Mulungu, que chamam por outro nome

Não sei se isso acontece com você, mas de vez em quando eu esqueço os nomes de coisas simples.

Dia desses esqueci o nome de uma árvore. Eu sabia que em algum momento soube o nome da dita, lembrava que era um nome estrangeiro, acho que francês. E a ignorância do nome outrora conhecido passou a me incomodar e exasperar.

Me vinham dois nomes à cabeça. O primeiro era buganvília. Mas eu sabia que não era, sabia que buganvília era outra coisa, era uma plantinha vagabundinha dessas miudinhas, uma primavera. A árvore de que eu falava não, era uma árvore de tronco quase liso, frondosa, folhas esquisitinhas, flores vermelhas, que dava uns frutos que pareciam umas espadas largas com umas favas redondas, parecidas com moedas — quando essa árvore floria era uma beleza, e eu costumava ver tantas delas antigamente.

O outro nome que me vinha à memória era mulungu. Na verdade era uma árvore até que bem parecida, mas não era ela. Mas lembrei que durante muito tempo achei que aquele pequeno enigma desimportante era um mulungu, porque Monteiro Lobato falava dessas árvores em algum dos seus livros — os mulungus que floriam no sítio, algo assim.

Mas alguém tinha me corrigido com o tal nome gringo, exatamente esse nome que eu tinha conseguido esquecer.

(Não podiam ter me deixado na minha ignorância, chamando a árvore de mulungu? Se eu achasse que era um mulungu não tinha esquecido o seu nome. E que mal faria eu achar que a tal árvore era um mulungu, me diga? Isso ia mudar a vida de alguém? Não ia.)

Durante muitas semanas tentei descobrir que árvore era aquela. Não consegui. Aumentei minha cultura inútil, no entanto; aquelas folhas esquisitinhas, na minha busca infrutífera, descobri que eram bipinadas, com vários pares de folíolos. Só não descobri o diabo do nome da árvore que eu procurava.

Lembrei também que antigamente eu via mais dessas árvores pelas cidades, mas elas parecem cada vez mais raras. Hoje sei que minha impressão estava correta: não é só um caso de sair de moda, é uma necessidade objetiva, porque as raízes são e superficiais (o que faz delas árvores mais bonitas, por sinal), invasivas e pouco adequadas à infraestrutura urbana.

Muitos anos atrás, quando moramos em Itapuã, cada um de nós, crianças, ganhou uma das árvores do quintal. Eu tomei posse de um cajueiro que nunca deu caju, ao menos que eu lembre, e minha irmã ganhou uma dessas árvores.

Necessidade besta, essa de saber o nome das coisas. Mas sem isso eu não poderia reconstruir meu passado, e então vem a consciência aguda da importância de um nome; por que você acha que não se podia falar o nome de Deus? O Velho sabia a importância dos nomes próprios. Se algo não tem um nome todo seu, essa coisa não existe. Se ela não existe, meu passado também não — e isso coloca em risco, pelo menos de um ponto de vista bem metafísico, a minha própria existência.

Por isso saí perguntando a quem podia: que árvore é aquela? E ninguém sabia. Curioso: quando o homem vai deixando de ser nômade ele desaprende o nome de muitas das plantas que conhecia. Mas agora era demais, não é possível que sejamos tão urbanos ao ponto de esquecer o nome de uma árvore comum. Isso não pode ser admitido, em nenhuma hipótese. Porque, se se admitir uma coisa dessas, se isso deixar de incomodar, daqui a pouco a gente esquece o nome das coisas mais comuns. “Qual é mesmo o nome desse negócio preto aqui embaixo, Zé?” “Asfalto, Rafael-seu-idiota”.

Perguntei a todo mundo. E descobri que a ignorância acerca do nome de uma árvore comum independe de classe social ou de nível cultural: ninguém sabia. Alguns amigos, mais sofisticados, soltaram umas hipóteses: aquilo era um ipê. Mas ipê é árvore brasileira, e essa árvore se não me engano tinha nome estrangeiro e não era brasileira, era daquelas plantas exóticas que faziam o desgosto de Gilberto Freyre.

Eu desisti.

É feio desistir das coisas, principalmente de uma bobagem como essas. É um paradoxo: desistir de escalar o Everest não envergonha ninguém, por difícil que é; desistir de algo bobo é um atestado de incompetência à vigésima nona potência. Ao mesmo tempo, ressalta o atestado de incompetência passado por quem, em plena era do Google, não consegue descobrir o nome de uma árvore comum e vagabunda. Dane-se. Não me importava mais, não depois de tantas semanas sem conseguir descobrir o nome daquela árvore. E por ser bobagem eu me dou o direito de desistir do que quer que seja.

Aí, na fazenda de um amigo eu vi uma árvore dessas, recém-plantada. O coração bateu mais forte, se me permitem a licença poética. Ele havia de saber que caralho era aquilo, uma árvore tão comum.

E ele respondeu com aquela simplicidade que as pessoas que desconhecem a sua grande angústia existencial: “Tá falando do flamboyant aí da frente?”

A delonix regia. O flamboyant. Árvore vagabunda e comum, dessas que você encontra a três por quatro por aí; e no entanto bateu a minha memória. É, flamboyant — você conhece esse nome, eu conheço esse nome, e ele certamente jamais poderia ser dado a qualquer outra árvore. Se a ordem das coisas fosse invertida, nada isso teria acontecido. Se alguém me perguntasse que árvore é o flamboyant eu diria — é aquela árvore de tronco liso, folhinhas esquisitinhas, e que quando floresce é uma belezura.

Descobri que chamam também de pau-rosa. Eu gosto do nome. Pau-rosa é um nome meio erótico — “Vai sentar num pau-rosa” devia ser ofensa corrente neste país de tantas árvores. Mas isso não importa mais para mim. O fato é que eu não quero mais esquecer o nome do flamboyant. E por isso a partir de agora eu só vou chamá-lo de “mulungu, que os outros chamam flamboyant.”

18 thoughts on “Mulungu, que chamam por outro nome

  1. é uma bela árvore mesmo. elas realmente costumavam ser mais comuns até a década de 80. lembro que já vi muitos clubes no interior de pernambuco com ela.

  2. Coisas da idade. Quando você começou a descrever o mulungu eu pensei no flamboyant. Como sou mais velho que você, decidi que ambas são mulungu. É mais sonoro; mais brasileiramente sonoro.
    🙂

    PS – Salvador era cheia de mulungu, lembra?

  3. A praça da igreja da cidade onde eu morava, na década de 80, tinha muitas dessas árvores.
    Realmente ficam lindas quando estão floridas, e a sombra que fazem é uma maravilha.

  4. eu jamais esquecerei meu flamboyant: ganhei de um amigo pequena e plantei na calçada. Depois de 15 anos, quando ela já destruira meu muro, e ameaçava a minha casa por detrás dele, tive que mandar tirar. O pedreiro olhou praquilo e, sem conhecer nem o mulungu nem o flamboynt disse: eu tiro! Levou uma semana e quatro homens com machado o dia inteiro. Eu me senti matando um parente querido mas era eu ou ele e ainda sou mais eu 😉

  5. Rafael, na antiga EBC – Escola de Biblioteconomia e Comunicação (hoje, estão desmembradas em Facom e ICS. Coisa mais sem graça) da UFBa havia um flamboyant. No fim da década de 70 e começo da de 80, ao fim da tarde era o ponto de encontro dos estudantes, principalmente os de Jornalismo, que eram malvistos pelas dondocas de Biblioteconomia. Debaixo de seus galhos era promovido o famoso chá das cinco de Comunicação, para o qual convergiam estudantes de várias faculdades. A árvore era reverenciada por todos, mais ainda quando floria num período estranho para nós, pois ela “pensava” que ainda era européia e dava flores na época da primavera de lá. Não sei se ainda permanece de pé, pois lá se vão 27 anos que me formei

  6. Logo vi que ia ser um flamboyant. No prédio em q eu moro ainda tem um.

    As raizes tavam destruindo as casas em volta e quando o condomínio ia derrubar a prefeitura proibiu e ameaçou tacar uma multa. Aí tentaram matar a francesa de qualquer jeito, mas, por fim, fizeram uma contenção das raízes e ela tá firme e forte, cheia de orquídeas aproveitando o tronco.

  7. me lembra flan danly, que era um pudim de copinho, com calda rala, mas que eu, criança desde para o todo sempre, adorava e ainda adoro
    e ainda baunilha, que também remete ao pudim
    mas é um árvore
    quando descobri o nome (não aqui), não pude dissociar do pudim
    o pudim …..

  8. e sim, ela é bonita
    e vc, confirmando a cisma, tá cada dia mais emboloiado … falando assim de árvore, com lugar até para um licença poética
    que raio é que te pegou?

  9. hehe, o meu flamboyant ficava na frente de minha casa lá no Caminho das Árvores, em Salvador. já tem uns dez anos q me mudei e nunca mais passei na frente da casa, nem sei se ele continua de pé…

  10. oras pois … por favor não se arvorem …
    e se pode não sei .. quem sabe é o dono da casa …
    gosto mesmo é de encher, ora pois ….

  11. Rafa, grande fênix! E cada artigo, esse da Delonix regia conhecida nessas paragens como flamboaiã, é demais. Sua folhagem é exuberante, de um verde quase vivo, lança flores vermelho-alaranjadas, uma obra de arte. Espraia-se como poucas, em generosa oferta de sombra. Não é nativa do Brasil mas bem podia substituir o ator pau-brasil, quase extinto.

    Até RC cantando seu Cachoeiro, louvou a majestade:

    Recordo a casa eu morava
    O muro alto, o laranjal
    Meu flamboyant na primavera,
    Que bonito que ele era
    Dando sombra no quintal
    A minha escola, a minha rua
    Os meus primeiros madrigais
    Ai como o pensamento voa
    Ao lembrar da terra boa
    Coisas que não voltam mais.

    (Roberto Carlos)

  12. É Flamboyant, mas agora você já lembrou… engraçado, tenho o mesmo problema que você falou, quando tento lembrar do Flamboyant me vem sempre o Bouganville. Deve ser por que é tudo francês.
    Eu estou sofrendo por não conseguir descobrir o nome de uma outra árvore que eu sempre pensei que era um Flamboyant, mas… não era! Coloquei no Google “árvore que parece um Flamboyant” e veio o seu artigo. Ótima surpresa, melhor até do que achar o raio do nome daquele Mulungu que eu tanto procurava.

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