Santa Dulce da Bahia

Se eu fosse católico — ou melhor, se eu fosse pelo menos cristão —, eu teria um retrato na parede e um escapulário com uma foto de Irmã Dulce.

Bondade é uma virtude que anda meio em baixa em um mundo laico, onde as relações de troca são o principal motor da sociedade e cada dia mais aceitas como padrão. Bondade é vista com desconfiança, muitas vezes como disfarce de um egoísmo profundo — e as pessoas que se recusam a dar esmolas dizem que quem dá é apenas para aliviar a sua própria consciência, para se sentir melhor consigo mesmo.

E no entanto basta um olhar de relance para os olhos da Irmã Dulce, mesmo em fotos, para descobrir o que bondade significa.

Existe pouca gente que eu admire tanto quanto ela. E é na comparação com Madre Teresa de Calcutá que a sua grandeza é reforçada.

Há alguns anos vi um filme sobre Madre Teresa na TV. Um desses telefilmes de fim de noite. E o que mais me impressionou foi a falta de bondade naquela mulher. Ela fazia um serviço social importante, sem dúvida — mas faltava carinho, humanidade, amor. O que em Irmã Dulce era a materialização de uma bondade e misericórdia absolutas, em Madre Teresa parecia ser apenas o cumprimento de um dever amargo. Madre Teresa lutou para conseguir apoio oficial à sua obra — mas a Irmã Dulce fazia o mesmo sem apoio nenhum, fazia ainda que tivesse que invadir casas abandonadas ou ocupar o mercado de peixe.

Christopher Hitchens, que serviu de advogado do diabo no processo de beatificação da albanesa, diz que o buraco é ainda mais embaixo. Acha que ela gostava da pobreza, e não dos pobres: dizia às pessoas para aceitarem seus infortúnios com prazer, enquanto se opunha a políticas de planejamento familiar. Lembra a sua proximidade a gente como os Duvalier do Haiti. E era hipócrita ao atuar politicamente contra um referendo sobre o divórcio na Irlanda, enquanto dizia que sua amiga Lady Diana deveria se divorciar do príncipe Charles porque era infeliz. Acima de tudo, Hitchens diz que o famoso hospital de Madre Teresa não passava de “um manicômio primitivo — um lugar para as pessoas morrerem, e um lugar onde o tratamento médico era mínimo ou inexistente. (Quando ela mesma ficou doente, voou de primeira classe para uma clínica particular na Califórnia.)”

E em assim sendo, é tão diferente do Hospital Santo Antônio, que a Irmã Dulce construiu lutando contra tudo e que hoje é o mais importante hospital gratuito do país. O Hospital Santo Antônio sempre foi um reflexo da personalidade de sua criadora. Uma mulher decidida, dona de força insuspeita, mas em cujos olhos podia-se ver uma imagem quase aterradora de doçura e humildade. O Hospital Santo Antônio não era o que “os pobres mereciam”. Era o melhor que se podia oferecer, e foi lá que a Irmã Dulce foi cuidada quando sua saúde, que nunca tinha sido grande coisa, finalmente deu sinais de que ia embora de uma vez. O hospital era bom o suficiente para ela, como era para os pobres. “Ama ao próximo como a ti mesmo”, dizem que Jesus dizia, e foi o que ela fez.

Seu processo de canonização está avançando. O Vaticano já reconheceu a possibilidade de um milagre. Comprovado, será um passo importante para a beatificação e reconhecimento canônico do que um país inteiro já sabe: que a mulher que nasceu Maria Rita, foi ordenada freira no Convento das Carmelitas em São Cristóvão, Sergipe, e rebatizada Dulce em homenagem à sua mãe, era uma santa.

Mas o Vaticano erra duas vezes, e são erros imperdoáveis.

Erra ao nomeá-la “Serva de Deus” (o primeiro passo no processo de canonização). Sim, isso ela era, não é algo que se discuta, e sua fé é motivo de admiração. Mas não é por isso que ela é santa, a única que este blog reconhece. Sua santidade não vem da religião, porque religiosos os padres de Boston também são, como são aqueles que colocam grades em torno de suas igrejas para evitar que os mendigos durmam ali; sua santidade vem do fato de que, antes de qualquer coisa, ela era uma “Serva do Homem”, talvez a maior que a Bahia já conheceu. É a sua humanidade que a santifica.

O Vaticano erra novamente, e esse é o seu pecado mais grave, ao condicionar o reconhecimento da santidade de uma mulher que morreu há quase 20 anos a um “milagre” póstumo. Não é apenas prudência; é desrespeito e menosprezo à sua obra. Porque a irmã Dulce realizou o seu milagre ainda em vida, e isso a torna maior que quase todos os outros santos da Igreja; e se o Vaticano que endossa alucinações de beatas mirins que vêm a Virgem precisa de testemunhas, estão aí milhares e milhares de baianos que passaram pelas mãos de Irmã Dulce, e devem suas vidas a elas, à sua bondade, ao seu amor incondicional, e milagre maior não pode ser feito por nenhum santo.

Esse título a Bahia, sempre sábia em suas ladeiras, já deu ao seu Anjo Bom. Deu há muito tempo, porque não precisava de nenhuma outra prova. É a mesma Bahia que, como intermediário entre ela e as coisas do desconhecido, prefere Exu a qualquer papa, tanto o antigo com cara de bom avô como o novo com cara de velho sibarita. Decida o Vaticano o que quiser, isso não vai importar. A Bahia já canonizou a Irmã Dulce há muito tempo, ainda em vida. E deu a ela o nome de Santa Dulce da Bahia.

15 thoughts on “Santa Dulce da Bahia

  1. a única santa que esse blog reconhece é ótimo. eu já vi o filme da madre teresa. esses caras que filmam milhaaaaaaaaares de filmes no nordeste deviam fazer o filme da irmã dulce também. e foi bom saber dessa história toda.
    abraço, rafael.

  2. Me lembro de algo sobre ela na globo no começo dos anos 80
    ( reportagem? minissérie? acho que era minissérie), comovente mesmo, diferente de tudo.

  3. Pensei em escrever tanta coisa, mas vou apenas agradecer por lembrar que a bondade existe mesmo e morou na Bahia.
    Beijão

  4. Rafael, seu blog foi indicado por um grande amigo, Franciel (do blog Ingresia). Ele chamou minha atenção por conta do post de Irmã Dulce. Olhe, rapaz, eu trabalho nas Obras e lhe digo que fazia muito tempo algo escrito sobre ela não me trazia o que seu texto me trouxe: estímulo para continuar trabalhando apesar dos dilemas e dramas internos e externos de cada dia. Eu luto para não esquecer na rotina a razão maior de tudo que ela fez e faz; para não perder o essencial da vida (que eu, agnóstica, não consigo e nem pretendo entender). Seja lá o que o mundo e a vida signifiquem, Irmã Dulce me diz que estamos aqui para, a despeito de tudo, sermos felizes e que isso só se consegue plenamente não esquecendo que o outro existe: a miséria de um é a miséria de todos. Um abraço nordestino bem apertado.

  5. os caras do vaticano deviam ir lá no hospital.. na minha recente vista a salvador, passei na frente do santo antonio… e a energia que emana do local encheu os meus olhos de lágrimas,isso sem entrar!!
    valeu cada linha, querido amigo!!!
    ps: ja li um texto que dizia do provavel sadismo da MTcalcuta, da dureza de seus olhos e do amargo do seu viver…

  6. Há pessoas que fazem o seu trabalho só por fazer,há outras que colocam nele todo o seu amor e par tratar essencialmente de criançs é preciso ter a bondade e é preciso ter amor no coração para as crianças sentirem que apesar de todo o sofrimento ainda há alguem que as ama
    Boa semana para ti e se quiseres passa por cá
    bjo
    carla granja

  7. Hoje 26/11/2008, em uma pesquisa no site YouTube, só consegui encontrar um vídeo sobre a Irmã Dulce, mesmo assim em inglês e sem legendas, é triste mais é verdadeiro o ditado evangélico: “Santo de casa não faz milagre.”

  8. Pra falar bem de uma mulher santa, eu não preciso falar mal de outra. è isso que esse blog faz, baseando sua opinião sobre Madre Teresa de Calcutá em um… filme.

    Ser “serva de Deus” é muito mais que ser “serva do homem”, porque este significado está incluído naquele, porém sendo menor do que ele. “Amai a Deus sobre todas as coisas” é o primeiro mandamento. O segundo, “ama ao próximo como a ti mesmo” não passa de consequência do primeiro.

    O materialismo do blog impede enxergar essa verdade tão linda: a de que Irmã Dulce enxergava Deus em cada pobre que ela ajudava, e por isso, sim, amava tanto este último.

  9. um dia,assistindo um programa de televisão,ouvi o comentario de uma pessôa,o quanro madre dulce representou em sua vida,e isto me fez não adora-la,mas respeita-la pelo que ela representou para os mais nescessitados,por isto creio que a miséricordia de DEus já a alcançou

  10. CONHECI IRMÃ DULCE E TENHO O PRAZER DE DIZER CONVIVI COM UMA SANTA. FUI VOCACIONADA DA CONGREGAÇÂO A QUAL ELA PERTENCIA E MINHA EXPERIÊNCIA FOI NO HSA,COMO TAMBÉM RESIDI LA POR QUASE ANOS .NÃO TENHO DÚVIDA DE QUE ELA É UMA SANTA

  11. Estou aguardando a Beatificação da nossa santa Ir.Dulce, Acredito que prova maior de amor ela já deu , precisamos de profetas como Ir.Dulce, que deu valor ao marginalizado e visto como um nada.

  12. Oração a Santa Dulce

    Perdido no labirinto dos meus pensamentos,
    Pobre na fé, te procuro.
    E tu me acolhes, querida Santinha,
    Como acolheste os abandonados e marginalizados.
    Acolhendo-me, ensina-me o caminho da Luz!
    Então, intercede por mim, intercede por nós,
    Para que sejamos firmes na caminhada rumo ao Pai.
    Tu, cuja proximidade com Jesus é aquela que buscamos,
    amém!

    Esta é minha oração àquela que creio firmemente ser santa.

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