Por que ler os clássicos

Em certo dia, à hora, à hora da meia-noite que apavora, eu, caindo de sono e exausto de fadiga, fadiga inclusive de Poe, eu, ansioso pelo sol, buscava sacar daqueles livros que estudava repouso (em vão!) à dor esmagadora de ouvir essa música idiota e estultificante que se faz hoje e que se tenta passar por música; à dor de ouvir Anitta cantando com a bunda, das letras grosseiras idiotas do funk carioca, das imbecilidades semiletradas com erotismo vulgar da música baiana, das rimas pobres dos sertanejos.

E o repouso estaria nos clássicos, nos tempos em que o respeito dava a tônica, o respeito ao leitor e aos seus ouvidos, o respeito à língua e aos mais belos sentimentos.

Restou-me ir a eles, eu leitor relapso que preferia Suetônio a Virgílio, e Gibbon a Suetônio.

Restou-me Catulo e seu lirismo que, século após século, não importa quantos padres o persigam, encanta e enleva gerações e gerações de amantes, “me prometa, vida minha, que este amor será feliz e perpétuo entre nós”.

Restou-me seu “Carmen 16”, na tradução e reinvenção de João Ângelo Oliva Neto:

Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos,
Aurélio bicha e Fúrio chupador,
que por meus versos breves, delicados,
me julgastes não ter nenhum pudor.
A um poeta pio convém ser casto
ele mesmo, aos seus versos não há lei.
Estes só têm sabor e graça quando
são delicados, sem nenhum pudor,
e quando incitam o que excite não
digo os meninos, mas esses peludos
que jogo de cintura já não tem
E vós, que muitos beijos (aos milhares!)
já lestes, me julgais não ser viril?
Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos.

Os velhos tempos é que eram bons.

One thought on “Por que ler os clássicos

  1. Depois daquela peça de Stoppard, A Invenção do Amor, que toca de leve em como Catulo teria inventado o poema de amor (menciona-se Carmen 12), alguém deveria escrever uma peça sobre Carmen 16, A Invenção do Funk.

    Ou pelo menos preparar um projeto para que a ANCINE financie uma transposição da peça de Stoppard, que trata do homossexualismo na Antiguidade Clássica e entre estudantes da Oxford do final do Século XIX, como o futuro poeta e acadêmico A. E. Housman. Nem que seja para ver a pressão arterial do Bolsonaro subir.

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