A morte do faroeste

Achei por acaso um excelente canal sobre cinema no YouTube. Se chama EntrePlanos e tem uns tantos vídeos muito bons sobre faroeste. Com informação sólida e bons argumentos, ele me pareceu bem acima da média. Outros canais que vi por aí não passam de amontoados de lugares comuns ou bobagens ignorantes e descontextualizadas. O EntrePlanos me lembrou que aqueles que sentem falta da era áurea dos blogs apenas não sabem procurar: os canais do YouTube são os blogs de hoje.

Um vídeo me chamou a atenção. Fala sobre o fim da era dos westerns no cinema. Ele começa fazendo um paralelo entre o domínio dos filmes de super-herói hoje com a era de ouro do faroeste. Particularmente acho uma comparação complicada, até por uma diferença de escala, mas é válida e interessante. A maior parte dos cerca de quinze minutos de vídeo é muito boa — ele traz uma excelente explicação sobre as razões pelas quais os bangue-bangues se tornaram um gênero de sucesso no mercado. Talvez fosse possível acrescentar outro, uma reinterpretação da opinião de André Bazin de que o western era o único gênero que só se pôde realizar completamente no cinema (o que, a propósito, reforça a comparação do EntrePlanos com os filmes de super-heróis neste século).

Mais adiante ele estabelece uma dicotomia equivocada entre faroeste e ficção científica — na verdade, os anos 50 foram o ápice do sci-fi em termos de alcance popular, com uma enormidade de filmes B que faziam a alegria das matinês e vesperais (“Matinê”, de Joe Dante, é uma homenagem a esses filmes, e sobre isso escrevi algo aqui há muitos anos e não vou me alongar.) Também atribui importância demais a “O Portal do Paraíso” na agonia do bangue-bangue; quando o filme de Cimino saiu, o western já estava morto havia tempo, e nem mesmo ele impediu que logo depois alguns faroestes bem-sucedidos, como Silverado e Pale Rider, fossem feitos.

Há um momento, no entanto, do qual discordo absolutamente: quando o canal fala das razões pelas quais o bangue-bangue virtualmente acabou.

Segundo o EntrePlanos, uma nova mentalidade surgiu no final dos anos 60. Ele credita a derrocada dos westerns à mudança no cenário político e cultural. Hippies, protestos contra a guerra do Vietnã, o movimento pelos direitos civis, o questionamento do mito americano. Uma nova geração não mais se sentia à vontade com a representação de índios malvados, mocinhos impolutos, etc.

É uma visão rósea e excessivamente acadêmica. Não é apenas revisionista, mas equivocada.

Para começar pelo menos importante, é claro que o faroeste tradicional estava cada vez mais em desacordo com os tempos. Mas ele vinha mudando. Índios já não eram unicamente retratados como assassinos selvagens havia um bom tempo. Mesmo mexicanos — pense em quantos westerns americanos tradicionais se passam em Sonora, Los Angeles, San Francisco, San Antonio e não trazem sequer um mexicano, nem mesmo aqueles gordinhos vestidos de branco e ostentando um bigodão, subservientes, preguiçosos e frouxos, nem mesmo bandoleros ou señores rancheros — àquela altura vinham aparecendo mais e melhor. Os americanos apenas não conseguiam (e não conseguem até hoje) retratar a importância dos trabalhadores chineses na construção do Oeste americano.

Se fosse essa a razão, bastava mudar o enfoque ideológico e pronto. Mas isso não aconteceu, que me perdoe “O Pequeno Grande Homem”, ou “Meu Ódio Será Tua Herança”, ou tantos outros.

A verdade é que a decadência do faroeste como gênero cinematográfico se deve a dois fatores, e a política não era um deles.

O primeiro foi o simples esgotamento. Pensando bem, os faroestes resistiram tempo demais: os filmes de super-herói têm uns vinte anos e já se esgotaram. Mas nos anos 70, o bangue-bangue já não tinha mais nada de novo a dizer. O spaghetti western não fez muito para reverter a situação. Diante daqueles filmes, um americano se sentia ainda pior que um brasileiro horrorizado diante de um francês tentando lhe mostrar como fazer samba; embora a essência não fosse tão diferente assim — o faroeste sempre foi sobre a conquista da fronteira e os conflitos que vêm daí, e por exemplo os filmes estrelados por Kirk Douglas, quase sempre, traziam personagens ambíguos, quase anti-heróis (em The Last Sunset, por exemplo, ele conscientemente comete incesto) —, havia um mundo de distância estética, e também uma maneira não muito agradável de recontar a história americana mitificada pelo faroeste.

O outro fator, talvez o mais importante, foi a TV.

A principal mudança que a televisão infligiu ao cinema tem origem no fato de que ela passou a oferecer dramaturgia gratuita e confortável a milhões de pessoas, que agora já não precisavam ir ao cinema.

Agora, adivinha o que essas pessoas viam na telinha.

Mesmo antes do acordo entre a Universal e a NBC, através do qual o estúdio jogou boa parte do seu acervo na TV, faroestes já tinham se tornado o esteio da programação televisiva americanas. Desde o fim dos anos 40, quando ela começou a se popularizar, todos os canais apresentavam um volume desproporcional de westerns. “Cisco Kid”, “O Homem de Virgínia”, “O Homem do Rifle”, “Durango Kid”, “Bat Masterson”, “Zorro” (de capa e espada), “Zorro” (The Lone Ranger), “Roy Rogers”, “Bonanza”, “Chaparral”, “Laredo”, “Lancer”, “Big Valley”, “Os Pioneiros” — o número de seriados de faroeste exibidos à exaustão entre as décadas de 50 e 70 é quase impossível de ser contado. Na verdade, era ainda pior do que se pode imaginar: em um tempo em que o satélite não existia, esses seriados não desapareciam da programação quando sua produção era cancelada: sempre havia um estado, uma cidade onde eles seriam novidade, e “Cisco Kid” era exibido logo depois de “Bonanza”. De maneira caótica, mas simultânea, sempre havia um western sendo exibido em alguma TV. Mais de vinte anos de faroestes esquemáticos ao extremo conviviam alegremente e chegavam às casas de milhões de americanos.

O gênero já vinha se esgotando no cinema e encontrou na TV uma sobrevida, até mesmo uma reinvenção. Mas paradoxalmente, essa sobrevida nos lares americanos acelerou ainda mais a sua decadência nas salas de cinema.

Na verdade, ao contrário do que diz o EntrePlanos, o público mais fiel do faroeste não foi tão afetado pela mudança de percepção sobre a Guerra do Vietnã. Ele continuaria o mesmo, vivendo no mesmo meio-oeste, com os mesmos valores que hoje fazem a delícia de organizações como a NRA; em 1972 votaria em Nixon, oito anos depois, em Reagan, e nos anos 80 iria aos cinemas assistir a “Rambo II”, “Rocky IV” e a “Cobra”; mais recentemente votaria em Trump, e continua não gostando de índio, de preto ou de mexicano. Mas algo muito importante tinha mudado: ele já não tinha mais razões para sair de casa e assistir um faroeste. Seus ídolos, como Audie Murphy, John Wayne, James Stewart ou Randolph Scott, estavam velhos ou morrendo. As únicas novidades estavam na TV, e lhe bastavam.

Para eles, o faroeste não morreu. Só mudou de casa.

13 thoughts on “A morte do faroeste

  1. Descobri o EntrePlanos há pouco tempo. Também tenho algumas divergências com o cara, mas em geral gosto muito do material. Em geral os podcasts e canais de YouTube sobre cinema são mais do mesmo, com repetição ad nauseam da furadíssima tese do cinema de autor, curiosidades escutadas nos extras de DVDs da Criterion mencionadas como se fossem insights do sujeito e forçação de barra para enxergar pautas identitárias em produções antigas. Outro dia eu escutava um podcast sobre “High Noon” onde o ultraconservador Gary Cooper foi praticamente colocado como um esquerdista. Eu sou de centro-esquerda, mas nem por isso deixarei de admirar figuras como John Wayne, Frank Capra, Barbara Stanwyck e Jimmy Stewart por eles terem sido republicanos. Ronald Reagan poderia ter sido socialista, mas nunca teria passado de um canastrão de filmes B.

    • Uma das coisas que mais me irritam na crítica que vejo hoje é essa mania de associar automaticamente a obra como extensão orgânica do autor. Se Gary Cooper fez High Noon, ele tem que ser de esquerda; por John Wayne ser um ultracoservador, seus filmes são ruins.

      Uma curiosidade é que eu acho o caso de Capra absolutamente compreensível. Ele tinha todos os motivos do mundo para ser um defensor ardoroso do american way. Não podia ser diferente.

      No caso dos canais, eu acho que são um reflexo do mundo acadêmico, em que a pessoa lê mais sobre cinema do que vê filmes. E o que lê é extremamente dirigido, bem comoo que vê. Para mim isso resulta numa crítica cada vez mais distanciada da realidade, mas e daí, né?

      • Outro exemplo de ator ultraconservador trabalhando em filme com visão progressista é o Charles Coburn em “The Devil and Miss Jones” (1941), onde o sindicalismo é visto de forma positiva e há um tom crítico aos grande empresários (embora o final seja bastante róseo).

        O Frank Capra se via como um predestinado, como um vencedor na suposta “terra das oportunidades”. Sim e não. Por um lado, saiu da extrema pobreza e sobreviveu à gripe espanhola pra se tornar um dos principais cineastas de Hollywood (sem ele a Columbia teria sido mais um estúdio da Poverty Row). Por outro, se formou em Engenharia na Caltech e ficou um bom tempo desempregado, tendo vagado pelo Meio-Oeste em trens de carga como um John Doe do seu filme (ou seja, um “dago” era discriminado no mercado de trabalho mais qualificado). Muitos desavisados associam o Capra ao Roosevelt e ao New Deal, colocando-o como um ícone da época. Na minha opinião, não bate com a realidade. Vejo os filmes do Capra como uma apologia ao conformismo, à resignação.

        Esses críticos herméticos que tentam encaixar suas visões de mundo nos filmes são um pé no saco. No jazz é a mesma coisa. Daqui a pouco transformam o direitista e hedonista Duke Ellington num Malcolm X…

        • Eu devo ser um desses desavisados. 🙂

          Acho que a formação do Capra, a história de sua ascensão e a percepção de um ambiente de liberdade que não havia na Europa são a justificativa pra fazer dele um defensor do sonho americano. Talvez a associação ao New Deal seja menos óbvia, mas naquele momento era impossível não fazê-la. É possível fazer a associação de seus filmes ao conformismo, mas é também possível associá-los aos valores oficiais americanos e a uma celebração do lado bom da vida e de fé no futuro e no país. Acho que naquele momento era essa a associação mais feita.

  2. Rafael:
    Eu ja vi muitos videos no Emtreplanos e também acho que, se nao foi a unica causa, a contra-cultura e a guerra do Vietnam contribuiram, e muito, pra tirar a graça do western, assim como a queda do World Trade Center pôs por terra a mitica do americano intocavel.
    Sem a fantasia do heroi justo, correto e inatacavel, nao há western popular pois o americano medio quer se ver assim nas telas e é isso que da muita bilheteria e faz um genero sobreviver. Ai junte isso a falta de assunto, já que tudo ja havia sido contado, de todas as formas, deu no que deu.

    • Acho que a mítica do americano intocável já tinha caído na guerra do Vietnã — mas imagino que você se refira ao plano interno: nesse caso, acho que o WTC apenas substituiu Pearl Harbor.

      Acho também que há uma contradição aí: se é assim que o americano quer se ver, era mais um motivo para a permanência do faroeste.

      • O que eu quiz dizer é que o americano médio se via nos cowboys achando que eles, americanos, erram aquilo; bravos, justos, heróicos, respeitados, etc. e agora a realidade escancarou o oposto, que na verdade eles são um dos povos mais odiados e desprezados do planeta.

  3. “me lembrou que aqueles que sentem falta da era áurea dos blogs apenas não sabem procurar: os canais do YouTube são os blogs de hoje”

    Eu não tenho paciência pra ficar vendo vídeos, gosto mais de ler mesmo. Volta, época dos blogs!!!

    • “Eu não tenho paciência pra ficar vendo vídeos, gosto mais de ler”
      Aonde assino?

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