Inventário

Pela primeira vez fiz um inventário dos meus livros e discos. Um trabalho cansativo, como minhas costas podem contar e a poeira que quase me sufocou podem confirmar. Minhas unhas ainda estão pretas.

Algumas poucas centenas de livros e uns 200 discos (a maioria em vinil; pelo visto, eu não compro mais discos há uns 10 anos), eis o meu patrimônio. Menos livros e mais discos do que eu imaginava ter. Entre eles as minhas pequenas preciosidades: uma primeira edição de Henry Miller que vale quase mil vezes o que paguei, uma Batman de 1965, uns cinco ou seis discos raros dos Beatles, bobagens que só têm algum valor porque pelo menos duas pessoas resolveram ir de encontro ao bom senso e fizeram um acordo, através do qual a insensatez de um justifica a estupidez do outro.

Dentro dos livros, pequenos objetos esquecidos: fotos de antigas namoradas, folhas soltas de papel com informações irrelevantes, telefones de gente que nem lembro quem é. Algumas agendas mostram que o meu passado é muito menos interessante do que as minhas lembranças dele, mas confirmam a minha tradição pessoal de nunca, nunca chegar na hora a coisa nenhuma. E constato que namorei em excesso mulheres que gostam de escrever bilhetes e cartas, como se o fato de suas idéias estarem escritas em letras normalmente bonitas as fizessem indeléveis e mais verdadeiras. Pelo menos as declarações de amor são maioria. Eu dei sorte. Ou então só guardei as coisas boas.

Era uma oportunidade de ouro para jogar fora o que não me interessa mais, como revistas, papéis, etc. Mas fico cada vez mais parecido com Gobseck, o usurário delirante de Balzac: incapaz de jogar fora qualquer coisa que um dia tenha significado algo, por mais ínfimo que tenha sido esse significado e por mais reduntante que tenha se tornado — como se algum dia historiadores da idiotice fossem precisar deles.

Como se todos esses pequenos nadas fossem a moedinha número 1 do Tio Patinhas.

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