De carapinhas e pixains

Como é bom viver em um país que não é racista.

É curioso o modo como algumas pessoas concedem em admitir, candidamente, que alguns negros são bonitos. E citam, por exemplo, Denzel Washington. Com isso talvez tenham a sensação de que não são racistas, porque afinal de contas conseguem achar um negro bonito.

Sensação falsa. Os negros admitidos como “bonitos” são aqueles que, em geral, têm traços próximos ao caucasiano. Quanto mais afilado for o nariz de um negro, mais bonito ele é. Quanto mais finos forem seus lábios, mais bonito ele é.

Isso não tem nada a ver com sexo. Nesse aspecto, pelo menos, somos bastante democráticos — Gilberto Freyre fala que essa sensualidade percebida em uma pele mais escura vem já de Portugal, quando a loura do norte era para casar e as morenas do sul, com forte sangue mouro, eram para a saliência nossa de cada noite. Admiramos a bunda grande da negra, porque isso nos inspira sexualmente. E se essa negritude é “amaciada” pela infusão de sangue branco, no caso das mulatas, é melhor que o paraíso dos muçulmanos.

Esteticamente é diferente, entretanto. Este povo mestiço, ansioso por embranquecer, não consegue achar a raça negra bonita. Até que se esforça — que não se compare o racismo brasileiro ao americano –, mas é incapaz em ver a beleza negra em si, porque aplica seus padrões europeus a algo que tem seus próprios valores. Não é que achem negros realmente bonitos; acham brancos escuros bonitos, o que é bem diferente. Quantas pessoas não dizem que “não é que eu não seja racista; eu só não acho negro bonito”?

Como qualquer ideologia dominante, esse comportamento, de certa forma, é absorvido pelos próprios negros. Há outra razão para a moda de se raspar os cabelos? É como se, já que que não se pode esconder a cor da pele, que se elimine alguns dos indícios desse traço pouco recomendável na sociedade. Como se dissessem “pixaim bom é pixaim raspado”. A moda dos anos 90 de pintar os cabelos de louro, embora irreverente, debochada, no fundo era a mesma coisa: apontava para a discrepância de padrões estéticos e uma negação dos próprios valores.

O black power, imbuído da noção de enfrentamento e afirmação da força da raça (eu não gosto do termo; porque gente não é cachorro, e porque geneticamente não há diferença entre eu, um norueguês quase albino, um negão, um japonês e Raoni — com exceção daquele treco lindo que ele coloca na boca), valorizava o que era intrinsecamente negro: a carapinha crescia em direção ao céu, orgulhosa de sua forma e textura. Isso parece ter se perdido; e o resultado é a predominância dos valores europeus.

E um valor predomina sobre outro, ainda que modificado e suavizado.

Como seria bom viver em um país que não é racista.

5 thoughts on “De carapinhas e pixains

  1. Uma tia minha dizia não ser racista, mas estava sempre perguntando: “Você namoraria um negro? Duvido!” Bom, namoraria sim. E, como beleza-raça-etc-etc para mim nunca foram fundamentais, nem teria que ser um pitéu de traços delicados.

  2. Outro questionamento interessante:(Aos racistas é claro!) E se Deus for negro??? (aos que crêem é claro!)

  3. É, Paulo. Pra começar terão de admitir que Deus existe como matéria. A primeira pergunta seria: e se Deus tiver corpo?

  4. BOM DIA,

    NOSSO PAÍS É RACISTA, SIM! E NÓS, NEGROS, ÀS VEZES, SOMOS RACISTAS TAMBÉM, QUANDO DIZEMOS “SEM QUERER”, “SÓ PODIA SER PRETO…”. QUANDO, POR ALGUM MOTIVO DE EGO FRAGILIZADO, NÃO SOMOS ATENDIDOS COM A DEVIDA ATENÇÃO QUE ACHAMOS QUE MERECEMOS.
    VEJO ESTE COMPORTAMENTO EXECRÁVEL ATÉ EM MEUS AMIGOS (BRANCOS E NEGROS), QUE DIZEM SEM A MENOR INTENÇÃO DE MAGOAR: “NÃO É QUE EU NÃO GOSTE DE PRETO, MAS AQUELE NEGÃO É MUITO SAFADO…” OU PIOR: “NÃO SOU RACISTA, MAS PRETO QUANDO NÃO C. NA ENTRADA…” E POR AÍ VAI.
    VEJO MUITAS DE MINHAS AMIGAS NEGRAS NAMORAREM, CASAREM E TEREM FILHOS COM HOMENS BRANCOS PARA “PURIFICAR”, “APURAR” A RAÇA. QUE HISTÓRIA É ESTA DE PURIFICAR A RAÇA? EU TIVE UM FILHO DE UM NEGRO LINDO, DE CARACTERÍSTICAS NEGRÓIDES… CONSIDERO-ME NEGRA, POIS PARA MIM NÃO EXISTE ESTA HISTÓRIA DE “MORENO, MESTIÇO, MARROM, JAMBO”. SOU MISTURA DE PAI NEGRO E MÃE BRANCA E MEU FILHO NASCEU MARAVILHOSO!
    QUE PENA NOS ESCONDERMOS ATRÁS DE RÓTULOS E ESSA MANIA BESTA DE SER O QUE NÃO SOMOS SÓ PARA TER ACEITAÇÃO NO MERCADO.
    A PRINCESA ISABEL TIROU-NOS DA ESCRAVIDÃO, PORÉM NÓS NÃO TIRAMOS A ESCRAVIDÃO DE NÓS!
    BJK,

    SILVANA

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