A história de Marré

Depois de escrever o post sobre cantigas de ninar saí catando o significado de “marré”.

Achei uma explicação que reforça a minha teoria:

A maioria dessas canções e cantigas é um arranjo ou uma adaptação de canções francesas (a maioria), portuguesas e européias de modo geral, trazidas a nosso uso desde priscas eras, com maior afluxo no século XIX. As traduções são às vezes curiosíssimas, e um bom exemplo disso é a canção “Je suis pauvre pauvre pauvre du Marais Marais Marais, je suis riche riche riche d’la Mairie D’Issy”, que virou “Eu sou pobre pobre pobre demarré marré marré, eu sou rica rica rica de marré dessí”… ( Marais e Mairie d’Issy são dois bairros de Paris).

Muitas vezes as letras em português nem fazem sentido, pois se destinam mais a uma onomatopéia do que a ser uma tradução literal.

Fazem sim parte de nossa cultura, mas são quase todas de origem européia, popularizadas de cima para baixo, ou seja, primeiro as famílias dos nobres e de gente rica as importavam, as escravas e as crianças, não sabendo cantar em francês ou não entendendo a letra em português às vezes literário, estropiavam tudo, e o resultado é que muitas cantigas de roda etc. são de assunto ininteligível ou de sentido duvidoso, como a de “pega na criança e joga na bacia”, como a de ” Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão”, como a de “Pai Francisco entrou na roda” …

Elas nunca me interessaram justamente por essa falta de sentido de muitas delas.

Sds. do Linz.

Na verdade, como diz um sujeito que assina MarquisDAF nessa mesma seqüência,

(…) o bairro se chama Issy-les-Moulineaux e tem de fato uma estação de metrô Mairie d’Issy, que tem esse nome porque fica perto da prefeitura de Issy. Issy não é um bairro de Paris, é um de seus subúrbios. Fica no sudoeste de Paris, podendo ser acessado de carro pela Porte de Versailles. A estação Mairie d’Issy é a última da linha 12 que liga o sul ao norte parisiense, Marie d’Issy-Porte de la Chapelle.

Ha outras teorias, mas nenhuma delas me parece tão correta.

Pelo visto eu estava certo quanto ao Marais. E apesar de ter visto uma crônica do compadrio numa música parisiense, talvez não tenha errado nisso. Não é porque a música é francesa e reflete uma situação de lá que deixa de se aplicar ao Brasil.

Acho também que o mesmo vale para Terezinha de Jesus, que o Samurai mostrou ser sobre Teresa de Lisieux. No Brasil, ela assume cores que originalmente não tinha. Imagino a ama de leite cantando a música. Para ela, e para a criança que a ouvia, a música se completava dentro dessa noção de casamento. Era nessa realidade que elas encontravam os seus referenciais.

Portanto, mais uma teoria rafaeliana — no que se refere ao Marais –, baseada na ignorância e no bom senso, se prova verdadeira. Que viva o Marais.

28 thoughts on “A história de Marré

  1. Sobre a Terezinha de Jesus gostaria de acrescentar que o sentido é construído na interpretação. Não reside a priori em algum lugar, cristalizado.

  2. Tem razão, Gutinho. Se fosse tudo cristalizado, a gente não sairia do lugar. E eu não queria ser moradora de peça de cristal não. Ia me sentir claustrofóbica.

  3. Caro Rafael Galvão
    Bendita Net que nos permite encontar essas coisas.
    Eu numa das vezes que visitei Paris, ao passar pelo bairro do Marais, criei essa teoria há uns vinte anos sem nunca ter lido nada a respeito.
    No meu modo de entender não há esse Mairie d’Issy e sim Marais du sud, pois havia uma diferença de riqueza entre as duas regiões do mesmo bairro.
    Pauvre du Marais
    Riche du Marais du sud.
    Cuja pronuncia em português é exatamanete igual à usada na música(Rica di marré di sí)
    Onde encontro a letra original francesa?

  4. Sobre a “Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão…”, estou pesquisando e percebo que ela fala da lenda de Santa Tereza. Os três cavalheiro “o pai” – (Deus), “o filho” – (Jesus) e “aquele que Tereza deu a mão” – (o Espirito Santo), quando ela se converteu e foi ser freira. Espero que sirva para alguém a informação. Mas ainda busco fontes mais seguras. Abraços.

  5. sei que nao tem nada a ver com o texto. mas por favor , pelo amor de deus , me diga como se escreve e diz em frances a frase : deixe seu recado apos o sinal , estudo frances sozinha , estou em dúvida quanto á pronuncia , respondê’z s’il vous plâit.

  6. Olá, Rafael,
    Muito bom esse post, esse sempre tive esse pressentimento, de que algumas cantigas de roda eram de origem francesa, adulterados de alguma forma, com o passar do tempo. Acho essa uma explicação muito plausível para o significado de marré dessí.

  7. porra rafael
    depois ce diz q o blog é só pra implicar
    ce ta ensinado cara, ensinado
    professooooor
    e eu to aprendendo
    oras pipocas
    agora diz: onde se pode achar oq vc acabou de dizer com esse post?
    ah sim, “pesquise!”, dirá vc
    porém, se for pra indicar, indico aqui, já ta explicado
    +/- como o autodidata, q aprende (e melhor) q os demais, mas leva mais tempo, por exemplo, do que se, alguem que já sabe (o professor), lhe dissesse (ensinando, condignamente)
    Ok? 😉
    abrasssss

  8. Minha avó tinha o sobrenome Marré mas até hoje não sabe o porque desse sobrenome sendo q ela era filha de índia c/ feitor de fazenda q torna muito difícil ter uma ligação c/ francês.Talvez marré tenha outros significados!

  9. NESSA LINHA DAS INFLUENCIAS EUROPÉIAS SOBRE NÓS PASSEI A SUPOR, JUNTO COM MINHA PROFESSORA E MINHA FILHA, QUANDO COMECEI A ESTUDAR FRANCÊS, QUE O TERMO QUE UTILIZAMOS PARA NOS REFERIR A DELÍCIAS COMESTÍVEIS – QUITUTE – TALVEZ TENHA ESSA MESMA ORIGEM JÁ QUE EM FRANCÊS DIZEMOS “QUE TOUT”, O QUE QUER DIZER “QUE TUDO, QUE BOM!!!” APORTUGUESANDO, PASSAMOS A SABOREAR QUITUTES!!

  10. Muito boa as explicações deste blog, me ajudou muito.
    Continuem assim pessoal. valeu.

  11. agradeço muito a ajuda dessas explicaçôes curtas,já que eu queria entender o porque de todos dizerem q “não temos cultura” e poder ter uma resposta.A minha conclusão até agora é que nossa cultura é simplismente uma mistura de todas as outras o que na minha opinião é o que a enrriquece e engrandece.Só não concordo pelo fato de sermos tão acostumados pelas ditas convenções, de acordo com o livro “O zahir” de Paulo Coelho(ótimo livro) ele exemplifica fatos como a origem da tão conhecido crença(se posso dizer assim):sexo antes do casamento , ou até mesmo da distância ilógica dos trilhos do metrô, isso me ajudou a concluir(apesar de esse não ser o tema central do livro):nunca termos feito nada para mudá-las a nosso gosto,permanecemos na ignorância, na alienação nos tornando robôs que acreditam em tudo em que nos dizem não só nas pequenas coisas mas principalmente nas grandes como política,econonia,educaçâo,saúde,classes sociais etc.

  12. Tive a oportunidade de pesquisar o significado dos termos “de marré” e “de marré deci” Publiquei o artigo “Interpretação Textual de um Jogo Tradicional Cantado” na Revista de História da Biblioteca Nacional, versão on-line, em janeiro/2009. A “chamada” do artigo on-line tem o título “De marré o quê?”. Naturalmente muito poderia ser esclarecido caso tivesse a leitura de gente interessada. Por isso, deixo esta informação aqui. Obrigado. Avelino Medina.

  13. Rafael estou precisando de ajuda gostaria de desenvolver um projeto sobre cantigas de roda de origem francesa com crianças de 1 a 3 anos não estou conseguindo localizar as cantigas pois gostaria da vresão francesa e depois na versão em portugues para ensinar as crianças, posso contar com sua colaboração, obrigada.

  14. QUITUTE

    Etimologia
    tradicionalmente do quimb. kitutu ‘indigestão’; sugere Nei Lopes o quicg. kituuti ‘que separa, descasca e pila o grão’, sendo o quitute um prato bem feito, delicado; f.hist. 1858 quitúte

  15. oi rafael!
    “marais” (marré) significa “pântano” em francês, e era um bairro muito pobre, habitado por judeus.
    já “mairie” (pronúncia bem parecida, e daí o jogo de palavras) significa “prefeitura”, e “mairie d’issy” é devido ao nome do bairro: “issy-les-moulineaux”.
    este último, ao que parece, fica às margens do rio reno, lugar bem chique.
    por isso o “pobre pobre pobre de marais marais marais” e o “rico rico rico de marais d’issy”.
    simples, não?
    espero ter ajudado!

  16. Acho que a explicação correta é:
    Marais dessus- que significa o bairro Marais de cima(o que não era pântano).
    Marais ci-dessus- que significa o bairro Marais de baixo( o que era pântano).

  17. uma outa explicação plausível é que em Paris quando começou a se construir prédios com mais de 02 pavimentos, os pobres moravam na parte de cima, pois tinham que subir escadas.
    Mas no bairro Marais, que era um pantano, as pessoas mais pobres moravam nos primeiros pavimentos daí a música com om trocadilho.

  18. Teresinha de Jesus, não seria um modo marrano de homenagear a Theresa de Jesus, imortalizando seu nome, após haver sido condenada à fogueira em vida, havendo resistido a todos os suplícios impostos pela inquisição?
    Neste caso, a canção é originalmente brasileira, ainda que anterior à Independência…
    Theresa de Jesus – judia bahiana, cristã nova – foi aprisionada, torturada e queimada viva, por ser “pertinaz, contumaz e relapsa”, não aceitando o cristianismo.

  19. Um dia, depois de muito debater as verdadeiras origens das inocentes canções de ninar importadas, teremos a consciência política que me parece necessária a que nossos descendentes tenham uma cultura própria e não exclusivamente importada.

    Num país Republicano, qualquer pai ou mãe chama seu filhinho quando menina de “minha princesa” e a cria de tal forma distorcida, como “princesa” que ela vai amadurecendo moldada a pensar que um dia achará seu “príncipe encantado”, ainda que originado de um sapo por um gesto de uma “fada madrinha”.

    Esse bombardeio de fábulas e gritantes mentiras especialmente quando importadas só podem trazer insondáveis problemas psicológicos na fase da adolescência ou adulta quando a realidade inexorável bate de frente com as mentiras encampadas e pregadas pelos próprios pais.

    Não sei. Me parece que o assunto enseja uma reflexão e foi isso que já fiz outrora, inclusive, por termos no Brasil, fartos paradigmas tupiniquins de exemplos de história que poderiam ser repassados às nossas crianças de como ser ou como não ser, dependendo da opinião política de cada um.

    Mas a verdade é que a unanimidade atual que permanece mantendo essas historinhas infantis importadas, alienígenas, obsoletas e idiotas como base dos primeiros repasses marcantes às mentes dos pequeninos, dificilmente, libertarão nosso povo da situação de ser refém cultural dos países que nos colonizaram economicamente e permanecem nos rondando com versões mais recentes da mesma baboseira como “o homem aranha”, “barbie” a boneca sem boca, “halloweens” e outras cascatas tipo “cult” que infestam e sempre, pelo demonstrado nas explicações do post a mente principalmente “coxinha” dos brasileiros…

    Uhauhauhauhauhauhauha!

  20. Gostei muito do que JOSÉ CLÁUDIO BRUNO postou. Acho que é bem por aí. Entretanto, acho que o que se quer nesse espaço não é fazer apologia de costumes impostos pelo colonialismo e sim entender significados de algo tão cantado e decantado na infância. Infelizmente, os príncipes, princesas e sapos ainda é uma realidade na mente de pais e filhos numa época de clamor por busca de nossa identidade cultural, sem intromissão dos estrangeirismos. Infelizmente a globalização atinge também nossa cultura. E… “celavie”….

  21. Ops!!! Infelizmente, os príncipes, princesas e sapos ainda SÃO uma realidade…

  22. Villa lobos e Cecília Meirelles pesquisaram a origem dessa canção pobre de marré.
    Marré é Mariazinha e dessi é d’ici, daqui.

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