Be Bop

E já que falei em bebop, um pouquinho da minha história com o jazz.

Durante muito tempo, eu gostava mesmo era daquele jazz tradicional — Armstrong, Fats Waller, Duke Ellington, aquele pessoal de antes da II Guerra.

Um dia conheci um americano, Steve Weissman, que tinha pego o finalzinho daquela fase do jazz tradicional. Judeu nova-iorquino, tocou vibrafone em algumas orquestras, e acabou se tornando produtor da MCA. Um fato curioso é que ele estava a dois quarteirões do Dakota quando Lennon foi assassinado; correu para lá e ainda conseguiu tirar algumas fotos de Lennon agonizando.

Steve tinha uma coleção imensa de discos de jazz, e estava decidido a se livrar dos discos de jazz tradicional. E assim comprei uma caixa de Hoagy Carmichael, uma de Sinatra e a Orquestra de Tommy Dorsey e um disco de Louis Armstrong. O velho e bom vinil americano, que sempre foi imensamente superior ao brasileiro. Desconfio que o de Armstrong seja uma raridade.

Steve não gostava muito daqueles discos. Ele gostava mesmo era de bebop, e do alto dos seus 60 e poucos anos não entendia como eu podia preferir o jazz tradicional.

Eu não gostava daquelas coisas tipo Miles Davis, Dizzy Gillespie… E para falar a verdade, não gostava porque não conhecia. O pouco que tinha ouvido não tinha me empolgado. Parecia chato.

O tempo passou e perdi Steve de vista. Demorou muito tempo até eu começar a ouvir bebop — graças a uma coleção de CDs, desses vendidos em bancas de jornal. E nessa brincadeira comprei discos de gente como Chet Baker, Miles Davis, Charlie Parker.

O engraçado é que não eram sequer bons discos; eram basicamente refugo. Mas mesmo o refugo de músicos desse calibre pode proporcionar uma experiência excepcional.

Simplesmente não dá para reisistir a um solo de Charlie Parker. Ou Monk. Ou Charlie Mingus. O bebop é algo mágico; é uma evolução da música, é algo que transcende os limites da música pop para equipará-la à erudita.

O que eu não sabia antes de descobrir o bebop é que o jazz não é exatamente um gênero musical, com regras rígidas. Jazz é, basicamente, um jeito de tocar.

Acho que que jazz é a forma superior de música popular, e o bebop é a forma superior do jazz.

Se eu fosse recomendar o roteiro para quem quer entender o jazz, eu recomendaria que ouvisse por fases. Em primeiro lugar, o velho e bom dixieland, a origem de tudo. Depois, os grandes dos anos 20 e 30 — Duke Ellington, as big bands. Que se ouça primeiro Ella Fitzgerald, perfeita, e só depois Billie Holiday. E então que se passe para o bebop, porque aí já se sabe de onde aqueles solos, aquelas estruturas, aquelas atmosferas vêm. Que ouçam Charlie Parker, John Coltrane (absolutamente, absurdamente maravilhoso). A delicadeza de Chet Baker. E que se ouça então Miles Davis, a quintessência do bebop.

(Bem, só um adendo: eu gosto de bebop. Mas ainda detesto fusion.)

4 thoughts on “Be Bop

  1. Levando-se em consideracao o tempo para q vc passasse a dostar de jazz em si, nao se preocupe: um dia vc vai ouvir Chick Corea, Pat Metheny, Tribal Tech, e achar q eles sim, sao os melhores do mundo. Ou nao, porque rivalizar com Coltrane eh MUITO dificil…

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