Uma velha caixa de correio

A gente se acostuma a tudo, às coisas boas e às coisas ruins — verdade que mais facilmente às boas; mas se acostuma também às coisas ruins, e convive e sobrevive a elas, porque no fundo todos nós somos isso: sobreviventes.

De vez em quando preciso lembrar que vivo em uma era de maravilhas, que essas coisas boas e ruins a que já me acostumei não me acompanharam sempre, que já vivi sem elas e não senti falta, nenhuma necessidade premente. Mas também preciso lembrar de quando em vez que a cada nova maravilha corresponde uma transformação, e algo se vai para nunca mais voltar.

Eu preciso lembrar que nasci e vivi em uma era sem celular, sem internet, sem computador, um mundo em que havia apenas dois canais de televisão, TV Aratu/Globo e TV Itapoã/Tupi, e a maior parte dos programas de TV era ainda produzida em preto e branco, principalmente os telejornais locais, e que alguns programas eram orgulhosamente transmitidos “via satélite pela Embratel”; preciso até lembrar que a Embratel era estatal, então.

E mesmo o meu mundo já era diferente daquele de 200, 300 anos atrás, quando ainda girava mais devagar, muito mais. Era um mundo que não mudava para as pessoas. Certo, havia uma guerra aqui, outra ali, mas as coisas não mudavam, e o mundo que o rodeava quando nasceu continuava o mesmo quando finalmente fechava os olhos para sempre. Já era um mundo em transformação rápida, mas ainda parecia que então tudo tinha um caráter mais permanente, ou pelo menos estável.

De qualquer forma o problema não é esse. É perceber que a cada nova maravilha que aparece e se imiscui em nossas vidas, outra desaparece.

Nasci em um tempo em que ainda se escreviam cartas. Os mais velhos que eu podem dizer que mesmo então já não era como antes, quando o telefone não existia ou, se existia, era caro demais e inacessível para a maioria, mas eu sei — e as memórias deles não vão diminuir as minhas — que as pessoas ainda escreviam cartas. Escreviam para contar as novidades, para declarar amor, para romper amizades. E ao escrever elas fixavam para sempre a sua história, sua existência deixava de ser efêmera e transitória para existir de verdade; passava a ser mais que uma memória nos corações e mentes dos outros e então se materializava.

Uma carta era mais pessoal que um livro, porque ali estava sua letra, única, individual, algo que não poderiam refazer ao interpretar o que estava escrito. Algo que sequer tinha interferência de outra pessoa, como tem por exemplo um filme ou uma fotografia. Porque ali não está só você, está você e o olhar de outra pessoa. Colocar sua letra no papel quase significava tornar-se imortal como as pedras de Stonehenge.

Em 1983, voltando da escola, achei na rua um pacote de cartas datadas de 1946. Um homem e uma mulher se correspondiam porque tinham um assunto em comum, espiritismo e a organização do movimento espírita, embora ali estivessem apenas algumas das cartas dele. As cartas eram escritas em bela caligrafia — outro item que vai desaparecendo à medida que vamos nos tornando mais rápidos nos teclados de computador — por uma caneta tinteiro que deixava a letra mais elegante, sutil, engrossando seu traço nos lugares adequados e dando uma personalidade que esferográfica alguma jamais vai conseguir dar.

Não eram cartas de amantes, mas de colegas, talvez amigos. O que os unia não era uma afinidade pessoal, e sim o mesmo objetivo de vida. Tinham o tom respeitoso do seu tempo, quando beijar a mão de uma senhora não era ainda sinal de afetação, quando uma grande honra que você poderia prestar a um amigo era pedir que ele dançasse com a sua mulher, e ele saberia se comportar à altura de tão grande distinção.

O e-mail, as mensagens instantâneas e o celular acabaram de vez com cartas pessoais como essas. E caixas de correio como a da foto vão se extinguindo, porque cartas agora apenas de propaganda ou de cobrança, e essas são colocadas às toneladas diretamente nas agências de correio, impessoais como os traços de uma Garamond ou Helvética na tela do computador. Por isso tirei essa foto, porque um dia quero me lembrar delas e dos tantos aerogramas que mandei para minha avó e que ela guardou até o fim de sua vida, e que agora voltaram a mim. Quero poder explicar à minha filha o mundo que conheci, contar como mandávamos cartas para as pessoas que amávamos, e poder mostrar exatamente como elas eram; talvez até mostrar a esquina em que uma delas ficava, e explicar a longa trajetória por que um sentimento passava até poder ser decodificado a quilômetros dali.

Dez anos atrás, um anúncio para Shreve, Crump & Low dizia que “Daqui a cem anos, ninguém vai encontrar seu e-mail carinhosamente envolto em fita e escondido debaixo da cama”. O anúncio tem razão, e foi isso que nós perdemos junto com as caixas de correio.

Republicado em 07 de outubro de 2010

24 thoughts on “Uma velha caixa de correio

  1. Rafael,
    Lindo post.
    Vc conseguiu, em pleno horário de trabalho, me fazer voltar no tempo.
    E por um momento fiquei triste, muito triste. Quantas coisas eu tive e não terei mais.
    Quantas coisas!
    ..galanteios…cheiros…cores…perdidos e sem retorno.

  2. Ainda não li o post. Passei só pra dar um alô e dizer que, por algum motivo, eu não li o seu post que falava da troca do feed, e fiquei esse tempo todo pensando que você estava de recesso!

    Abração.

  3. Rafael:

    Não se diz “bela caligrafia”, uma vez que, CALIGRAFIA já quer dizer bela letra ou boa letra do grego KALLIGRAPHIA. O correto seria dizer “bela grafia”. Aproveitando o seu post: outra coisa que está fora de moda e da saudade; o orgulho que as pessoas tinham – pelo menos as cultas – em conhecer bem a origem das palavras.

  4. Que post bonito.
    Eu estava falando disso com uma amiga ontem. Eu encontrei cartas de um primo que morreu há 10 anos, foi emocionante, e eu disse a ela que os e-mails ninguém guarda.
    Eu não escrevo mais cartas, inflizmente, mas sempre mando postais quando viajo.
    um abraço.

  5. Te achei hoje e adorei! Ótimo blog!!! E confesso com uma pontinha (beeeem grande) de tristeza que sou uma adolescente de 29 anos. Beijo!

  6. Menos, Santiago.

    Segundo o Aurélio:

    Caligrafia do Gr. kalligraphia s. f., arte de escrever bem à mão; arte de fazer boa letra; maneira de escrever; forma de letra.

    Segundo o Houaiss:

    caligrafia
    substantivo feminino
    1 arte ou técnica de escrever à mão, formando letras e outros sinais gráficos elegantes e harmônicos, segundo certos padrões e modelos estilísticos ou de beleza e excelência artística
    Ex.: a c. é um ramo importante da arte chinesa

    2 Derivação: por metonímia.
    escrita produzida com essa arte ou técnica

    3 Derivação: por extensão de sentido.
    estilo ou maneira própria, peculiar, de escrever à mão
    Ex.: só escreve à máquina por ter péssima c.

    4 forma determinada de um texto manuscrito, ou a disposição e proporção de suas várias partes características

    Pelo menos metade das acepções da palavra — “maneira de escrever” e “forma de letra” — aceita o adjetivo. Portanto, a expressão “bela caligrafia” é correta.

    E ser culto não caiu de moda. Caiu foi o pedantismo. Aliás, isso nunca foi moda.

  7. Menos o que Rafel:

    Todas as suas respostas só demostram que eu estava certo. Eu não sou pedante; eu sei. Você demonstou isso na sua resposta. Seja mais cordial.

  8. eu adorava escrever
    a amigos, namoradas então ….
    com a minha primeira, de oito anos (que graça né), me correspondia sempre, até sumirmos um da vida do outro, reencontrados agora, graças à tecnologia do orkut
    não é mesmo um paradoxo?
    grande abrassss

  9. acho que sou das últimas pessoas que conseguiu manter uma troca de cartas regular, isso lá pelos idos de 99, 2000. eu tive pen friends na época de colégio, e foi uma das experiências mais interessantes que eu já tive. infelizmente perdi contato com os meus antigos amigos (muito provavelmente por causa da banalização dos e-mails), mas muitas cartas eu ainda guardo com o carinho que você se referiu. e-mails e sistemas de mensagens automáticas não possuem o mesmo envolvimento emocional que uma redação feita com tinteiro, em papel de gramatura pesada, colocado em um envelope ofício com os dizeres “via aérea – par avion” e selado com um selo retirado de uma folha que você comprava de vez em quando nos próprios correios.

    uma pena, de fato.

  10. Santiago,

    Brigue com o Aurélio e com o Houaiss, se você acha que sua correção é pertinente.

    Quanto a ser pedante: quando você corrige algo que não está errado, e fica atentando para pequenos detalhes, você está sendo. É pedante também quando reclama que as pessoas não atentam para a origem das palavras, desconsiderando a evolução da língua — e aqui eu não estou justificando neologismos, mas formas aceitas e dicionarizadas.

    É pedante, sim, senhor.

  11. Caro Sr. Galvão:
    Muito bacana o post.
    Foi suficiente para suprir minhas doses diárias de nostalgia por uma semana, no mínimo.
    Cartas, embora arcaicas se comparadas à agilidade do e-mail, são realmente muito, muito, muito mais pessoais.
    É algo como um e-mail assinado do começo ao fim.
    Sempre tive uma CALIGRAFIA tosca (PNC de Santiago, o pedante), mas já troquei umas cartas em tempos idos, nunca esquecidos… Putz… Que saudades!
    Quanto ao referido Doutor Santiago e sua sabedoria avassaladora, sinceramente, dicionários etimológicos fazem o mesmo trabalho, são igualmente chatos (visto que não rolam), e ainda têm outra vantagem: Não enchem o saco alheio.
    Saudações frígidas da capital paranaense,
    Castor.
    PS- Concordo que um VTNC seria mais indicado, visto que você já havia explicado o engano do cidadão, que ainda, presunçosamente, retrucou. Rá! Lamentável!

  12. Eu tento “backupar” aquilo que escrevo. Mas sei que nunca será a mesma coisa. Já encontrei, pelas minhas caminhadas por aí, em lixos ou calçadas, vários disketes e cds. Não tenho a menor vontade ou curiosidade de pegá-los e ver o que tem dentro. E tenho certeza que se encontrasse um maço de cartas não resistiria.
    Eis aí uma diferença que me entristece: a palavra digitalizada não aguça a curiosidade humana.

  13. Sr. Galvão, um amigo (o queridíssimo Sr. Castor) me passou o link do seu blog. E agora aqui estamos os dois, no sempre produtivo horário comercial, nostálgicos e lembrando os velhos tempos. Mais um pouco e começaremos a falar do atari e dos desenhos antigos… soltando frases do tipo: “ah.. bons tempos…” e “essa juventude de hoje”.. hahaha.
    Excelente texto! 🙂

  14. Não tive fase de cartas ou de conhecer pessoas que se correspondiam fervorosamente, fosse por razões sentimentais ou não.

    Mas que o texto da propaganda citada no fim do post é cruel, ah, é sim. =(

  15. Oi, Rafael…eu gosto de escrever cartas ainda. Escrevo para meus afilhados , até porque são os únicos que respondem, criança adora papel, né? Sinto saudade das cartas de papel…que a gente podia cheirar (cheiro de papel antigo e/ou muito novo é tão bom!), abraçar ou , se fosse o caso, picar em mil pedacinhos.
    Lindo texto.
    bjo

  16. Eu, que já trabalhei nos Correios, devo dizer que não sinto a menor saudade das cartas. Como engenheiro de produção, devo dizer que e-mails aumentam muito mais a produtividade que as cartas.
    Por outro lado, os historiadores hão de ter um trabalho miserável no futuro, a menos que alguém se preocupe em fixar para sempre, em algum meio indelével, cartas, blogs, sites, o diabo.
    Mas você me deu uma idéia. 🙂

  17. rapaaaaz… o que que houve contigo?!

    a direita em pé de guerra, o país conflagrado, e vc nesses possts nostálgicos sobre as cartas que o seu avô escrevia a sua avó…

    que qué isso companheiro?

    às armas, cidadão!

  18. Helio,

    Strictu sensu, minha guerra eu já ganhei no primeiro turno, e sabe Deus a que custo. 🙂

    E o NPTO e o Idelber estão fazendo muito melhor do que eu poderia. 😉

  19. Os trotskistas não estão há quatro anos fazendo campanha sem férias. Dilma não vai precisar de mim para ganhar essa eleição.

    Quanto à visão, o PSTU e o PSOL não são exemplos de amplitude…

  20. Achei bem triste o post ;/ sabe no que eu penso Rafael? na letra das pessoas. As vezes penso que email eh uma coisa tao impessoal em que vc nao tem contato nenhum com a pessoa. Nas cartas pelomenos pegavamos aonde a pessoa pegou, viamos a caneta que usou, a letra como esta, como muda quando a pessoa esta triste, ou quando esta empolgada e escreve rapido. A carta da um ar completamente diferente a noticia, com certeza. falando em correios, voce recebeu o quadro que meu pai mandou?

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