Ô da poltrona

Rafael Spaca está produzindo um documentário sobre os Trapalhões, em cinco episódios. O documentário ainda não saiu mas já está criando polêmica, o que é excelente notícia para o produtor — a ponto de grande parte dessa polêmica parecer artificial. Renato Aragão estaria se sentindo desconfortável com o que julga ser uma tentativa de vilanização, etc. Um trailer medíocre disponível no YouTube não deve ser indício da qualidade do documentário: Spaca parece ter estofo suficiente para entregar um documentário realmente bom. Descobri agora que ele já escreveu dois livros sobre os filmes e as histórias em quadrinhos do grupo, e está escrevendo uma biografia de Dedé Santana. Além disso, assim como eu, se ressente da ausência de uma bibliografia sólida sobre os Trapalhões.

Isso sempre me impressionou. Pela sua importância na história do humor e da TV brasileiros, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias mereciam muito mais do que foi escrito, até hoje, sobre eles. Há alguns anos, comprei “Adoráveis Trapalhões”, uma biografia escrita por Luís Joly e Paulo Franco. É um livro muito ruim, primário, incapaz de ir além do que se acha facilmente na internet ou nos documentários oficiais ou semioficiais que foram feitos para comemorar marcos da carreira da trupe. E no entanto é a única biografia deles que conheço. É por isso que o documentário do Spaca pode vir a cobrir, ao menos em parte, um vácuo injustificável.

Porque quem foi criança na segunda metade dos anos 70 e primeira dos 80 sabe da importância dos Trapalhões. O seu era, talvez, o espaço mais nobre de toda a programação, a hora em que todo mundo estava em casa. A vinheta de encerramento do programa era também o anúncio do final do fim de semana. E naqueles seus primeiros anos na Globo, eles faziam um tipo de humor que, apesar de simples, era um bom resumo do humor do dia a dia do povo brasileiro.

Durante anos, “Os Trapalhões” definiu para milhões de crianças brasileiras o que era humor. Todos nós devemos muito a um paraíba, um galã de subúrbio, um negão cachaceiro e um viadinho mineiro. Dizem que seu humor era politicamente incorreto e não seria aceito hoje. É uma pena. Não admira que as pessoas hoje achem que a Terra é plana, porque chata certamente é.

A separação do grupo em 1983 foi um marco importante. Ali, para muita gente, a magia se quebrou, definitivamente. É possível que um eventual redesenho das relações internas tenha contribuído para isso, e essa é uma pergunta que o documentário de Spaca pode responder. A impressão que sempre tive é a de que o maior perdedor ali foi Renato Aragão. Tanto o quadro que Dedé, Mussum e Zacarias apresentavam quanto o filme que estrelaram, “Atrapalhando a SWAT”, se 8tes de Renato Aragão. Provavelmente porque o trio pôde preservar parte grande da dinâmica do grupo, as interações entre os estereótipos — algo que Renato Aragão tentou manter com novos atores, sem sucesso: para o público, Tião Macalé e quetais eram apenas imitações inferiores dos originais. Separados, eles não davam certo e perdiam dinheiro; voltaram em poucos meses.

A história da separação do grupo sempre foi mal contada, e merece ser investigada mais a fundo. Não sei se um documentário em vídeo, com as limitações próprias do meio, será capaz de dar uma resposta definitiva. Mas ele tem condições de jogar alguma luz para os fãs que, ainda hoje, assistem a velhos esquetes do grupo no YouTube.

A partir dos anos 80 Renato Aragão foi estreitando a sua própria ideia de humor. Em parte porque estava envelhecendo como criador, claro, mas talvez tenha sido influenciado pelo fato de ter sido apontado pela UNICEF como “embaixador da infância” ou algo parecido, e mais provavelmente porque as pesquisas indicavam que seu principal público eram as crianças. Ele parece ter cometido um erro bobo: fazer um programa infantil para crianças que gostavam do humor um pouco mais adulto. Em sua última década, “Os Trapalhões” se tornou mais raso, mais repetitivo e mais pobre. As mortes de Zacarias e Mussum complicaram ainda mais a situação. Sem Zacarias o programa perdeu boa parte de sua alma; sem Mussum, se tornou inviável.

Mais tarde Renato Aragão tentaria reorganizar uma versão ainda mais idiotizada dos Trapalhões num programa exibido no meio do domingo, uma cópia menos que medíocre do que já tinha feito com brilhantismo. Na mesma época, Dedé fazia um programa em outra rede de TV — SBT, se não me engano. E o programa era mais engraçado que o de seu ex-parceiro.

Parece haver um esforço grande de demonização de Renato Aragão, e talvez o documentário consiga dar uma visão equilibrada desse pequeno fenômeno. As pessoas falam muito de arrogância e mau humor. Dizem que trata mal as pessoas. Sua mulher ganhou as manchetes dia desses reclamando de ter que viajar com gente pobre e deselegante no avião — o que seria extremamente irônico se ela conhecesse este esquete brilhante estrelado por seu marido. (Feliz ou infelizmente, ninguém apareceu para reclamar de ter que viajar ao lado de uma gorda feia e elitista.) E falam que explorou seus colegas.

Do ponto de vista financeiro, e sem conhecer nada sobre as relações internas do grupo, não parece que ele tenha sido canalha. Ele era o o investidor, o autor, o produtor do material. Nada mais justo que ganhasse uma parte bem maior. Mas os Trapalhões têm uma dimensão no imaginário popular que os faz equivalentes a um conjunto indivisível e igualitário. Didi só é Didi, de verdade, se ao seu lado estão Dedé, Mussum e Zacarias. Talvez esse documentário consiga esclarecer, de uma vez, as coisas.

A comédia dos Trapalhões hoje é apontada como pueril. Isso soa mais verdadeiro quando se leva em consideração que esse processo foi se acentuando com os anos. Mas nos anos 70 era diferente: o humor que faziam era abrangente, voltado para um público heterogêneo tanto social quanto cronologicamente. Era ingênuo, talvez, mas nunca foi inocente: naqueles dias, seu humor era bem mais complexo do que a ideia que se faz dele hoje. Em muitos aspectos, continha referências adultas que hoje seriam impensáveis num programa infantil. No seu primeiro programa da Globo, uma produção cara cheia de externas, um dos quadros era sobre um porteiro de motel. Esse pessoal da academia, se quisesse, poderia escrever teses e mais teses sobre temas importantes entrevistos nos Trapalhões, como suicídio, emancipação feminina, especulação imobiliária, preconceito racial e social.

Os Trapalhões representavam um microcosmo do povo brasileiro, com suas qualidades e seus defeitos: sua boa vontade, sua cordialidade real e imaginada, seus preconceitos e visões de mundo. Em seus melhores momentos, seu humor era fresco, leve, ao mesmo tempo que sutil e acurado.

Apesar de tudo isso, os Trapalhões pertencem, sem nenhuma dúvida, ao panteão de grandes humoristas brasileiros. A mesma crítica que elogiava Chico Anysio e Jô Soares torcia o nariz para ele — como se o humor de Chico e Jô também não fosse, tantas vezes, primário e apelativo como o dos Trapalhões. Era uma crítica que achava deselegante arreganhar os dentes e quebrar a tripa gaiteira com bobagens, e se sentia mais à vontade com aquele sorriso de entendedor inteligente que se dava em filmes de Woody Allen. Ou que, sendo um pouco mais implicante, não queria ver nos Trapalhões um retrato do país.

4 thoughts on “Ô da poltrona

  1. Rafael:
    Houve uma época, quando eu tinha entre 11 e 16 anos, por ai, que eu achava Os Trapalhões o melhor programa do mundo e o Didi o cara mais engraçado e esperto do mundo. Infelizmente isso passou e hoje quando vejo alguns quadros dessa época sinto até certa vergonha alheia. Não sei eu melhorei ou piorei com os anos.
    Acho que você tem muita razão quando diz que o Didi não existe sem o Dedé, o Mussum, e o Zacarias. E isso se torna mais grave quando sabemos que o Renato Aragão idolatra o Charles Chaplin ao nível da esquizofrenia e se sente uma versão deste no Brasil, e o seu ídolo conseguiu criar um personagem autônomo, que foi o Carlitos. que independia de outro personagem para que existisse integralmente. Agora, se for para consolar o Renato Aragão, o Chaplin também sofreu algo parecido e seu Carlitos também foi impedido de continuar existindo, só que foi pela tecnologia do cinema falado.

    • Acho que todos nós pioramos e melhoramos com o tempo. Mas os Trapalhões foram só piorando, mesmo. Junte a isso o fato de todos também crescemos e fomos cansando. Agora, no caso de Chaplin, foi uma hecatombe tecnológica que acabou com o seu modelo de humor. O caso de Renato Aragão me parece mais com o de Jerry Lewis: decadência criativa e divórcio da evolução do gosto do público.

  2. Éramos eu e mais dois irmãos pequenos e o papai sempre levava a gente ao cinema pra ver os filmes dos Trapalhões.

    Levava também para ver Costinha e Mazaroppi, mas os dos Trapalhões foram de longe os que ficaram mais na memória.

    Eram ainda muito bons, acredito que veria com proveito se fosse revê-los agora. Depois (quando já estávamos mais crescidos) se tornaram muito comerciais e ligados a algumas bobagens televisivas.

    • Lembro de ver um filme de Costinha no cinema (Costinha e o King Mong), e um de Mazzaropi, em cores. Mas do Mazzaropi eu gostava mesmo era dos filmes em preto e branco que a TV exibia.

      O último a que fui ver no cinema foi “A Filha dos Trapalhões”, insuportável de ruim. Mas antes disso, ir ao cinema duas vezes por ano ver os filmes deles era obrigatório. Alguns deles são muito bons. Eu nunca tinha pensado nisso, mas você tem razão: em algum momento seus filmes estabeleceram uma simbiose com a TV que acabou com os filmes.

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