Dickens

Todo mundo cita Shakespeare. É chique. Eu também cito Shakespeare. A diferença é que eu só sei uma citação: Frailty, thy name is woman, de Hamlet, que uso para toda e qualquer ocasião. O gato morreu? Frailty, thy name is woman. O dólar subiu? Frailty, thy name is woman. O avião passou no céu? Frailty, thy name is woman. Às vezes, num arroubo de pernosticismo pretensamente bretão, falo Frailty, thy bloody name is woman.

Entendo a adoração que nutrem por Shakespeare, concordo com toda e qualquer loa que teçam a ele. É maior que todos eles. Mas Shakespeare está longe de ser meu autor inglês favorito.

Esse cargo pertence a Dickens, sempre pertenceu.

Enxergo mais verdade em Dickens do que na maior parte dos outros escritores ingleses. Quantos Uriah Heep conheci na vida? Quanta gente hipócrita, reptiliana, falsamente humilde enquanto é capaz das maiores torpezas para alcançar seu objetivos? Ou então gente como Mr. Micawber, imerso em dívidas mas sem se deixar abater por elas — nem deixar de fazer novas dívidas com a alegria de sempre? Ou como Mr. Pickwick e seus amigos?

O que é fascinante em Dickens é a sensibilidade que ele demonstra ao falar do povo. Não é aquela coisa paternalista, aquele esnobismo de lorde inglês olhando de cima para os nativos: Dickens fala do que conhece, misturando ternura e ironia em doses milimétricas.

Não é preciso ser o melhor para ser o preferido.

6 thoughts on “Dickens

  1. Olá Rafael! Como você eu também adoro os romances do Dickens, no momento esotu lendo Grandes Esperanças, esotu bem no início, mas esotu adorando. Gosto muito do Dickens, como já disse, mas gosto também do W. Somerset Maugham, um escritor inglês, não sei se você conhece, mas deveria, porque os seus romances sempre envolvem assuntos ligados às mazelas dos homens, seus preconceitos, suas desconfianças, seus princípios, e etc, inclusíve, eu uso no meu Blogger o nome de um dos seus romances, “Servidão Humana”, assim eu o nomeei. Vai lá fazer uma visitinha, já te previno que ele é simples, pois nada sei sobre html, mas mesmo assim fica o convite. obs: eu nunca fui muito com a cara de Shakespeare, deve ser porque ficou uma coisa muito elitizada os seus teatros, citar Shakespeare é “chique”, e é justamente isso que me faz andar com a cara meio viradapra ele … mas tudo bem, tchau!

  2. Frailty, thy name is SOMETIMES woman. And sometimes man.
    Eu tenho tentado colocar o “sometimes” na parte que me cabe nesta frase. E acho que vou conseguir mudar o “Frailty, thy name is woman.” para “Frailty, thy name is not me.”

  3. Quanto à frase “Não é preciso ser o melhor para ser o preferido.” devo dizer que concordo. Afinal, você prefere Dickens a Shakespeare, mas pelo visto não conhece Shakespeare o suficiente para preteri-lo. Mas isso não desqualifica sua preferência. Mesmo porque não acredito que exista “o melhor” em nenhuma categoria neste mundo. Se existir, não somos capazes de identificá-lo. Ainda bem. Eu, que conheço pouco Dickens e nada de Shakespeare, prefiro me recolher a minha insignificância e tentar descobrir quem acho pior: se Paulo Coelho ou Sidney Sheldon. São de estilos diferentes, eu sei. Mas igualmente sofríveis e igualmente talentosos quando o assunto é ser um Midas da literatura.

  4. “Não é preciso ser o melhor para ser o preferido”, na verdade acho que essa frase se aplica a tudo em nossas vidas, senão, de que outra forma justificar nossa preferência por algo considerado comum em detrimento de outro mais sofisticado? Vago isto não? Mas é o que tive vontade de dizer, não acho que a preferência seja algo que devamos discutir, apenas respeitar.

  5. Olá Rafael! Estou aqui novamente para te pedir desculpas pelas palavras erradas que escrevi, justamente eu que sou um amante da boa escrita, mas espero que você entenda que este modo eletronicamente que nos faz escrever palavras ao contrário, ou até mesmo erroneamente, eu geralmente não escrevo assim, estas palavras escritas de um modo errôneos foram fruto do descuido meramente meu. Tchau!

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