Oitenta anos de esquecimento

A data passou em branco, como sempre. No último sábado, um dos acontecimentos mais trágicos da história da América Latina completou 80 anos. Ninguém lembrou.

Depois da missa dominical do dia 6 de dezembro de 1928, os trabalhadores da United Fruit em Ciénaga, Colômbia, aglomeraram-se na praça principal da cidade, acompanhados de suas famílias — velhos, mulheres, crianças. Estavam em greve.

A United Fruit era uma das principais multinacionais americanas, e tinha construído seu império produzindo e exportando bananas a partir dos países da América Central. Nos 40 anos anteriores, ela já tinha transformado quase toda a região em um amontoado de repúblicas de bananas, todas sob o seu controle. O termo tinha sido criado no início do século por O. Henry no romance Cabbages and Kings, abertamente inspirado no modus operandi da United Fruit, e se referia a todos aqueles países em que a empresa tinha influência tão grande que definia seus governos em função de seus próprios interesses. Com a conivência do governo dos Estados Unidos, a United Fruit já tinha patrocinado vários golpes de Estado em países como a Nicarágua, tinha invadido Honduras, e quase conseguiu fazer com que Honduras e Guatemala entrassem em guerra por uma questão de terras em suas fronteiras — pertencentes à empresa, claro.

Todo esse poder era possível porque a United Fruit se apropriava de boa parte da economia dos países onde estava presente — sem contar, claro, um alto nível de corrupção e chantagem. Se aliava a ditaduras, controlava porções imensas de terras. Com o discurso do desenvolvimento nacional, construía ferrovias com dinheiro público mas sob sua propriedade, e controlava boa parte da infra-estrutura desses países desgraçados.

No dez anos anteriores, as greves dos empregados da United Fruit tinham mudado de caráter. Das reivindicações puramente salariais do início, tinham evoluído para abranger também propostas políticas, incluindo a nacionalização das suas ferrovias. Os americanos viam nisso uma grave influência bolchevique, porque apenas comunistas ferrenhos poderiam ser contra um modelo que só trazia benefícios para paisinhos como aqueles.

Entre os benefícios trazidos pela United Fruit estavam os empregos de milhares de trabalhadores centro-americanos. Recebendo salários de fome e vivendo em condições sub-humanas, os trabalhadores não recebiam seu pagamento em dinheiro: em vez disso, a empresa os pagava com vales, que só podiam ser trocados nas suas próprias lojas. Esse sistema, no Brasil, é conhecido por “barracão”; no resto do mundo é chamado simplesmente de semi-escravidão.

É fácil imaginar o discurso da elite colombiana naqueles bons tempos. Aquilo era desenvolvimento, era livre-iniciativa, a United Fruit trazia a modernidade. Mesmo em países fora da esfera de controle da United Fruit, como o Brasil — que nunca pôde ser considerado uma “república de bananas” –, esse era o discurso prevalente; em grande medida, é até hoje. Infelizmente ele não era compartilhado pelos empregados da United Fruit, que trabalhavam de sol a sol, com o perdão do trocadilho, a preço de banana. Nem seria compartilhado por quem via na ação nociva de multinacionais como a United Fruit a destruição institucional de países inteiros, seu empobrecimento, o fim de sua soberania e sua desmoralização mais que absoluta.

Naquela greve em Ciénaga as reivindicações dos trabalhadores deviam ser mesmo coisa de comunista: um dia de folga por semana, tratamento médico médico gratuito e, finalmente, banheiros de verdade, que só existiam nas casas dos supervisores — quase todos americanos. Queiram também jornadas um pouco menores de trabalho, absurdas oito horas. E queriam o supremo ultraje de receber seus salários em dinheiro de verdade.

O problema da United Fruit era, obviamente, também problema do governo colombiano. Bogotá enviou tropas para Ciénaga.

Naquela noite de 6 de dezembro, com os trabalhadores e suas famílias na praça principal de Ciénaga, os soldados se posicionaram nos telhados dos edifícios dos cantos da praça, com metralhadoras. Abriram fogo. A ordem expressa era de não economizar munição.

O primeiro relato sobre o número de vítimas dizia que cerca de 50 trabalhadores haviam sido assassinados. O segundo aumentava esse número para algo em torno de 600. O relatório enviado pela embaixada americana na Colômbia, em janeiro de 1929, estimava em mais de mil o número de mortos. A fonte desses dados era a própria United Fruit. É possível imaginar que o número de vítimas tenha sido muito maior.

Governo, imprensa e United Fruit puseram uma pedra nesse assunto, e ele raramente voltou à tona novamente. O povo colombiano especulava sobre o destino dos corpos. Uns diziam que a United Fruit os tinha enterrado em valas comuns na floresta; outros, que ela tinha colocado os cadáveres em navios da companhia e os jogado ao mar. Criou-se uma lenda em torno do assunto, ainda mais persistente quanto mais proibido era.

No ano seguinte, numa cidade vizinha, Aracataca, nasceria um homem que, mais tarde, contaria essa história em seu principal livro. Seu avô, parlamentar, tinha sido um dos poucos a denunciar os horrores de Ciénaga. O menino cresceu ouvindo histórias sobre o massacre. Mudaria o nome da cidade para Macondo, e seu livro se chamaria “Cem Anos de Solidão”.

Mas ninguém mais lembra disso. Não foram necessários cem anos; bastaram oitenta para o seu esquecimento.

17 thoughts on “Oitenta anos de esquecimento

  1. Depois ainda teve o golpe na Guatemala. Vale lembrar o papel dos irmãos Dulles.

    Allen, foi da Boards of Directors da United Fruits e diretor da CIA. John, foi Secretário de Estado americano.

    Os dois tinham uma postura bastante agressiva contra o “comunismo”.

  2. Nao podemos tratar a Historia com desdem. Eh necessario sempre lembrarmmos desse tipo de episodio para q isso nao se repita. Valeu a lembranca.

  3. Rafael:

    Até o Gabriel Garcia Marques esqueceu, a julgar pelo que ele tem escrito ultimamente.

  4. Grande post, importante lembrança. Nessa “linha recordar eh viver sem repetir as mesmas bobagens de sempre” crescento ainda um editorial da FSP de 1971 que postei recentemente no meu blogue [e passou sem comentarios]:
    “Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele.
    Nunca ouve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. O país, enfim, de onde a subversão – que se alimenta do ódio e cultiva a violência – está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa que reflete o sentimento deste.”
    Octávio Frias de Oliveira, 22 de setembro de 1971

  5. Grande post, grande lembrança. Infelizmente ninguém mais lembra da história… infelizmente.

    Eu li 100 anos de solidão, um excelente livro.

    Abraços,
    monthiel

  6. Será chover no molhado, mas… Belíssimo texto.

    O que parece impressionante é a reedição de acontecimentos não muito diferentes, na AL.

  7. Não sabia da história, apesar de já ter lido Cem Anos.
    Achei que era surreal demais para ser verdadeiro! Tolinha!
    LEgal, mto bom texto!

  8. Parabéns, pelo texto! Grata, por trazer está história!

    Eu, até então, achei ser ficção o que estava em “Cem Anos de Solidão”.

    Levei seu texto, devidamente linkado, para uma comunidade no Orkut, Harém Brasil. Por querer que mais pessoas tomem conhecimento.

    Beijo grande,

  9. O pior de todo é que não só essa história é real sobre o livro, na verdade muitas coisas narradas são verdade com algumas licenças poéticas. Porque América Latina vive num mundo de realismo mágico. Se não for assim vão agora aos shoping e logo depois, desde seu carro brilhante vão até sua casa prestando atenção ao que olham pela janela. Realismo mágico, só num mundo de realismo mágico alguém pode comprar uns tênis de más de 500 reais e outra pessoa tem um salário mensal de R$300 para manter uma família. Realismo mágico mesmo.

  10. Tristes são histórias de casos particulares como esse. Terrível, coisa pra motivo de suicídio, é saber que esse tipo de ação está/foi institucionalizada pelo governo estado unidense. Não sei em que pé estão, se a coisa ainda acontece. Para entenderem do que eu falo, leiam “Confessions of an Economic Hit Man”, do John Perkins. Ou vejam o vídeo em que ele faz depoimentos, Zeitgeist Addendum.
    Ele era funcionário do serviço secreto americano para oficialmente (ainda que secretamente) chantagear líderes políticos estrangeiros que viessem a subverter “a lógica da modernidade”, liderada e brandida pelos EUA, voltando-se para o benefício de suas populações locais. Ou seja, ele era um elimina líderes íntegros. Quando caras como ele falhavam, vinham os verdadeiros “Hit men”, encarregados de assassiná-los, com pretextos de acidentes aéreos, automobilísticos, sequestro ou atendados.
    Leiam ele e busquem por suas fontes. Busquem pelas fontes do vídeo também.
    Querem saber uma notícia triste: A United Fruit era somente um soldadinho dentro do exército organizado de destruir populações de países pobres.

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