Uma pequena defesa de Londres

Bruno, foi com atenção que li o seu texto sobre Londres. Li com tanta atenção que resolvi fazer, aqui, uma defesa da sua cidade. Acho que você cometeu alguns equívocos — que vou creditar ao seu amor por ela, à sua extrema boa vontade para com um lugar onde você viveu, e à sua justa indignação com a declaração de amor de um paraíba pela cidade pela qual se apaixonou há tantos anos e de que nunca mais esqueceu.

Londres é uma boa cidade, e eu gosto muito dela, e não tenho nenhuma intenção de diminuí-la. Por isso me permito aqui, com a sua licença e compreensão, tentar lhe sugerir elementos para uma defesa menos apaixonada. Começo citando um trecho do seu post:

Enquanto os gárgolas de Notre Dame te fazem gozar de pau mole, a resoluta Abbey resplandece em verdes campos, costurada majestosamente pelo Tâmisa, turvo e raivoso.

Na verdade, não é bem Notre Dame que me chama a atenção em Paris; o que me faz virar o pescoço são as damas que andam por suas ruas. Mas acho que você acertou ao evitar tocar nesse assunto: seria bobagem tentar comparar as francesas, com sua elegância e seu talhe esbelto, às inglesas — que pobre gente feia aqueles ingleses, não é?

Eu, no entanto, teria preferido falar de uma das pequenas delícias de Londres que você deixou passar: o costume de deitar e comer nos parques, como o Green ou o Hyde. Acho que os ingleses fazem isso porque, ao contrário dos parisienses, não têm uma cidade bonita pela qual flanar, mas cada um se vira com o que tem — e que povo melhor para suportar as adversidades do que o inglês? Vamos então deitar nos parques, olhar as flores em volta e esquecer que além de suas grades está uma cidadezinha feia, mas simpática.

E você, querido Rafael, fala de Balzac du Paris como se minha cidade não tivesse meu Shakespeare e minha Woolf of London.

Sabe, Bruno, acho que aqui você fez uma má escolha. Eu não teria utilizado esses dois porque não acho que sirvam de contraponto: se você reparar direitinho, vai ver que nenhum deles parece se interessar por Londres. O que eles percebiam era que, digamos assim, não era interessante falar daquela cidade, e se voltaram para a investigação do indivíduo porque não tinham motivos para falar de Londres. Não há deles nenhuma declaração de amor à capital inglesa, nenhuma vontade de passear por seus becos e suas ruelas, nenhuma percepção da cidade como criatura e criadora de um povo, como Balzac percebe em Paris. Sim, eles também eram gênios — e por serem gênios sabiam que Londres não valia a pena.

Shakespeare, especialmente, ambientou suas peças mais famosas — “Romeu e Julieta” e “Hamlet”, mais precisamente — em Verona e na Dinamarca, porque Londres não era um bom lugar (sem falar nas outras, claro: “Os Dois Cavalheiros de Verona”, “O Mercador de Veneza”, “Otelo”, “Tempestade”). Isso é compreensível. Londres não lhe parecia adequada, especialmente, para uma grande história de amor: “O, swear not by the moon, the inconstant moon that monthly changes in her cycled orb, lest that thy love prove likewise variable” — como colocar uma cena tão bela em Londres, se o diabo do fog não deixa desgraçado nenhum ver a lua? Como Romeu poderia jurar o seu amor a sua Julieta e, em troca, receber tão doce admoestação diante de um céu obtusamente nublado?

Sabe, eventualmente Balzac colocava seus personagens em outras cidades que não Paris: corsos vingativos, medíocres de Angoulême, provincianos de Besançon — sempre para chegar à conclusão de que a sua era a melhor cidade do mundo. É essa a diferença. O maior escritor francês cantou a sua capital; o maior escritor inglês foi procurar outros ares.

Então eu falaria de outras coisas. Falaria de Jack, o Estripador, por exemplo. Falaria da polícia que mata brasileiros no metrô. Ou lembraria de Drácula, de Mr. Hyde, de Frankenstein — Londres é um cenário perfeito para esse tipo de história.

A beleza de Paris é tão efemera que se esvai no momento em que se respira o ar da cidade por mais de dois dias

Não. A beleza de Paris não é efêmera. Apenas parece assim se comparada ao edifícios pesados de tijolinhos amarronzados que fazem Londres. O que você chamou de efêmero na arquitetura de Paris é na verdade uma elegância fluida, haussmaniana, que a torna extemporânea.

Por isso, em vez de comparar dois estilos — um voltado para a beleza, outro para a funcionalidade — eu falaria da forma como Londres se apega pouco ao passado, como os belos prédios modernos se misturam a predinhos atarracados cor de cocô. Londres parece tanto com São Paulo em alguns aspectos. Principalmente na feiúra tão absoluta que a gente pode até confundir com beleza. Não é por outra razão que o mesmo sujeito que compôs o hino de São Paulo compôs “London, London”. Caetano compreende essas duas cidades irmãs. Londres não tem motivos para preservar sua arquitetura horrorosa, e seria essa qualidade que eu exploraria.

Se o Arc de Triomphe é belíssimo, a Trafalgar Square é mais. Se o grande Louvre, que de fato é foda e merece até uma história do Mini Viking, sou mais o British Museum e o Tate Modern

Dispenso o Tate Modern porque acho arte moderna uma grande fraude, mas eu também acho que o British é melhor que o Louvre. O problema é que o que está em torno do Louvre é melhor que o que está em torno do British. Quanto a Trafalgar Square, além de uma questão de gosto, sua única qualidade mesmo é que dali você consegue ver a sua bela “Abbey” — ao contrário do Arco de Napoleão, que embeleza a Champs Elysées com a sua visão.

Enquanto você regojiza nos cabarés, seu pseudoboêmio, lágrimas escorrem dos meus olhos ao pensar no meu Globe Theater of old.

Ah, Bruno, meus tempos de boemia se foram com meus verdes anos. Mas confesso que, entre um cabaré e um teatro, é no cabaré que meus devaneios recaem primeiro. Infelizmente, não é esse o caso. O problema aqui está no fato de que, quando uma cidade precisa recorrer a um teatro demolido há séculos para encontrar uma razão que justifique a sua existência, ela tem problemas sérios. Como você pode preferir um teatro inexistente a um cabaré que ainda hoje pode lhe oferecer o paraíso?

No seu lugar eu perguntaria: para que cabarés se você tem as criptas londrinas de St. Pancras? Para que cabarés com moças de pernas belas rodopiando se você tem a circunspecção inglesa? Para que cabarés com moças de pernas belas rodopiando com seios arfantes se você tem a fleuma britânica?  Para que cabarés com moças de pernas belas rodopiando com seios arfantes e bocas úmidas entreabertas se você tem a elegância de um terno bem cortado em Saville Row?

Se você, querido Rafael, adora os cafés blasés – tem palavra mais parisiense que ‘blasé’? – e fica, com sua cigarrilha e chafé, lendo Le Monde e conversando com uma magrela de boina e poodle preto no colo, eu vou pro Starbucks em Camden Town e com meu Soy Venti Latte me divirto com os punks e lindos degenerados, performers de rua e meu povo de All-Star no pé.

Blasé é uma palavra francesa como snob é uma palavra inglesa — e talvez seja o smog londrino dos tempos do Globe Theater que não te deixe perceber a beleza parisiense. Mas acho que entendi o que você quis dizer com seus punks degenerados. O problema é que esse foi outro equívoco, porque pelo visto você não conhece os imigrantes que dançam street music no Boulevard Rochechouart nas tardes de sábado, ou as multidões de esquisitinhos que se aglomeram na porta do Elysée Montmartre, ou ainda os patinadores em frente ao Palais Royal.

O problema dessa linha de defesa é que malucos há em todas as cidades. Então, para defender Londres diante da injusta comparação com os cafés parisienses, eu falaria dos pubs, do ambiente alegre, da alegria que é sentar com os amigos (saudades de você e do Sven, Carol) e beber cerveja, tendo a única preocupação de sair de lá antes que os ingleses encham a lata e comecem a dar porrada nos estrangeiros. Lembraria que apesar disso um pub inglês é um bom lugar para se estar, principalmente se lá fora estiver caindo aquela chuvinha típica de Londres.

E, embora eu esteja aqui tentando te ajudar na defesa dessa cidade agradabilíssima que é Londres, eu preciso repetir o que já disseram o Idelber, o Wilson e a Lolla: citar a Starbucks como vantagem londrina é se ajoelhar no chão e pedir perdão pelas bobagens que acabou dizer. Em vez disso, nós poderíamos defender Londres dizendo que café não presta, que bom mesmo é chá, e melhor ainda é o chá das cinco. Mas pobre de uma cidade que não pode ter orgulho do seu café.

Bem, acho que posso ficar por aqui. Espero ter contribuído um pouco para melhorar a imagem dessa cidade maravilhosa de que ambos gostamos tanto.

8 thoughts on “Uma pequena defesa de Londres

  1. Que cara de pau, Rafael. É o que dá pra dizer. Ou, dizer sem dar.

    Por mim, prefiro Londres. Sei lá, talvez seja o ar Real que a cidade inspire.

  2. Não conheço nem você nem o Bruno, mas pude perceber que se gostam muito. Só muita intimidade para tanta porrada parecer (e ser)afagos. Londres é mesmo maravilhosa – deve ser o único lugar no mundo onde você pode encontrar na rua uma garota de cabelo roxo, cheia de piercings e tatuagens, de braço dado com um senhor cirscunpecto de guarda-chuva e chapéu-coco e isso não chamar a atenção de ninguém. Mas você tem toda razão, Rafael. E entre tomar um arremedo de café no Starbucks ou um chocolate quente no Solferino…

  3. Vamos colocar uma caixinha para pesquisa e decidir no voto.
    Paris 10 X 1 Londres.
    O Espresso curto do Starbucks não é dos piores.
    O do Costa tb é bom. Sou de Santos e tomo espresso há 40 anos.
    Sim, descansar no Starbucks ou no Costa é muito bom, mas levanta que tenho muito que verrever, conversamos no caminho.
    Louvre = British+National Galery, logo, ponto pro Louvre. No Nat Gal tem pouco italiano tb, mais um ponto pro Louvre, então.
    Bistrô ou Pub? Bistrô pela comida.
    E vamo pará com essas juras de amor.

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