Porque José Serra não conhece William

José Serra não conhece William.

Talvez devesse. Na tarde do último domingo William estava no aeroporto de Guarulhos, apesar da chuva forte que caía. Ofereceu seus serviços a uma moça que fumava na porta: dois reais para engraxar seus sapatos. Não havia necessidade, mas a moça aceitou.

William fazia seu trabalho calado, aquele silêncio humilde que às vezes a gente vê por aí e cria empatia imediata. Mas a moça puxou conversa. Ele contou que tem 10 anos, e mora ali mesmo em Guarulhos, em Bom Sucesso. Tem quatro irmãos e uma mãe; nenhuma referência a um pai. Perguntado se estudava ele disse que sim, pela manhã. Perguntado se gostava de estudar, ele abriu um sorriso e disse que sim, que gostava “demais”. Mas à tarde e à noite ele tem que ir ao aeroporto, para ajudar a mãe. Não é fácil, às vezes o expulsam de lá. Mas ele volta mesmo assim, porque precisa. Agora, William e sua família querem comprar uma bomba para puxar água do poço em sua casa.

Quando acabou de engraxar os sapatos, a moça estendeu 10 reais para William. Ele arregalou os olhos: “Pra mim, senhora?” “É. Mas só se você prometer que vai continuar estudando”. Ele abriu um último sorriso, “Prometo, senhora”, e foi embora.

José Serra não conhece William, mas talvez devesse, porque ele pretende ser presidente da República e há centenas de milhares de crianças exatamente na mesma situação daquele garoto, trabalhando em canaviais, carvoarias, semáforos ou com uma caixa de engraxate nas costas, muitas vezes em um limbo cinzento em que trabalho e caridade se confundem e se tornam indistinguíveis.

Se o conhecesse, Serra talvez conseguisse entender o que significa para milhões de brasileiros o Bolsa Família e a grande rede de proteção social desenvolvida por Lula.

Para crianças como William, o governo Lula representou uma chance sem precedentes de acesso ao exercício da cidadania. Mas o PSDB/DEM jamais conseguiu compreender ou aceitar o seu significado. Essa incompreensão se transformou, nos últimos anos, no seu principal cavalo de batalha na oposição ao governo — uma oposição destrutiva e prejudicial ao país.

Até há pouco, Serra e o PSDB/DEM se concentravam em tentar desconstruir o Bolsa Família e os programas assistenciais do Governo Federal, chamando-o de “Bolsa Esmola”. Acostumados a um projeto de governo que privilegia os mais ricos de maneira insana, sem compreender a natureza do país, o PSDB e o DEM demonstraram, durante anos, total incapacidade de entender um modelo de Estado diferente e mais igualitário.

No entanto, a política social do Governo Lula ajudou a lhe render aprovação popular sem precedentes. E agora, com as eleições se aproximando, o PSDB finge deixar de se indignar com o fato de as pessoas ficarem felizes porque agora podem comer, se torna uma espécie de esquizofrênico político e passa a elogiar o programa.

É uma mudança e tanto. Despido da possibilidade de continuar reencarnando o pior da antiga UDN, em parte pelo fracasso memorável da sua estratégia em 2006, e em parte graças aos escândalos gravíssimos de corrupção que assolaram os dois partidos nos últimos meses — destruindo de passagem o que tinha se tornado o eixo de um discurso vazio e histérico –, o PSDB/DEM agora se vê obrigado a fazer o que nunca fez: reconhecer a realidade e elogiar os avanços do governo Lula. Lembrando o velho e bom Brizola, estão tendo que engolir o sapo barbudo.

Embora arriscada, essa é uma estratégia eleitoral compreensível. Nos próximos meses o PSDB/DEM, que finalmente parece ter resolvido a sua diocotomia em relação à política social de Lula — uma hora dizia que era criação sua, na outra dizia que não prestava –, e tentando fazer com que seu candidato Serra perca a imagem de anti-Lula, vai tentar lembrar o Bolsa Escola, por exemplo, um dos programas assistenciais desastrados criados por Fernando Henrique Cardoso.

(Alem de ser difícil conseguir isso ao mesmo tempo em que tenta descolar sua imagem do ex-presidente, há outro problema à frente deles. Serra já começou a tentar aparecer como alguém que vai aprimorar a obra de Lula. Obviamente, nada impede que o próprio Lula diga: “Olha, eles dizem que eu fiz um bom trabalho? Pois eu, que fiz esse bom trabalho, estou dizendo que eles não conseguirão dar prosseguimento a ele, e sua história prova isso. Quem pode me suceder é a Dilma.” Mas esse é o tipo de coisa que só se poderá saber como vai acontecer durante o desenrolar a campanha eleitoral.)

O mais interessante é que eles vão partir de uma base correta. Uma parte dos programas específicos desenvolvidos no governo Lula foi realmente criada durante o governo anterior, como o PETI — embora tenha sido o Governo Lula que, ao mudar o foco de toda a política social, tenha dado a eles a dimensão que hoje têm. Esse é o trunfo do PSDBN/DEM, embora falho. Porque não é o fato de ter programas sociais, que desde quase sempre governos fizeram isso: Getúlio com a sua LBA, Sarney com seu vale-leite e vale-gás. A diferença é a abordagem e forma de entendimento do papel da assistência social. Por exemplo, em momentos de crise — eles conseguiram quebrar o país três vezes, afinal –, o PSDB/DEM apontava os programas sociais como os primeiros alvos de corte de verbas, porque para eles assistência social nunca foi muito diferente de esmola. Isso eles vão esconder.

E é nesse contexto que entra William.

Apesar do que Serra e o PSDB/DEM vieram dizendo ao longo desses anos, o problema da política social do governo Lula é o fato de que ela ainda não consegue beneficiar todos os que precisam, nem oferecer uma renda maior para os já beneficiados. Para Estados como Alagoas ou Piauí, por exemplo, o dinheiro da União através do SUAS é normalmente o único recurso significativo a que têm acesso para a área social. Ainda é pouco.

Mas São Paulo tem o segundo maior orçamento do país. E ainda assim, meninos como William estão engraxando sapatos no aeroporto de Guarulhos.

Talvez o problema de crianças como William fosse minimizado se o PSDB, no poder em São Paulo há tantos e tantos anos, tivesse feito sua parte, em vez de replicar no governo estadual o que fizeram no governo federal. Se Serra é tão diferente de FHC, como pretende agora, porque o seu governo em São Paulo é tão parecido com o do ex-presidente? Essa divergência entre o atual discurso tucano e o que se pode observar na prática quando eles têm o governo na mão tem raízes fortes. Diz respeito à visão de país do PSDB/DEM.

Agora, por exemplo, Serra diz que vai continuar o Bolsa Família. Mas mesmo que seja bem intencionado, mesmo que tenha admitido o seu erro recorrente e permanente dos últimos 8 anos, ou que mentiu ao povo brasileiro porque precisava fazer oposição, o que Serra pretende manter não é o Bolsa Família, porque a sua história e a sua tradição não permitem que ele o entenda. O que Serra, com boa vontade, pode ter em vista é o seu Bolsa Esmola, porque é assim que Serra e o PSDB vêm a assistência social. Por isso, seu desempenho diante do governo de São Paulo deve ser lembrado. O Estado de São Paulo tinha a obrigação de garantir a crianças como William assistência e apoio. Mas não fez isso, e esse menino, como milhares de outros meninos paulistas, se vê surpreso e feliz quando recebe 10 reais na porta do aeroporto.

27 thoughts on “Porque José Serra não conhece William

  1. Quem de inicio as bolsas assistencialistas e as defendeu foi FHC do PSDB. E o primeiro a chamá-las de “bolsa esmola” foi Lula, antes claro, de chegar ao governo.

  2. ahh rafael galvão bueno do lullismo… vc como comentareiro politico parcial é um horror. lembra do q Lulla falava dos programas assistenciais de D. Ruth Cardoso???????????? Lulla falava horrores. a prpósito, o q faz mesmo D. Marisa Letícia? nem na revista Caras ela aparece tecendo uma blusinha de tricô ou crochê pra uma criancinha pobre. ufa….

  3. Que alias foi Iris Rezende quem sugeriu a Lula consolidar todos os programas assistencias do governo FHC no Bolsa-Família. Q que Lula fez, retirando exatamente aquilo que devia ter ficado, é claro, com objetivo eleitoral: a porta de saída.
    Assim Lula pode fazer o terrorismo que sempre fez quando era oposição, e continuou fazendo como governo: mentir, enganar e trapacear.
    E depois falar que não sabia de nada.

  4. Qual a diferanca entre essa historia e qualquer outra no Braziu? Seja Sao Paulo, Bahia, Sergipe, ou Amapa.

    Menos Rafael.

  5. Bom artigo, Rafael. Apresenta argumentos, ao contrário dos comentários acima, cheios de ódio e rancor. Serra faz bem (mas talvez não alcance sucesso) ao tentar descolar-se dessa “banda podre” do anti-lulismo. Baixaria, antigamente, era “coisa de favelado”, “coisa de pé-de-chinelo”; agora, virou hit de capitalista (ou de contratados pelos capitalistas, provavelmente com verbas públicas, para serviços sujos). O que prova que capitalistas, no espectro político, são muito piores do que os antigos petistas que, quando na oposição (governo fhc) destilavam ódio mais moderado…

  6. Rafael, sugiro um pouco mais de rigor na moderação dos comentários. Se um cara de direita vem aqui, educadamente, e contrapõe a sua visão com argumentos, maravilha. Podemos até não concordar com o que ele diz, mas como disse não lembro quem, seremos os primeiros a defender o seu direito de dizê-lo. Já as agressões e baixarias, como parece ser o tom predileto da tropa de choque do Serra, não dá pra deixar passar.

    Abraço.

  7. rafael,
    venho sempre aqui porque aprecio a qualidade do seu texto e do seu ponto de vista.
    esse povo, que comentou acima, nada a mais faz que corroborar a minha impressão.
    na internet se chamam “troll” que deve ser uma tradução aproximada de “espírito de porco”
    então siga assim.
    com a qualidade e o ponto de vista patriótico e humano.
    fique sabendo de uma coisa:
    esse seu post vou usar como resposta,
    (com os devidos créditos, lógico).
    aos spam encaminhados pelos amigos,
    contendo a última do jabor, do general, da aileda, enfim do cabrunco.
    abraço e parabens.

  8. Moro em Guarulhos, cidade administrada pelo PT há 10 anos e o cadastramento e gerenciamento do Bolsa Família aquí é modelo para todo país.
    Já na cidade de São Paulo, milhares de pessoas que poderiam estar recebendo o benefício não estão porque a dupla Serra/Pita, digo, Kassab, fazem questão de não cadastrar esses povinho mal-cheiroso (apesar dos apelos do gov. federal). Isso se repete em todas as cidades administradas pelos tucanos e demos, em alguns casos para não darem crédito ao Lula e em outros porque não gostam de trabalhar mesmo.
    O Serra também fez questão de acabar com todos os programas sociais implementados por Marta Suplicy, que na verdade foram embriões dos programas federais.
    Em compensação os tucanos são PHDs em impostos, pedágios e taxas, isso ninguém pode negar.

  9. Vocês já leram o “Sistema de Política Positiva”? Auguste Comte concebeu um sistema político capaz de unir progresso econômico (“o Progresso por fim”), justiça social (incorporar o proletário à sociedade industrial) e liberdades políticas (“vasto sistema de liberdades públicas a que jamais se possa aspirar”-Teixeira Mendes).

  10. Taí, nunca pensei por esse lado. De fato o governo de SP já deveria ter lançado um programa quase da mesma magnitude que o Bolsa Família — se tivesse o genuíno interesse pelo social que agora eles alardeiam aos quatro cantos.

  11. Vai ter uma parte dois desse post ne’? Diga que sim, diga que sim! Ah faz ae.

    E essa galera que usa o argumento do bolsa esmola que era projeto da falecida e o sociólogo, hein? Ta precisando de um argumento novo. 8 anos ja’, cruz credo.

    (Alguem esqueceu de citar Marx aqui)

  12. “…fazem questão de não cadastrar esses povinho mal-cheiroso (apesar dos apelos do gov. federal).”
    O mesmo povinho malcheiroso (você que acha que é) em nome do qual o PT defendeu a inflação, defendeu os privilégios dos funcionarismo público e fez “bravatas”, como disse o pelego-chefe?
    “Moro em Guarulhos, cidade administrada pelo PT há 10 anos…”
    Moro em São Paulo, onde o PSDB governa há 15 anos pelo voto do Povo (que, na sua opinião, é mal-cheiroso). Moro na capital, de onde o PT foi chutado por sua corrupção e incompetência. Parece que a opinião do Povo só conta para você quando ele serve de massa de manobra para os petistas e seus novos amigos arenistas (Maluf, Renan, Sarney). Perdeu, mensaleiro, perdeu.

  13. O mérito do Bolsa-Família é que força as crianças a ficar REGULARMENTE pelo menos um turno na escola. Há casos em que as crianças ficam um turno na escola, no outro turno participam de atividades extraclasse e, AINDA ASSIM, no tempo livre que resta, se dedicam a complementar a renda da família (claro que por exigência da família). Porque, convenhamos, o que recebem de complementação ainda é e sempre será POUCO. Mas a ideia é que seja um empurrão decisivo para alcançar níveis de receita mais aceitáveis. É uma chance que, se bem aproveitada, cumpre o seu papel. Esmola é outra coisa, é a institucionalização da dependência eterna. Tem umas, digamos, pessoas pobres aqui na frente da minha casa que vivem pedindo dinheiro para todo mundo que passa e, de quebra, falam mal da ajuda do governo com argumentos bem melhores do que os de alguns comentaristas deste blog. Por exemplo, eles têm um argumento irrefutável: “pedindo eu tiro entre 500 e 700 reais por mês”. Do Bolsa-Família eles não receberiam mais que 150 e ainda teriam obrigações a cumprir… Que tal a lógica? Nada de pensar grande, planejar para o futuro, querer ser presidente da República… Sempre é melhor e mais cômodo ser sustentado pelos outros. Mas as crianças não têm nada a ver com isso; toda a criança é uma sonhadora e sonha alto. O Bolsa-Família é principalmente para elas, por uma geração nova não formada na mentalidade subserviente e subdesenvolvida em que seus avós e pais foram criados…

  14. Rafael, brilhante o texto. Gosto de ler suas análises políticas por compartilhar boa parte de suas idéias. Realmente, os tucanos maisu ma vez ficam em cima do muro, divididos entre atacar ou requisiatra a paternidade dos programas sociais.

    Sugiro apenas que você vete os comentários dos tucaninhos trogloditas. Na falta de argumentos, aparecem boçais covardes, escondidos pelo anonimato, singelamente assinando como “filho dilma puta” e afins. Não dá pé.

    De mais a mais, atesto daqui de São Paulo: a administração Serra é tão ruim que – nunca pensei que um dia diria isso – dá até saudades do Alckmin. Não que o picolé de xuxu tenha sido grandes coisas…

  15. Um pouco puritanos demais os que dizem que os contrários ao Rafael estão sendo desrespeitosos. Em primeiro lugar, porque são poucas as ofensas de verdade. Em segundo, porque já vi coisas piores vindas de ambos os lados, então o “horror” me parece apenas conveniente.

    Rafael, sinto muito, seu texto é de um populismo horrendo. Como outro disse acima, há histórias iguais ou ainda piores em todas as cidades de todos os estados da federação. Que chamam de “Bolsa Esmola” é inegável, mas como outro disse quem começou com isso foi o próprio PT, que mudou radicalmente de visão a esse respeito (curiosamente quando se tornou útil, pelos dividendos políticos alcançados).

    Em nenhum momento vejo qualquer integrante do governo sequer acenar com um futuro para os beneficiários do Bolsa Família. O que me leva a crer que o futuro deles está em votar no PT para manter o benefício. Há famílias que já recebem há anos o benefício e ainda estão completamente dependentes dele. Isso é uma prisão.

  16. Os tucanos se traem, não podem ouvir falar no BF que começam a pedir “portas de saída”, “ensinar a pescar”, etc.

  17. De resto, essa coisa de pegar um exemplo de pessoa em situação de miséria e daí começar a falar contra isso, etc., me parece aquele típico caso de pessoa que não tem contato real com a miséria e quando vê alguém nessa situação fica todo tristonho, culpado mesmo. Enfim, recalque de classe média.

    Vejo mendigos todo dia na Praça da República, não preciso ir até o aeroporto. Passo por favelas desde que me entendo por gente. Tem uma pertinho de casa. Seria idiota da minha parte ficar fazendo biquinho e reclamando: “o que a Marta fez por isso? O que ela fez? Nada!!” Talvez até tenha feito mais do que seus antecessores ou sucessores, mas não vai ser com historinhas exemplares que isso ficará patente.

    Antes que alguém ache insensível de minha parte chamar a história do Wiliam de “historinha exemplar”, é bom verificar quem a usou como exemplo de algo primeiro.

  18. Cara, a historia do “Foi o pt que começou” ta sendo levada a serio por alguem mesmo?

    Eu não sei se eles cairam nessa historia, ou só tão tentando fazer propaganda.

  19. “Vejo mendigos todo dia na Praça da República, não preciso ir até o aeroporto. Passo por favelas desde que me entendo por gente. Tem uma pertinho de casa. Seria idiota da minha parte ficar fazendo biquinho e reclamando: “o que a Marta fez por isso? O que ela fez? Nada!!” Talvez até tenha feito mais do que seus antecessores ou sucessores, mas não vai ser com historinhas exemplares que isso ficará patente.”

    Ao menos a Marta não fechou os albergues da capital, inundando não só as ruas da cidade como das cidades no entorno com semtetos.

  20. Sim, Rafael, o bolsa-escola foi criado pelo PSDB, mas tem de dizer q por indicação [puxada de orelha mesmo] do BID, o Banco Interamericano p/ o Desenvolvimento, e da Unesco.

    Não sei se vc se lembra mas o governo FHC foi o q mais sucateou o patrimônio público em privatizações bem duvidosas [Vale, segmentos da Petrobrás, etc..] e não investia nem 1 milésimo disso em programas sociais. Foi aí q, frentes aos números alarmantes da educação no Brasil, essas instâncias internacionais exigiram algo como o bolsa-escola.

    Isso sem lembrar da CPMF, q o ministro Jatene veio a público pedir p/a saúde pública. Aprovada, a contribuição não chegou aos devidos fins. Jatene saiu, Serra entrou e aí todo mundo conhece a história…

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