Ainda o diploma para jornalistas

É curioso que mesmo que o teor do post sobre o diploma de jornalismo fosse o de que a eventual revogação da obrigatoriedade não mudaria nada, gente boa como o Sergio Leo tenha partido para a defesa do diploma.

É uma discussão bizantina, essa. Inútil, na minha opinião, porque com diploma ou sem diploma novos jornalistas — pelo menos enquanto durarem os jornais — continuarão sendo recrutados nas faculdades e na prática nada deve mudar. Foi o que eu disse no primeiro post; continuo dizendo aqui.

Mas eu gosto de discussões inúteis.

O Sergio cometeu o mesmo erro da maioria dos defensores, na minha opinião. Condicionou a exigência do diploma à sobrevivência dos cursos superiores de jornalismo. E apareceu com um argumento curioso:

Só na escola de jornalismo você terá oportunidade de discutir criticamente o que se faz nos jornais, e preparar os garotos para enfrentar cacoetes e visões preconcebidas de jornal que só atendem ao interesse de quem manda na empresa

Talvez fosse o caso de perguntar: e o que se faz na blogoseira, por exemplo? Até mesmo aqui — em um blog que, a propósito, não tem nenhuma pretensão jornalística? Em toda a internet, há uma série de discussões sobre a mídia, com um nível crítico que aliás, não é comum na universidade em função dos seus compromissos. Ao contrário do que parece acreditar o Sergio, a universidade não é o único lugar onde se pode discutir algo. Se deu essa impressão até há algum tempo, foi porque não havia canais suficientes para essa discussão.

(Um pequeno parêntesis: é curioso como, na defesa de um princípio sagrado, a linguagem de pessoas normalmente ponderadas como o Sergio se torna parecida com a dos maluquinhos do PSTU ou do PSOL. “Algumas empresas adorariam ter um exército maior de mão de obra de reserva para expurgar mais facilmente das redações os jornalistas que aproveitaram direito seus cursos de jornalismo”, disse o Sergio. O problema é que as empresas já têm essa reserva. Chamam a ela “recém-formados”. Ou seja, o argumento “cripto-sindicalista” não vale mais.)

Talvez o problema desses argumentos esteja na sobrevalorização do curso de jornalismo. O Cássio pode ter dado a pista para entender por que o diploma, afinal, não é tão necessário assim: “Tentei buscar alguns exemplos de gente que fez bem seu trabalho sem diploma. Só achei em ciência sociais.”

Acho que dá para explicar por quê. Ciências humanas e sociais não exigem o nível de sistematização do aprendizado específico que, por exemplo, cursos como engenharia civil ou medicina exigem. É para isso que a universidade serve: para sistematizar e garantir o ensino e o aprendizado. E é por essa razão que para algumas profissões o diploma é necessário, como uma medida de proteção da sociedade. É uma proteção que não se exige do jornalista, em primeiro lugar, e que não esconde o fato de que qualquer pessoa pode aprender a ser jornalista sem passar por uma faculdade, como poderia, por exemplo, aprender economia, sociologia, história, letras, antropologia ou direito — até há relativamente pouco tempo não era necessário diploma para exercer a advocacia. E eu teria vergonha de me intitular “cientista político”. Um amigo político, e uma das pessoas cuja inteligência nessa área sempre respeitei em excesso, me dizia: “me mostre um cientista político e eu te mostro um picareta”.

De qualquer forma, toda e qualquer formação específica é recomendável (respondendo ao Cássio: eu não me desviei da pergunta. Mas já tinha dito no post que jornalistas formados são, em geral, mais bem qualificados que os antigos focas, por questões óbvias) — e é por isso que mesmo que a exigência do diploma caia, os novos jornalistas continuarão saindo dos bancos das universidades. O Sergio erra quando parece acreditar que, sem a obrigatoriedade do diploma, as escolas vão fechar. Para ser administrador, por exemplo, não é necessário diploma, e no entanto as escolas estão cheias (por sinal, se eu quisesse ser administrador faria um curso de engenharia, mas isso é outra discussão). Mas já que enveredamos no caminho das discussões sem sentido, vale a pena examinar a sobrevalorização do ensino superior de jornalismo mostrada aqui pelo Sergio.

Fui procurar a grade curricular da Cásper Líbero, que tem o mais antigo curso de jornalismo do país. Tirando as matérias encontráveis em qualquer curso universitário, eis a grade curricular específica:

  • SOCIOLOGIA GERAL E DA COMUNICAÇÃO
  • TEORIA DA COMUNICAÇÃO
  • FOTOJORNALISMO
  • TÉCNICAS E GÊNEROS JORNALÍSTICOS – JORNALISMO BÁSICO I, II e III
  • HISTÓRIA DA COMUNICAÇÃO
  • COMUNICAÇÃO COMPARADA
  • RADIOJORNALISMO I e II
  • COMPUTAÇÃO E PLANEJAMENTO GRÁFICO EM JORNALISMO
  • ADMINISTRAÇÃO DE PRODUTOS EDITORIAIS
  • JORNALISMO ESPECIALIZADO I e II
  • NOVAS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO
  • TELEJORNALISMO I e II
  • TÉCNICA DE REDAÇÃO I e II
  • DESIGN GRÁFICO – JORNALISMO EM REVISTAS
  • ÉTICA JORNALÍSTICA
  • JORNALISMO OPINATIVO
  • PROJETOS EXPERIMENTAIS

Não é nada do outro mundo, e seguramente nada que justifique tanto ardor em sua defesa, ou os quatro anos gastos. No sistema de créditos, muitas dessas matérias poderiam entrar como matérias optativas — até porque um sujeito que ser diagramador, porque é essa a sua vocação e talvez o seu talento, não vai perder tempo com “jornalismo opinativo” (matéria estranha, essa) ou “radiojornalismo”. O Sergio que me desculpe, mas essa grade curricular não justifica uma defesa tão acalorada da obrigatoriedade do diploma.

Assim como o Cassio, eu não acho que jornalismo é apenas “escrever bem”. Isso somente é redação, e não consta que ainda haja muitos copidesques nos jornais brasileiros; quanto a opinião, o Sergio lembrou que jornais sempre tiveram esses espaços abertos. Por jornalismo eu entendo a reportagem, a fotografia e a produção do material jornalístico final, seja ele jornal, rádio, internet ou TV. E continuo assinando embaixo da definição de jornalismo pelo Claudio Abramo: é ver e explicar o que viu. Sobrevalorizar a formação acadêmica de jornalistas, como faz o Sergio Leo, é um erro. É isso que entra em discussão e é isso que eventualmente pode dispensar um diploma.

Voltando ao caso do Idelber, acho que o Sergio está errado. Eu acho que o Idelber daria um bom jornalista. O Sergio acha que não, citando a sua parcialidade.

O problema é que eu acho que o Idelber fez, na denúncia dos horrores cometidos por Israel em seu ataque à Palestina, bom jornalismo. Parcial? Sim. Como foi parcial a cobertura da imprensa brasileira, ignorando boa parte do que o Idelber mostrou e discutiu. Mesmo admitindo-se a agenda do Idelber, é necessário perguntar: ele mentiu? Ele trouxe informações novas? Acho que o Idelber foi o primeiro a falar, pelo menos em português, sobre as bombas de fósforo utilizadas por Israel, e mais que isso, contextualizou os ataques. Além disso, ele fez algo que o resto da imprensa brasileira não parece ter feito: mostrou o outro lado utilizando técnicas simples e que estavam ao alcance de qualquer um.

O Idelber fez isso no seu blog, sem nenhum compromisso com a idéia de “ouvir o outro lado”. Cá entre nós, seria muito fácil mostrar o lado israelense, usando as mesmas ferramentas. Mas o Idelber não tinha assumido esse compromisso. Seria diferente em um jornal, provavelmente.

(E o Hermenauta, hein? O sujeito é engenheiro. Mas quando se trata do Reinaldo Azevedo ou da Nariz Gelado, ele faz uma checagem de fatos de dar inveja a qualquer analista de jornal. Resumindo: muitas das coisas que se associa a jornalistas podem ser feitas por qualquer pessoa.)

O Sergio faz ainda uma pergunta:

Acabar com a obrigatoriedade do diploma não resolve nenhum dos problemas hoje apontados nos jornais. Cabe perguntar: a quem interessa, e por que o fim da exigência de formação específica universitária obrigatória para o jornalista?

Bem, foi o que eu disse desde o início: não muda nada, e a pergunta com jeito de teoria conspiratória soa meio fora de contexto. Mas eu acho que a lei tem um problema, o de excluir as eventuais exceções. Gente talentosa que cursou, sei lá, história e tarde nada descobre que tem vocação e talento para a reportagem. Assim como o Niemeyer citado pelo Sergio. Nesse caso, interessaria à sociedade.

E no fim das contas, a pergunta que nenhum dos defensores do diploma costuma responder é: se sem a exigência do diploma o mundo acaba, por que só acaba aqui no Brasil? Quer dizer que em outros países — e não vamos usar exemplos de sociedades mais avançadas, como os Estados Unidos, França ou Inglaterra; vamos pegar os da América do Sul, mesmo, bastante parecidos conosco — não existe jornalismo? Se o diploma é condição essencial para a sobrevivência do jornalismo, porque nesses outros países isso não acontece? Deixo aqui a deixa para os defensores finalmente responderem essa pergunta.

26 thoughts on “Ainda o diploma para jornalistas

  1. eu hesito em meter o meu bedelho nesse papo, porque no boteco a gente fala e debate e dá risada, mas na internet, do texto se vira pária. (grosso modo – não num debate razoável como o teu blog sempre promove. e razoável é pra ser elogio sem utopia :))

    continuo achando o mesmo que achava em 2000, quando saí da faculdade: curso técnico de Jornalismo já. dois anos, português, reportagem e ética, era isso, grande abraço, mão de obra ainda mais barata no mercado.

    OBRIGATORIAMENTE (vale aspas) ao mesmo tempo, surgem (ou voltam) como opção os verdadeiros cursos de Comunicação Social. repletos de história, sociologia, teoria e um teco de prática – pra esse cara poder chegar na redação. (ou na agência; a fórmula toda vale pra jornal, PP ou RP.) CINCO anos. pra formar um verdadeiro COMUNICÓLOGO. habilitação vem nas últimas cadeiras.

    não proponho nada novo ou espetacular. é inclusive a raiz da maioria dos cursos tradicionais de Comunicação do Brasil, que foram se voltando pro mercado feito girassóis e promovendo o que se tem hoje – cursos de currículo e exigência muito fracos.

    a exigência de diploma para o exercício do jornalismo é um desserviço ao próprio jornalismo. porque o diploma em Comunicação é cada vez mais o de um tecnólogo – requentado pra durar quatro anos. e contratações, profissionais? a obrigação de oferecer jornalismo de qualidade segue sendo dos grandes meios; eles sempre vão filtrar os melhores. não?

  2. Vejo o Brasil como um país intelectualmente pequeno, limitado. O nosso apreço à formação acadêmica/bacharelesca é uma conseqüência e uma prova disso. Talvez seja a precariedade histórica da educação básica uma das causas dessa idéia e/ou realidade de que só há pensamento relevante na universidade. Parece faltar aqui um pensamento social não-universitário. Daí essa idéia de que somente sociólogos, antropólogos, historiadores, jornalistas e etcéteras de formação acadêmica possam pensar o Brasil. Sei lá, entende?

  3. Oi, Rafael. Conecei a ler teu blog a pouco tempo. Já estás no meu reader, hehe.

    Eu gostei da idéia do tiagón. Realmente, não vejo pq haver uma reserva de mercado para jornalistas e cursos de jornalismo.

  4. Acabei de conhecer o seu blog e também já está no meu reader! Eu acho essa discussão bem interessante. Sou tradutora e não existe uma lei que regulamente quem pode traduzir ou não (com exceção de tradutores juramentados, mas essa é outra questão), o que é interessante para a área, já que o profissional deve ser competente em pelo menos duas línguas e entender (bastante, se possível) do assunto do texto que traduz. Este é um trabalho que pode ser feito por uma pessoa que não carrega um diploma, principalmente considerando tradutores que iniciaram suas carreiras muito antes da existência de qualquer faculdade na área de tradução. Inclusive, para traduzir na área das engenharias, melhor mesmo é ser engenheiro, já que este supostamente domina o jargão. Eu me arrependi de não ter feito jornalismo (sou formada em Letras – Inglês) porque vivo escutando que nunca vou conseguir ingressar no mundo dos jornalistas sem diploma na área, mas concordo plenamente com você que é, sim, possível (contanto que a pessoa tenha vocação e seja competente). Pra me estender só mais um pouco, concordo com Tiagón. Curso técnico já pelo menos para habilitar as pessoas que já tem formação na área de humanas e precisa principalmente das habilidades que dizem respeito à especificidade do meio jornalístico.
    Abraço,
    Melina

  5. Eu faço jornalismo em uma federal que, segundo o MEC, está entre as melhores do Brasil e digo uma coisa, emburreci na universidade e ainda assim sou uma das melhores alunas. Vou fazer uma pipa com meu diploma.
    Escrevi um post no meu blog faz algum tempo já sobre o mesmo assunto, então não vou ficar repetindo tudo num comentário longo. É só isso mesmo.

  6. Olha, confesso que não acompanhei direito a discussão no post anterior. Mas acho que o fim da obrigatoriedade do diploma interessa à sociedade por um único motivo. A quantidade de faculdades de jornalismo país afora é um imenso desperdício de recursos. A maioria dos que trabalham na área são assessores de imprensa(Aonde um RP fazia mais sentido) e a maioria não consegue nada.

    E como *leitor* acho que a falta de diversidade de formações de jornalistas prejudica a qualidade. Isso fica claro ao meu ver nas revistas sobre educação, por exemplo.

  7. … ‘na escola de jornalismo você terá oportunidade de discutir criticamente o que se faz nos jornais, e preparar os garotos para enfrentar cacoetes e visões preconcebidas de jornal que só atendem ao interesse de quem manda na empresa”…
    Mas, se assim fosse, (e o curso superior já teria tido algumas décadas para provar este ponto), o jornalismo não teria melhorado?
    No entanto, o que se vê é um jornal cada vez pior, em todas as midias, com seu português mal-escrito 9ou mal escrito, mas isso é assunto do post anterior…), com suas notícias sensacionalistas e mórbidas que só contribuem para vender jornal e trazer ä tona o que há de pior nas pessoas, transformar qualquer um em celebridade instantânea ou requentar notícias de meios internacionais sem se preocupar minimamente com a qualidade e o sentido das traduções.
    Joáo Saldanha deve se revirar na sepultura.

  8. Querido Rafael, eu ainda acho que se precisa perguntar quem sai ganhando com o fim da obrigatoriedade de um curso específico para quem quer trabalhar como jornalista. Posso te assegurar que não seria por aí que gente como o Idelber chegaria à redação (aliás, gente como o idelber não teria o mínimo interesse em ser repórter; ele é um cronista, um acadêmico, que defende com obstinação e método suas idéias. Não há nenhum impedimento legal de que o faça, nas seções de opinião dos jornais. daria um ótimo colunista, articulista de opinião também traz fatos, como ele fez no caso Israel-Palestina. Repórter se obriga a dar vez a TODAS as versões e opiniões).

    Mas que tem muita gente querendo ser jornalista para gozar das supostas benesses da profissão, para usar o emprego como alavanca para receber benefícios pessoais, isso tenho certeza. Já há gente assim na profissão, especialmente fora dos grandes centros. Disso, a sociedade e o jornalismo não precisa. E, cá pra nós, jornalista sério não tem granmdes benesses, tem óbices: meu jornal me proíbe de investir na bolsa de valores, por exemplo.

    Claro que se pode e deve debater jornalismo nos blogues, em todo canto. Como se pode debater medicina. Mas a Universidade é o lugar para discutir esses troços com base na última bibliografia sobre o tema, com exigências de rigor acadêmico, com método e disciplina. Para inclusive pegar as críticas feitas pela sociedade e pensar como deve ser a reforma do modo de se fazer jornais. Isso não é beletrismo, bacharelismo. É respeito pelo saber crítico que circula nas instituições acadêmicas.

    Não se faz isso em blogue. Claro que o hermê daria um tremendo repórter. Conheço gente que não cursou cursou engenharia e entende de estruturas melhor que o engenheiro que fez os cálculos (errados, tive de demolir uma laje) de minha casa. Mas a questão não é essa.

    Desde estudante, me bati para melhorar a qualidade da Escola de Comunicação, que é muito ruim. E me dói ver que as pessoas que deveriam estar nessa briga comigo, para exigir uma melhor formação do jornalista, estão nessa discussão equivocada sobre a possibilidade de dar às pessoas que apostaram numa carreira e não deram certo nela se dirigirem aos jornais para conseguir emprego.

    Sim, porque economista, médico, arquiteto ou até cozinheiro bem sucedido não tem nenhum pro0blema em escrever sobre suas especialidades em jornal. Recebe convite para isso. Têm colunas e colunas, espaços enormes para isso em toda publicação impressa. Agora, achar que o que falta aos repórteres é formação especializada em economia ou direito ou qualquer coisa é idéia de quem não sabe como funciona a máquina de moer carne que é a reportagem.

    No trabalho de reportagem, é importante se dedicar a estudar os assuntos relatados ( e jornalista sério faz isso; eu fiz especialização em relações Internacionais quando vi que era um assunto recorrente no meu trabalho; aumenta a olhos vistos o número de pós-graduados em ciência política, economia e outros temas nas redações) , mas não é a especialização que faz um bom repórter, é a noção do que é o trabalho de tradução da linguagem especializada para o texto mezzo coloquial mezzo formal da midia. E a capacidade de fazer isso com espírito crítico, que pode ser desenvolvido em muitos lugares, mas que perece ter seu lugar na universidade, como pré-requisito para quem quer ser repórter.

  9. Senhor S.Leo,
    “Desde estudante, me bati para melhorar a qualidade da Escola de Comunicação, que é muito ruim. E me dói ver que as pessoas que deveriam estar nessa briga comigo, para exigir uma melhor formação do jornalista, estão nessa discussão equivocada sobre a possibilidade de dar às pessoas que apostaram numa carreira e não deram certo nela se dirigirem aos jornais para conseguir emprego.”
    A questão não deveria ser se as pessoas procuram uma segunda carreira nos jornais, mas se elas podem fazer um bom trabalho nessa carreira ou pelo menos não prejudicar a Sociedade no exercício dessa carreira. Só interessa mesmo aos espertinhos corporativistas de sempre contar quantas carreiras alguém tem antes de chegar ao jornalismo. Quanto à sua luta para melhorar a formação do pessoalzinho da guilda, o resultado (ou falta de) pode ser visto nas páginas dos jornais-com raras exceções- diariamente. Obrigado, mas não obrigado. Mas é nessa mesma guilda que se recusa a se aperfeiçoar que devemos entregar o monopólio dos nossos órgãos de informação.

  10. Correção: Onde se lê “nessa mesma guilda”, leia-se “a essa mesma guilda”.

  11. Olá Rafael,
    entendo que o grande problema das profissões ligadas às ciências sociais e humanas, no Brasil, é a péssima formação. Nossas universidades são um antro de professores imbuídos de idéias anacrônicas e de currículos defasados. Tirando as áreas tecnológicas e biomédicas, o ensino superior no Brasil é, no mínimo, parcial e obtuso. Os discursos dominantes nesses cursos expressam a crença de que o pensamento francês ainda é o umbigo do mundo, se que é foi um dia! Na média, os professores recorrem à bibliografia que eles estudaram há décadas, quando o confliot leste-oeste era o eixo dos posicionamentos políticos no mundo. O ensino superior no Brasil é tão “estranho”, que até disciplinas fundamentadas em tecnicismos científicos, como a Psicologia, por exemplo, é transformada em tribuna de discussões vazias sobre a “opressão dos pobres pelos ricos”. Falo isso com certo conforto porque já fui aluna, e hoje sou professora. Na minha área, psicologia, enfrento uma luta constante contra pré-conceitos estabelecidos sobre quase tudo o que diz respeito às ciências biológicas e exatas, quando estas deveriam ser instrumento auxiliar da formação e atuação do psicólogo. Como, aliás, ocorre nos países em que psicólogo não é visto como profissional caricato e inútil. Por tudo isso é que, realmente, penso que para muitas profissões, no Brasil, ter ou não um diploma universitário faz muito pouca diferença. No caso de jornalistas, a coisa toda fica ainda mais confusa. 5 ou 4 anos de curso superior, mesmo sendo muito bom, não capacita ninguém a escrever, falar ou opinar profissionalmente sobre qualquer assunto. E o que acontece no Brasil é que: uma vez que a pessoa tem um diploma de jornalista, e atua na área, ela se vê “autorizada” a emitir opiniões sobre tudo, isso formalmente, sem se sentir obrigada a pesquisar e conhecer o assunto do qual se propõe a falar. Tanto é que o jornalismo científico no Brasil, para citar um exemplo gritante, é pífio. Para falar de temas que não demandam aprofundamento, até que os nossos jornalistas, na média, não cometem absurdos muito crassos, mas quando entramos num campo mais especializado…valha-me deus! Sei que muitos jornalistas vão responsabilizar o ritmo intenso de trabalho, as demandas do mercado, a pressão das empresas empregadoras, a formação deficiente, o governo, o sistema, o capitalismo…Ufa! Como sempre, a responsabilidade será de alguém, mas não é um pedaço de papel, validado pelo MEC, que corrigirá os problemas, sejam eles quais forem.

  12. Meu amigo Rafael, não perderei muito tempo com suas besteiras. Só vou te dizer um negócio: se vc tivesse a mínima noção dos absurdos que está falando, ficaria corado de vergonha. Aquela de listar as disciplinas (cujo conteúdo vc não conhece) e insinuar que é tudo inútil me fez rir. É de um pragmatismo que nem os indigentes intelectuais do bar da minha esquina – com aquele anti-intelectualismo bruto do senso comum – seriam capazes de ter.

    Seu texto não é um libelo contra o diploma de jornalismo, mas contra a formação em nível superior. Pra seu governo, não é só o pessoal da área de ciências sociais que poderia estudar fora da faculdade. A rigor, qualquer coisa pode ser estudada fora da faculdade (que o digam os inúmeros “médicos” q hoje cumprem pena por clinicarem sem diploma). O problema é que, na sua opinião, diferentemente dos médicos, os jornalistas não oferecem “risco” à sociedade. Tudo bem, desde que vc me defina “risco”.

    Quanto ao “fim das escolas” que vc questiona, eu pergunto: quem é o otário que vai fazer jornalismo podendo ser jornalista sem diploma (ou, melhor ainda, com um outro diploma para somar ao da “experiência prática” de jornalista)?

    Fábio.

  13. Primeiro, Fábio, não sou seu amigo. Cuidado aí com a intimidade.

    Veja a minha definição de diploma como defesa da sociedade. Bem, se você acha que repórteres, que escrevem no jornal de alguém e que normalmente sabem os limites a que podem chegar, representam risco real à sociedade da mesma maneira que um médico em uma sala de operação, confesso aqui a minha incapacidade de te explicar “risco”, Além disso, você provavelmente está há muito pouco tempo na universidade e não conhece direito a realidade da profissão.

    Se você não conseguiu entender o que eu disse desde o início — o fim do diploma não vai mudar nada porque jornalistas saídos de faculdade são mais bem preparados que a maior parte das pessoas que eventualmente queiram ganhar um salário baixo mesmo formadas em outra coisa — (se entendesse não faria a última pergunta), se eu tentar te explicar por que faculdades de jornalismo existem em todo o mundo mesmo sem a exigência de diploma você dificilmente iria entender.

  14. Prezado Rafael, duas coisas:

    Atualmente as universidades privadas promovem um intenso processo de demissão de prof.s doutores. Preferem os mestres, de menor qualificação. Sabe por que? São mais baratos. Vc acha que as empresas privadas de comunicação vão preferir contratar quem? Jornalistas com diploma, que tiveram aulas de ética, conhecem bem seus deveres e direitos e ainda são mais caros? Pelo visto, vc deve ser daqueles que acreditam nas inquebrantáveis virtudes harmonizadoras do mercado (a mesma turma que atrás por trás da atual crise econômica).

    O cerne de seu argumento é: na área de jornalismo não há necessidade do moderno sistema de certificação acadêmica; deixemos tudo por conta do mérito pessoal e da alocação pelo mercado. Beleza, aceito sua proposta. Mas então por que só para o jornalismo? Por que não posso eu advogar, depois de passar dois anos em casa estudando direito constitucional, civil, penal e outros? “Por que os clientes vão preferir advogados formados em boas universidades”, dirá vc. Ah é? E se eu cobrar mais barato e me mostrar eficiente?

    Seu problema é que sua opinião desconsidera a vida real. Visões como a sua mandam para o ar o moderno sistema de certificação acadêmica e contribuem para o esvaziamento da formação acadêmica.

    O engraçado, contudo, é que o mesmo argumento que é costumeiramente aceito para o jornalismo não o é para o direito, por exemplo. Os jornalistas são taxados de corporativos, mas ninguém sequer insinua isso em relação aos advogados. Por que será? Será que tem a ver com relações de poder profundamente entranhadas na sociedade? Será talvez pelo mesmo motivo que advogados são chamados de doutores (mesmo que não tenham doutorado) e um historiador ou cientista social não é (às vezes nem quando tem doutorado)?

    A realidade mundial é por demais diversificada, não mencione seu santo nome em vão. Não há apenas países com e sem obrigatoriedade do diploma. Há situações radicalmente distintas mesmo dentro desses dois grandes campos. Sua imensa generalização prova que vc não a realidade regional e internacional em comunicação.

    Pra terminar: formação superior em jornalismo, quanto mais melhor! Trata-se de uma atividade importante demais para a sociedade! Abaixo qualquer medida que desestimule essa formação em nível superior!

    Fábio.

  15. Fabio,

    Primeiro, você não deve ter lido com atenção o post — até porque eu lembrava que até há relativamente pouco tempo era possível advogar sem diploma.

    No post, enumero algumas outras profissões que dispensariam fácil a exigência legal de diploma.

    O problema desse seu argumento é que você acha que o fim do diploma desestimula a formaçào em nível superior. Não é o que a vida tem mostrado a vários outros setores, como publicidade, por exemplo.

    E cito administração, que não exige diploma, para mostrar que essa simbiose que algumas pessoas criam entre exigência legal de diploma e formação universitária não existe.

    Segundo, “realidade mundial por demais diversificada”? Então tá. Me cita exemplos dessa diversificação. Quantos países mesmo exigindo diploma? Fatos, por favor.

    “E se eu cobrar mais barato e me mostrar eficiente?”, você pergunta. Então, Fábio, a universidade não lhe valeu de nada e a sociedade está melhor sem você. Isso apenas corrobora a minha opinião.

    A não ser, claro, que você seja professor universitário, e nesse caso eu vou levar em conta a sua opinião com um pingo de sal. Você não estaria defendendo a formação de bons jornalistas. Está defendendo o seu metier.

  16. Rafael,

    Acho que vc é que não leu com atenção minha primeira postagem. Falei que QUALQUER COISA pode ser estudada fora da universidade – não só administração, publicidade e direito – mas também medicina, engenharia e filosofia. Se fôssemos por aí, a exigência de diploma não deveria existir para nenhuma profissão, e não só para as da área de ciências sociais, como vc defende. Aí, para que o ensino superior?

    O problema desse debate é que ele é enviesado. Por que só se discute o fim do diploma para jornalistas? Por que isso não é cogitado para o direito, por exemplo? Isso vc não explica, mas insiste em que corporativo sou eu. Já falei: aceito o fim da obrigatoriedade do diploma para jornalistas, desde que eu possa, p. ex., advogar.

    Quanto à realidade mundial por demais diversificada, não sei se vc entendeu, mas o cerne do argumento é que existem países sem exigência de diploma com bom jornalismo (como na França), e outros onde ele é um lixo completo (como o Reino Unido, p. ex.).

    Seus últimos dois parágrafos são confusos. Como a sociedade poderia prescindir de mim se eu me mostrasse um profissional competente e de preço mais acessível (por não ter passado pela universidade)? Não entendi.

    Fábio.

  17. “Vc acha que as empresas privadas de comunicação vão preferir contratar quem? Jornalistas com diploma, que tiveram aulas de ética, conhecem bem seus deveres e direitos e ainda são mais caros?”

    O Fábio deve ter descoberto a Ética na faculdade e ficado tão fascinado que acha que ela é monopólio da guilda dele. E, realmente, atualmente, é tão difícil para as empresas de jornalismo conseguir profissionais sem ética, dispostos a defender a “linha justa” da publicação contra os fatos e iludir os leitores. Eu não sei onde a Veja consegue esse pessoal. Na verdade, é capaz do jornalismo acabar no Brasil porque os jornalistas para quem a Ética é uma novidade (uma grife?) não vão aceitar fazer o jornalismo de péssima qualidade que fazem desde que a Ditadura criou a obrigatoriedade. Mais dia ou menos dia,depois de quarenta anos, a Ética vai aparecer nas páginas dos jornais em vez de nos discursos corporativistas da guilda.

  18. Parabéns, Flávio! Palmas!!

    Também não estou nem um pouco satisfeito com a qualidade do nosso jornalismo. Dizer que a culpa disso é do diploma, aí é outra coisa! Por que achas que os donos de empresas de comunicação estão todos unidos na defesa do fim do diploma? Pra melhorar o jornalismo? Só se for…

    Fim do diploma, se trouxer alguma modificação, para melhor não será.

    Outra coisa: ninguém aprende ética na universidade. O que se aprende na universidade é Ética – se é que vc entende a diferença entre as duas coisas…

  19. Diploma não é todo mundo que pode ter não, diploma custa dinheiro, e pelo que se percebe no decorrer da Historia, quem tem dinheiro defende quem tem dinheiro, e racionaliza os fatos para que tudo em que acredita fique moralmente confortável em sua cabecinha.

    Por quê vamos nos enganar? A maioria dos diplomados não tem a formação suficiente para escrever uma sequência de mais de cinco palavras. E por outra parte há muitos jeitos, muitos caminhos para a auto- formação.

    A quem pode matar um texto de jornalista não diplomado? Se o trabalho nao for bom isso logo vai se ver.

    Isso está me cheirando a controle político.

    P.D.: E se eu não for formada e quiser publicar um impresso com teor jornalístico, e se eu quiser contratar pessoas igualmente sem formação “formal?”

  20. “Não é nada do outro mundo, e seguramente nada que justifique tanto ardor em sua defesa, ou os quatro anos gastos. No sistema de créditos, muitas dessas matérias poderiam entrar como matérias optativas — até porque um sujeito que ser diagramador, porque é essa a sua vocação e talvez o seu talento, não vai perder tempo com “jornalismo opinativo” (matéria estranha, essa) ou “radiojornalismo”. O Sergio que me desculpe, mas essa grade curricular não justifica uma defesa tão acalorada da obrigatoriedade do diploma.”
    Caro Rafael, você tem noção do sacrifício pelo qual muitos estudantes passaram (eu me incluo) para fazer uma faculdade? Tem noção do quanto muitos jornalistas estão se sentindo ao jogarem seus diplomas no lixo?

  21. Tô indignada com tanta desvalorização à profissão de jornalismo, uma profissão séria, que requer não somente técnicas, mas todo um embasamento teórico, ética, e o que vejo nesse debate são pessoas rebaixando ainda mais nossa profissão. O Rafael coloca a grade das disciplinas e ainda diz que não há motivos pra defesa tão árdua do diploma.
    A Amaranta então, diz que a maioria dos jornalistas não consegue escrever uma sequência de mais de cinco palavras, mas não se dá conta de que o seu próprio textinho pejorativo está com erros primários. Lamentável!

  22. Pode até não ser obrigado se ter o diploma para ser chamado de Jornalista, mas vai tentar arranjar um emprego em um jornal, uma rádio, ou agêndia pra ver quem consegue: A pessoa que tem a experiência e o conhecimento geral da faculdade ou aquele que somente escreve bem?
    Aí é que entra a reflexão.
    Apesar da lei, há lugares que são obrigados o diploma.
    Concordo com o fato de que todas as pessoas possuem o pleno direito de expressar suas opniões, sentimentos e afins. Mas é claro e é óbvio demais para falar que só tem grandes chances para entrar no mercado de trabalho aquele que tem a comprovação de um determinado conhecimento e não aquele que simplesmente se diz um profissional daquela área.
    O diploma ainda vale muito.

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