Ainda Lennon e McCartney

Bia, eu não considero Many Years From Now uma biografia autorizada: só consigo ler o livro como sua autobiografia definitiva. O livro é de McCartney; Barry Miles é só o seu ghost writer.

É um bom livro, sem dúvida. Mas é, principalmente, parte do esforço de revisionismo de McCartney em redefinir a história do Beatles.

Não que isso seja em tese ruim; acho que a imagem que ficou dos Beatles é um pouco equivocada. McCartney precisava mesmo de um pouco mais de luz porque, se eu estivesse em seu lugar, ficaria meio irritado ao ver o sujeito que disse que “avant-garde is french for shit” ser aclamado como o vanguardista dos Beatles, enquanto eu, que levava a banda adiante em boa parte de suas melhores experimentações, ficava conhecido como o conservador por excelência.

(Foi apenas depois de conhecer Yoko que Lennon aderiu à tal “vanguarda” — e um de seus grandes momentos é Self-Portrait, um filme de 18 minutos que mostra o pênis de Lennon tendo uma ereção em câmera lenta. Em retribuição, Yoko lhe tirou todo o humor.)

Mas na sua autobiografia McCartney omite, convenientemente, uma série de pequenos episódios. Como, por exemplo, que comprou ações da Northern Songs (a editora dos Beatles, que hoje pertence ao comunista Michael Jackson, aquele que come criancinhas) sem contar aos companheiros, desequilibrando as relações entre os parceiros comerciais. Que foi capaz de escrever bilhetes anônimos e racistas para Yoko Ono. Que era capaz de pequenas maldades e mesquinharias no dia a dia. Que era capaz de pisar sem dó em George Harrison. Que tentou impor seu sogro como empresário da banda (foi o que salvou a fortuna deles, mas se eu fosse um dos outros Beatles certamente não ia me sentir confortável com a perspectiva de ser empresariado pelo sogrão do sujeito). E que sempre tem uma declaração conveniente a fazer, normalmente às expensas dos ex-companheiros de banda, quando está em vésperas de sair em turnê.

A fama de McCartney como autoritário no estúdio é legendária. À medida que ele ia crescendo como compositor e produtor, isso se tornou mais óbvio, o que batia de frente com a cultura democrática da banda. O sujeito é tudo, menos bonzinho.

Que havia uma grande sinergia entre Lennon e McCartney, não resta dúvidas. Mesmo na pior fase dos Beatles, eles ainda conseguiam fazer grande música juntos (o show no terraço da Apple, em Let it Be, é a única parte empolgante de um filme mortalmente chato). Eu não sei até que ponto eram “irmãos”, como McCartney gosta de dizer agora, depois de chamá-lo de “porco manipulador”, mas certamente eram muito amigos.

Há um componente edipiano na atitude de McCartney de constante auto-afirmação em relação a um Lennon que morreu há quase um quarto de século. E isso esbarra na impressão que ele tenta passar de que era mais despojado (embora, como precise de um pouquinho mais de edge para lhe distanciar da fama de mela-calcinhas, ele sempre lembre que John também era bonzinho e ele podia ser duro).

Se eu fosse escolher apenas um para classificar como ególatra, esse seria Paul McCartney. Mas seria falso, porque ambos tinham egos descomunais. A diferença, talvez, seja o fato de que Lennon era mais preguiçoso e mais espontâneo, e certamente mais sincero.

O revisionismo de McCartney, no entanto, se torna aborrecido porque as pessoas não precisam mais ser lembradas de que ele era um músico mais completo, que ele foi o líder dos Beatles em sua melhor fase, que era mais inventivo que Lennon e que ele foi quem alcançou maior sucesso individual, que tem a carreira solo mais consistente, apesar dos altos e baixos. Cada vez mais parece um velho chato que precisa ficar lembrando que foi herói de uma guerra travada muito tempo atrás.

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