Every Now and Then

A primeira coisa que se deve levar em conta ao pensar na música dos Beatles é que eles eram uma fusão, e não uma soma. Soma, por exemplo, é o Led Zeppelin: músicos brilhantes fazendo um som que é a combinação de cada talento individual. Nos Beatles acontecia algo diferente: era a contribuição de cada um que se transformava, ao se fundir às dos outros. Por isso, talvez, nenhum ex-beatle jamais soou como Beatles, ou como soava na banda.

Quando Free as a Bird apareceu, podia ser picaretagem, caça-níqueis, acerto de contas; mas era indubitavelmente uma canção dos Beatles. McCartney e Harrison trabalharam mais que a letra ou a criação de um novo middle eight: cada um deu sua contribuição ao som final da canção, e o resultado foi algo que não soava como suas carreiras solo. Traziam, além disso, algo novo: McCartney tocava um baixo inédito, o Wal de cinco cordas, e a guitarra slide de George era algo que não podia ser ouvido em qualquer canção dos Beatles.

Em resumo, Free as a Bird soava como os Beatles poderiam soar em 1995, em um dos tantos futuros possíveis.

Now and Then não tem nada disso. É apenas uma música fraca de Lennon superproduzida por McCartney. Só isso. Mais nada. Não há Beatles nessa frase, e é esse o seu problema.

Para começar, é o resultado de uma pequena canalhice. Ela jamais seria lançada se Harrison estivesse vivo. Ele a definiu perfeitamente: era lixo, e não queria ser visto ao seu lado como eu não gostava de ser visto ao lado dos urutaus a que a vida me obrigava na adolescência.

Mas Harrison está adubando algum coqueiro no Havaí há mais de duas décadas. E agora a famosa democracia beatle não vale mais nada. McCartney sempre quis lançar essa canção, talvez porque sonhe com uma reedição da parceria com Lennon e essa seja a sua última chance, talvez porque saiba que em tempos de streaming é preciso lançar um factoide realmente impactante de vez em quando. É uma vitória pessoal de McCartney, mas é uma vitória de Pirro.

Now and Then é uma canção chata em tom menor, como convém aos tempos. É pouco inspirada, só mais uma encarnação da eterna lamentação de Lennon por Yoko Ono. A participação de Harrison se resume a um violão, certamente tirado do run through que aparece no vídeo, e está lá apenas para desencargo de consciência; não há a mínima sombra da marca de George nessa canção.

É a sua ausência, acima de tudo, que condena Now and Then a não ser uma música dos Beatles.

Sua ausência, claro, e a abordagem dada à canção. O objetivo de McCartney não parece ter sido fazer uma canção que soe nova, fresca; é como se ele a abordasse não mais como um membro da banda, mas com a perspectiva de alguém que olha de fora e quer que a canção soe como Beatles.

McCartney chegou a usar seu velho e bom Hofner, baixo que, enquanto ainda era um beatle de verdade, abandonou em 1966. O Hofner, com seu som limitado, foi usado porque esse é o “beatle bass”. Da mesma forma, fez um solo medíocre de slide guitar porque é o que se esperaria de um solo de Harrison hoje. Para ter mais raiva, compare com o belíssimo solo de George em Free as a Bird.

No fim das contas, a canção soa como McCartney e como Lennon, apenas. A canção tem a marca de Lennon, e embora chata tem um refrão agradável potencializado por McCartney, mas traz também os mesmos valores de produção típicos dos discos recentes de Macca — especialmente o seu piano.

E isso não é Beatles. Quando Page and Plant lançaram No Quarter ou Walking into Clarksdale, nos anos 90, ninguém tentou dizer que eram novos discos do Led Zeppelin. Não deveriam aceitar que se diga isso agora.

O mais irônico em tudo isso é que McCartney fez o que acusou Phil Spector de fazer em The Long and Winding Road. É uma tentativa de salvatagem de material ruim no estúdio. Como a história é uma malvada singularmente cruel, o resultado a que ele chegou é inferior ao de Spector.

Mas há um outro aspecto interessante em tudo isso. Estão dizendo que esta é a última canção dos Beatles. Não é. É algo completamente diferente: é o início de um novo tempo.

***

A segunda coisa que se deve ter em mente é que The Beatles, hoje, é apenas uma marca administrada por uma empresa de asset management chamada Apple Corps, que só existe para gerenciar os produtos disponíveis e possíveis de uma banda que acabou há quase meio século.

Neste momento, a empresa passa por um processo de sucessão. Yoko Ono, com a indesejada das gentes fungando cada mais perto do seu cangote, já passou o seu lugar na Apple para o filho Sean. Dhani Harrison mais cedo ou mais tarde será o único responsável pelo espólio do pai. Em algum momento nos próximos anos, os filhos de Paul McCartney e Ringo Starr assumirão os lugares dos pais como sócios administradores da Apple.

Nenhum deles tem os compromissos estéticos e emocionais com o legado dos Beatles que McCartney, Starr e Ono ainda têm. Não viveram aquilo, não têm lembranças, não tem razão para mágoas. Sabem do seu valor, claro, mas estão distantes o suficiente para encarar o material que têm nas mãos como produtos iguais a quaisquer outros.

Além disso, não custa lembrar que os filhos dos Beatles são essencialmente filhos de milionários. Com poucas exceções, como Stella McCartney e Zak Starkey, são diletantes que, no caso de Dhani e James McCartney, veem a música como passatempo, ou que, nos casos dos outros, se dão ao luxo de manter padrões de vida altos porque o dinheiro nunca deixou de entrar. (O mais talentoso filho de um beatle é Julian Lennon, mas esse foi há muito alijado desse grupo, e mesmo ele não tem a fome que falta aos seus co-irmãos.)

Para eles, a Apple é apenas a empresa do pai, e empresa tem que dar dinheiro. E desde o Napster, ficou mais difícil tirar dinheiro das pessoas simplesmente reembalando material antigo — e aí estão as caixas comemorativas de discos dos Beatles para provar, em que é preciso sempre adicionar material novo.

O que Now and Then e seu uso de tecnologias sonoras modernas descerra para a Apple é um mundo de possibilidades para transformar em produtos comercialmente adequados o que resta de material inédito da banda. Posso apostar com qualquer um que o próximo passo será remasterizar a voz de Lennon em Free as a Bird e Real Love. (Devem aproveitar também para tirar os excessos da produção de Jeff Lynne.) O segundo será recuperar e melhorar as gravações do Live at the BBC.

Mas há um mundo muito maior de possibilidades pela frente.

Por exemplo, os Beatles só lançaram um disco ao vivo oficial. Mas agora poderão fazer as gravações ao vivo soarem como se tivessem sido gravadas em estúdio, atuando naquela zona cinzenta entre restauração e recriação que a IA possibilita. Por exemplo, poderão dar qualidade decente ao Star Club, um disco de legalidade confusa mas muito interessante — bem mais que o Hollywood Bowl, certamente — que os Beatles conseguiram tirar em circulação em 1998. Ou podem pegar as gravações de shows ao vivo que circulam há mais de 50 anos e lançá-las oficialmente. Os shows no Japão, por exemplo, têm qualidade bem superior ao resto, e shows como o de Vancouver dariam bons discos. (Vale a pena procurar, nas redes, o Complete Purple Chick Live Collection Vol 1-12, com o que há disponível em gravações ao vivo por aí; se não achar me manda uma mensagem.)

Isso explica muitas coisas. Eu achei estranho que tão pouco material inédito tenha sido lançado na caixa do Let it Be remasterizado. Agora sei por quê: porque nos próximos anos, com uma distância razoável entre um e outro, veremos mais lançamentos de sobras. Porque o show tem que continuar.

One thought on “Every Now and Then

  1. Não tenho capacidade de julgar esses detalhes da sonoridade das músicas remanescentes, mas agradeço que você dê essa explicação pra gente.

    Um grande abraço.

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