Sobre livros

Há algumas coleções de livros que deveriam ser reeditadas imediatamente. Simples assim.

Uma delas é a “Brasiliana”, da Companhia Editora Nacional, hoje controlada pelo IBEP. A Nacional foi fundada por Monteiro Lobato. Foi provavelmente a editora mais importante do século XX, noves fora, pela sua importância no cenário literário nacional. Tem muita coisa boa ainda em seu catálogo, mas é apenas uma sombra pálida do portento que foi um dia.

Na sua “Brasiliana” foram publicadas, pela primeira vez, algumas das mais importantes obras do pensamento brasileiro. “Sobrados e Mucambos” de Gilberto Freyre, por exemplo, ou ainda “Brancos e Pretos na Bahia”, de Donald Pierson, que um sebo de Salvador vende por 180 reais (na Estante Virtual achei por 40, e esse vai ser um favor que deverei para sempre ao Bia).

Essa coleção é um dos maiores repositórios do pensamento brasileiro no século XX, e não pode ser esquecida.

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A coleção “Clássicos da Literatura Juvenil” foi publicada pela Editora Abril no início da década de 1970, e já foi mencionada neste blog umas duas vezes — uma delas em comparação com a Coleção Vagalume.

A coleção é do tempo em que a Abril, que hoje tenta fazer pouco de qualquer revista ou jornal que lance fascículos, se consolidava justamente com eles — como as coleções de clássicos, bíblias ou enciclopédias como a Conhecer. A “Clássicos da Literatura Juvenil” é encontrada com relativa facilidade em sebos, por preços de vão de 1 a 7 reais, cada. Vale a pena, e é provavelmente a coleção que eu recomendaria a qualquer pessoa, em qualquer tempo.

A coleção é brilhante, perfeita para quem está começando a ler. Não apenas pelos excelentes títulos. Mas porque, com sua capa dura, ilustrações e bom trabalho de edição, ensina as crianças a gostarem do objeto livro. Talvez isso seja meio antiquado numa época em que se tenta vender o conceito de e-book readers, mas à medida que o tempo passa tenho mais e mais certeza de que ainda não inventaram nada melhor que ler um bom livro, numa edição bem cuidada, deitado em um sofá, uma cama ou uma rede, com a perna apoiada sobre uma bunda redonda e quente, enquanto a brisa da praia passa devagarinho por você.

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Outra coleção que deveria ser posta na rua novamente não é propriamente uma reedição.

A editora mineira Itatiaia tem uma das melhores coleções sobre história do Brasil, a “Reconquista do Brasil“. São textos fundamentais da história brasileira. Rugendas, Mawe, Burton, Saint-Hillaire, Ewbank: esses livros são peças fundamentais para quem quer entender a evolução histórica do Brasil. Porque são as fontes originais, utilizadas por praticamente todos os historiadores decentes do país. É comum as pessoas, por exemplo, se posicionarem contra ou a favor de Gilberto Freyre — mas a maior parte dessas pessoas nunca chegou perto do material que ele utilizou para chegar às suas conclusões. Esses livros são o antídoto definitivo contra a epigonia.

Estão todos ali, mas esses livros são vendidos por preços altíssimos, bem acima da média. E os preços altos condicionam também os preços dos mesmos livros nos sebos. Não há justificativa real para isso: a maior parte dos textos originais, inclusive, já entrou em domínio público há tempos. Só são caros assim porque são raros. E só são raros porque, mesmo sendo fundamentais para a formação do pensamento nacional, não encontram competição. Não são livros que vendam muito, não sustentariam a livre concorrência,

Universidades brasileiras, em vez de gastarem tempo e dinheiro financiando pesquisas e teses ruins ou incoerentes, bem que poderiam gastar um pouco de esforço e dinheiro para traduzir e transcrever esses livros, colocando-os em domínio público sob uma licença Creative Commons. Se esquecessem um pouco seus interesses corporativos, estariam prestando um favor maior à cultura nacional do que incentivando seus alunos a publicarem monografias bobas e mal escritas.

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A edição brasileira da “Comédia Humana”, de Balzac, era uma das melhores do mundo.

O responsável por ela foi o Paulo Rónai, que publicou uma edição quase perfeita: excelentes traduções, em português acima da média, com introduções críticas e uma abundância de notas de rodapé explicando o contexto histórico do livro e também as relações com outros livros da “Comédia”. A Editora Globo reeditou esses livros entre o fim dos anos 80 e começo dos 90, mas essa edição está fora de catálogo já há muito tempo.

Eu ainda não faço idéia da razão pela qual a “Comédia Humana” está fora de catálogo. É impressionante que um dos maiores autores da história da literatura mundial esteja relegado à reimpressão de alguns dos seus piores livros, como “A Mulher de Trinta Anos”.

Balzac faz falta.

8 thoughts on “Sobre livros

  1. se é pra falar da editora abril, por que não pedir também uma reedição dos manuais da disney?

    ah, tá, a abril hoje se preocupa mais em tirar o lula do poder que em, hã, fazer revistas.

  2. Essa Brasiliana foi reeditada, se não me engano, pelo Itamaraty há alguns anos, rafael. Vou catar lá em caa e te conto.

    estávamos falando dia desses desses clásicos da literatura juvenil. Clássicos recontados por Marques Rebelo, Cony e outros craques. Tinha de ser reeditada, não sei se esbarram em direitos autorais.

    A Comédia Humana tem em sebo. O probleam é que a segund eduição, mais recente, tem a nuemração trocada; quem tiver da antiga e comprar os volumes que faltam corre o risco de comrpar obra repetida. Que nem o panaca aqui.

  3. pô, sergio leo, esses clássicos recontados não são editados pq são muito ruins! não conheço ninguém que goste desses títulos, tirando o rafa. é uma excentricidade do sujeito!
    :^)

  4. Paraíba: este é um magnífico post. Concordo integralmente com o naco de responsabilidade que você atribui à universidade nesta situação. Há anos eu me bato para que o trabalho de um sujeito que resgata, edita, prologa e escreve notas para um clássico da bibliografia (ou um conjunto deles) sirva como tese de doutorado numa Faculdade de Letras. Não é inédito que aqui ou acolá se aceite, mas não é comum, você tem toda a razão. Infelizmente, ainda se privilegia um modelo que obriga pessoas que não têm muito talento para a exegese (mas que podem fazer outras coisas muito bem) a escrever calhamaços de 300 páginas de análises bizantinas, quase ilegíveis, cheias de citações para encher linguiça. Porra, cavuca lá essas pérolas da bibliografia, reedita, prologa e apresenta, é um serviço muito mais útil e exige, sim, um conjunto de habilidades que justifica o título, seja mestrado ou doutorado. Há um montão de outras responsabilidades nesta situação de desmemória bibliográfica, claro, como você aponta. Mas a que cabe a nós, acadêmicos, é significativa.

  5. Teve uma coleção “Clássicos Adaptados” relançada pela Ediouro em 2006, 2007, por aí, não sei se é essa a que se refere o SergioLeo. Mas tem “Mágico do Oz” e “20 mil léguas submarinas” por Paulo Mendes Campos, “Contos de Poe” por Clarice Lispector, “Viagens de Marco Polo” e “Moby Dick” por Cony, “Dom Quixote” por Orígenes Lessa, “Odisseia” por Marques Rebelo e outros quetais.

  6. pooo, to rondando na net da comedia humana do balzac, so que esta bem cara a colecao, proximo de 500 mangos, quero pegar a continuacao das ilusoes perdidas na obra cortesas e ler toda a colecao…

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