quer destoar muito do que os outros vão dar.

    menos aplicados, menos corajosos. como diz o Brigatti, é a ditadura do “ah, é legal”.

  2. Rafa,

    Eu fui aluno da Ana Maria Bahiana e, particularmente, considero ela muito superior ao Inácio Araújo. Ah, gosto bastante do Roger Ebert. Na verdade acho que gosto mais dele porque detesto as pessoas que não gostam dele. São pessoas que normalmente acham a crítica dele “fútil” ou “superficial”. Pfui.

    Grande abraço, rapaz.

  3. Aliás, crítica de que – nesses “pós-modernos” tempos – anda prestando? Falta de “estofo” intelectual, diria o meu avô…sobra de compromissos e “fogueira das vaidades”, digo eu!

  4. O médio somente dissemina o médio.
    E a Veja, Istoé etc., isso aí tudo é mais ou menos médio. Quando eu era adolescente eu lia alguma coisa da Veja e pensava “pô, esse cara manja cinema…” hoje eu tenho esta mesma sensação que relataste, bem a mesma.
    Mas há coisas boas por aí. Já li críticas “funcionais” e mesmo assim boas na contracampo que pensam o cinema bem como linguagem, sem se impressionar com certos “perfumes” e opiniões formadas. Uma vez li a revista Teorema e gostei também.
    E acho que esta mesma relação de médio e coisas boas ainda existentes existe no cinema em si: tivemos nesta década muitas obras condizentes com seu tempo, que podem dizer de si mesmas contemporâneas, na qualidade de relevante e representante de seu tempo que este adjetivo carrega. Não citarei muitos exemplos para não me alongar no comentário, mas penso nos irmãos Dardenne, em Gus Van Sant e em Charlie Kaufmann para citar os mais clichês e diferentes entre si. Em suma, acho que o nível do cinema está normal neste início do século XXI.

  5. depois de ver a critica do “the kingdom” por tiago silveira no cinemacomrapadura (nota 8) vi que vc esta extremamente certo. Uma das piores produções norteamericanas dos últimos tempos, baseada simplesmente no puro preconceito e xenofobia. não escapa a pobre atuação do mal explorado foxx e muito menos a de garner com aquela eterna cara de choro que não se consolida. aliás, só pode ter sido uma crítica encomendada, pois tanto a crítica quanto o público rechaçaram veementemente o filme, que não arrecadou metade do custo. até o pobre foxx deu entrevistas quase como se sentindo culpado por ter protagonizado tamanha idiotice. portanto, não me interessam mais as críticas que visam satisfazer apenas os estúdios em detrimento da arte.

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