O outro lado da guerra do copyright

Resumo da história: um DJ faz uma mixagem de um disco de Jay Z com as músicas do “Álbum Branco” dos Beatles, criando o Grey Album. A EMI ameaça o sujeito com processos por violação de copyright, e a comunidade internet, em protesto, lança a “Terça-feira Cinza” em 25/02, disponibilizando as músicas para quem quiser baixar. Fim da história. Thoreau ficaria orgulhoso.

Um pouco antes da confusão se espalhar baixei algumas das músicas do Grey Album. Achei apenas chatas. É por isso que acho a atitude da EMI extremamente burra: em primeiro lugar, essas remixagens são boa uma forma de levar a música de sua galinha dos ovos de ouro a um novo público; e a perseguição apenas realçou a fama (na minha opinião imerecida) do Grey Album — algo que por sua vez seria bom para a EMI se ela não aparecesse como a vilã da história.

O jornalista musical Devon Powers lança a questão: “algo deve ser feito em relação aos Beatles”. Ele acha que se deve tirar os direitos autorais dos Beatles e de outros artistas, porque a vigência desses direitos por tempo demais causam dano à sociedade e tiram da música a sua força social.

Cada vez mais questões de copyright se complicam. Mas parece claro que um artista tenha direito à maneira como tratam a sua obra. Não se fala aqui de divulgação, mas de manutenção da integridade da obra. Por exemplo, While My Guitar Gently Weeps é uma bela canção. A gravação é magistral (com um baixo maravilhoso de McCartney e solos divinos de Eric Clapton). Mas o que ouvi no Grey Album foi uma diluição sem graça e significado.

“Música como força social” é um conceito difuso demais; se há alguma nas canções de Britney Spears, por favor me mostrem. Por outro lado o rap é, sim, uma “força social”: mas para isso não precisa cortar e colar trechos de discos antigos. Sua força não está nisso, está nas letras e na relevância da música como reflexo da vida e como parte de um movimento social. Tenho cá minhas dúvidas sobre a validade artística de simplesmente misturar obras de duas pessoas diferentes — mais ou menos como se eu colasse uma figura de Dalí num quadro de Ticiano e dissesse que aquela obra era minha –, mas ainda que se admita que isso é arte, parece óbvio que os donos da obra original têm alguns direitos. Se optam por exercê-lo ou não é outra coisa.

Até agora não há uma resposta única e simples à questão da atualização dos direitos autorais. Como dizia H. L. Mencken, “Para cada problema complexo, há uma solução simples, cristalina, e errada”.

(En passant: esse blog está licenciado sob uma licença de some rights reserved da Creative Commons. Ou seja, você pode copiar e divulgar o que quiser daqui, desde que diga quem foi o otário que escreveu, não altere nada e não use para fins comerciais. Cá para nós, é uma bobagem que eu coloquei só para apoiar essa nova forma de gerenciamento de direitos autorais, porque a verdade é que você pode fazer o que quiser com o que encontra aqui que eu não vou poder fazer nada, por insuficiência de meios de fiscalização e coerção e porque, no fim das contas, isso importa pouco. E se alguém conseguir ganhar dinheiro com o que encontrar aqui, por favor me avise, para que eu possa lhe idolatrar como a um novo deus e tentar tirar uma lasquinha também.)

2 thoughts on “O outro lado da guerra do copyright

  1. Ergo, Pinheiro. Faço o que você quiser, até lavo seus pés e enxugo com os meus cabelos. Mas o dinheiro antes, por favor. 🙂

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