De volta ao Porto da Barra

O comentário do Sérgio sobre o Porto da Barra me lembrou outras coisas, detalhes de uma Salvador que não existe mais.

Voltei à cidade nesse ano, 1977. Naquela época eu ainda não era baiano. As pessoas perguntavam se eu era paulista — meu sotaque, na verdade, era carioca, mas para eles era tudo a mesma coisa, porque qualquer sotaque não-soteropolitano é a língua dos bárbaros.

O Oceania era um dos points da boemia da Barra. Para mim, era o lugar onde às vezes eu parava com meu pai, no domingo pela manhã, e lia o Jobinha, suplemento infantil do Jornal da Bahia. Eu não andava pelo Farol porque não tinha idade para pegar as “cocotas”, como chamavam na época — e por isso, enquanto a Barra do Sérgio vai ser sempre o palco da juventude, para mim ela é infantil. Minha “área”, nessa época, ia da 8 de Dezembro à Marques de Leão, fronteiras delimitadas por duas lojas de brinquedos, a Brink Bem. Meu centro geográfico era a banca de revistas que ainda hoje está no Largo da Barra, de um sujeito chamado Renato, que para mim era a cara do Emerson Fittipaldi. Foi a primeira banca com telefone que vi — ele precisava para continuar comprando e vendendo seus dólares. Demoraria algum tempo para essa área se expandir até as livrarias da Praça da Sé, quando fui morar na Graça.

A Salvador dos anos 70 era mesmo uma cidade mágica, muito mais do que é agora.

***

Hoje o bairro sofre um processo de copacabanização, embora ainda esteja longe de se tornar algo parecido. A coisa complica mesmo aos domingos: é a praia de zona sul mais próxima, e é para lá que o povo vai. Nos fins de semana, ela fica intransitável. As ruas em redor ficam cheias de gente que os moradores do bairro classificam como de segunda classe. Prostitutas enchem as ruas à noite. Malandros esperam turistas darem algum vacilo.

Há uns dez anos, num desses domingos pela manhã, eu andava pela praia, olhando o vai e vem enquanto esperava criar coragem para ir à agência onde fazia um freelance. Um sujeito magro, muito branco, começou a conversar comigo enquanto andávamos. Se queixou daquele monte de negros na praia. Reclamou que não havia mais segurança, que qualquer daqueles crioulos poderia estuprar sua irmã. Evocou uma Barra que já não existia. O elitismo racista dele começou a me irritar e foi para o meu alívio que, depois de caminhar ao meu lado desde o Porto, o sujeito me privou de sua adorável companhia no Farol.

Eu o imagino ainda hoje, aos pés da mãe velhinha, reclamando ultrajado da decadência do bairro onde cresceu, enquanto serve licor de jenipapo às pobres visitas que ainda se lembram daqueles dois seres esquecidos pelo mundo.

4 thoughts on “De volta ao Porto da Barra

  1. Rafael,
    Acho que você comeu um pedaço do final do texto (“e foi com alívio que…???)
    A minha lembrança do Porto da Barra está associado a uma imagem mais recente, pois cheguei em Salvador no início de 87, recém-casado. Mas, cá pra nós: “Cocotas”? tsc, tsc.
    O post Relatório foi escrito em aramaico ou sânscrito. Não entendo lhufas de tudo aquilo.
    Caio.

    (“Cocotas…”?)

  2. Rafael,

    Tenho uma lembrança mais específica do Oceania: fim de tarde, tomando chope com um baiano arretado, ainda no começo de uma amizade que dura até hoje, e ele choromingando que a sua namorada estava grávida e tinha de apressar o casamento. E haja chope!
    O bar (Oceania) servia também pra isso, afogar as mágoas, contar os segredos e desabafar em ombros amigos. A paisagem de perto (as meninas passando) e mais ao longe (o farol, o mar) também ajudavam.
    O casamento foi na igreja que fica no largo da Vitória (não sei o nome) e até hoje o casal está aí, firme e forte e a menina que naquela época estava ainda na barriga escutando a conversa é hoje uma grande dentista em Salvador.

    Tinha também um restaurante pequeninho ali entre o Hospital e essa banca de revista que você falou, com as mesas dispostas em duas filas paralelas, por onde sempre passava e tinha vontade de entrar (já estava e saco cheio da sopa aguada no jantar da pensão que morava), mas que não tinha cacife pra tanto. Uma vez só tomei coragem entrei para tomar apenas um chope, que era o que o dinheiro dava pra pagar. O garçon delicadamente disse que somente tinha assento quem ia jantar. Saí de fininho.

    Ah! e passeando também pela calçada da Barra ao Porto tinha o Van Gogh, um restaurante (quase?) centenário, com aquela decoração e clima de ambiente retrô. O prato que mais gostava era o “Churrasco a Gaúcha” (era assim? desculpe a memória como você vê não é muito boa): uma porção generosa de contrafilé, arroz, farofa (baiana, é claro) e uma salada ao estilo vinagrete. E o chope, tirado em uma máquina compatível com a idade da casa, vinha sempre gelado.
    O Van Gogh era frequentado por famílias e viajantes que se hospedavam nos hotéis da redondeza. Não enchia, mas sempre mantinha a casa com frequência razoável.
    O restaurante, depois vi, não existe mais e não sei o que foi construído no lugar).

    Como lembranças do Porto da Barra e redondezas por enquanto é só.

    Um abraço,

    Sérgio.

  3. Olá amigos eu moro Há quase 28 anos na barra, eu pude ver as mudanças ocorridas no bairro, para pior, quando vcs lembraram o restaurante Van Ghog, lembrei do meu do pai, ele ia frequentemente coim minha mãe, cheguei a ir algumas vezes, mas era muito pequeno. A barra não é mais como antes , muitos pivetes, ladrões, protitutas, ainda moro lá, ainda tem suas belezas, mas não desejo envelhecer no bairro. umA PENA.

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