Anotações sobre uma campanha que passou

Há vários tipos de campanha eleitoral. A maioria dos candidatos, claro, acredita que tem chances de vencer. Há também aqueles que entram no jogo por outros motivos: se projetar politicamente para o futuro, se credenciar para vender seu apoio em um eventual segundo turno, ou servir de suporte para uma candidatura maior. Nunca participei de nenhuma dessas e não imagino como seja, mas não deve ser o pior trabalho do mundo, se se descontar o que imagino ser a péssima auto-estima de quem se vê fazendo esse papel de coadjuvante.

Mas há um tipo especial: aquele que se sabe derrotado mas, ao mesmo tempo, se leva a sério.

Este ano houve duas candidaturas “sérias” à prefeitura de Aracaju. A de Marcelo Déda, candidato à reeleição, e a de Susana Azevedo, deputada estadual que contou com o apoio velado do governador João Alves. Dois outros candidatos se lançaram, também: Jorge Alberto, do PMDB, e Adelmo Macedo, do PAN. (Houve também o PSTU, mas desses eu não falo porque eu me respeito e, como meu sonho é ser burguês, eu não voto no 16. Além disso eles têm um desprezo proletário pelo bom e velho marketing político que me incomoda, porque a possibilidade de tirarem meu pão não é das mais agradáveis.)

Não vou entrar no mérito político de cada uma, porque isso, sinceramente, não me interessa. O que me interessa é outra coisa: é a forma como as campanhas se desenrolaram.

Em primeiro lugar, ninguém esperava ganhar essa eleição de Déda. O que estava em jogo aqui era outra coisa, era forçar um segundo turno para que ele não saísse fortalecido em demasia para uma eventual disputa pelo governo estadual em 2006. Ou, pelo menos, esperar que ele ganhasse com menos votos do que em 2000.

Susana começou a campanha dela de maneira errada. Começou batendo, e batendo pesado. Por si só isso já é um erro grave. Se alguém define que sua estratégia será desferir golpes abaixo da linha da cintura, recomenda-se que se mostre, antes, uma boa pessoa para o eleitor. Suas críticas serão mais bem vistas. Susana, no entanto, dispensou essa pequena formalidade e entrou de sola.

Além disso, há um limite em uma campanha de “baixaria”. É o limite da realidade. Se eu passar um progama inteiro dizendo que o sistema municipal de saúde é uma droga, enquanto a população olha em volta e vê o SAMU, um serviço de atendimento de urgência que se tornou modelo para o país, ela vai concluir que eu sou um mentiroso, e nem mesmo as críticas verdadeiras — e ela fez algumas — que eu faça serão aceitas.

Finalmente, na hora de fazer propostas, ela errou no formato. Soltava em cada programa uma enxurrada que diziam pouco ou nada para o povo. Perdia na comparação — uma coisa é dizer que vai fazer, outra é mostrar o que foi feito — e na forma escolhida, porque mostrávamos tudo com mais consistência.

Esses foram alguns os erros da campanha de Susana. Houve mais, mas isso importa pouco: acertou em seus últimos programas, mas àquela altura era muito difícil reverter um quadro que estava quase definido desde o início.

Em poucas semanas ficou claro que eles estavam sem saber o que fazer. Era óbvio que mudavam os eixos do programa de acordo com o resultado das qualitativas que recebiam no dia seguinte. Durante alguns programas iam e vinham da baixaria a programas mais propositivos; mudaram detalhes de jingle, tiraram apresentadores, reforçaram a presença da candidata a vice. O problema é que tentavam uma abordagem e as qualis davam a vitória a Déda; então mudavam tudo e as qualis continuavam dando a vitória a Déda. E então mudavam de novo. Chegaram a um ponto de desorientação tão grande que eu cheguei a discutir com o Cauê o que estava acontecendo: ele achava que no final das contas eles não estavam realizando qualitativas, enquanto eu achava que eles estavam tão zonzos que estavam lendo essas qualis de modo errado. Claro que Cauê, que sempre sabe das coisas, tinha razão. Ninguém com acesso a pesquisas faria aquilo.

Por exemplo, aquele post dizendo que “A vida é bela” foi uma comemoração pessoal. Nós tínhamos feito um programa que julgamos ruim, com falhas em sua estruturação e com vários problemas durante a produção. Na hora que o programa eleitoral acabou começaram as auto-críticas. E no dia seguinte, quando chegou a quali, vimos que demos um banho na concorrência. Por isso a vida é bela, e por isso os risos à toa.

Eu já participei de campanhas em crise. Não é o melhor ambiente do mundo. Nessas horas, há sempre dois grupos que disputam a primazia da definição estratégica da campanha. O pau come, e come feio. Enquanto isso, a equipe de criação fica perdida, porque nessas horas o comando fica mais frágil, mais volátil. A pressão é enorme, e o resultado é normalmente a paralisação. É por isso que no início de setembro eu já estava com pena do pessoal que fazia a campanha de Susana. Porque certamente dormiam pior que a gente, do lado de cá. Sorriam menos. Cometeram algumas falhas do ponto de vista criativo, claro, mas o verdadeiro erro estava na estratégia política adotada, e disso eles não tinham culpa.

O resultado virou notícia nacional.

Houve um caso pior que o de Susana, no entanto. O candidato do PMDB, Jorge Alberto, era um deputado federal que resolveu projetar seu nome na capital. Deveria ter feito uma campanha limpa, apresentando propostas, dando o seu recado. No entanto, resolveu fazer o jogo do governador e passou a bater em Déda. Virou mero suporte da candidatura de Susana, muitas vezes caindo no francamente ridículo, cometendo erros primários — como por exemplo gastando minutos preciosos reclamando que Déda não reconhecia mais seu esforço em liberar verbas para determinadas obras; só ele não percebeu que estava fazendo propaganda dessas obras e dizendo, implicitamente, que Déda realmente tinha trabalhado. Definiu um slogan (“Vote em quem vai ser prefeito”, ao que o povão respondia “Déda”), e depois mudou para “Agora é 15”, copiando o slogan de Lula em 2002 sem atentar para o fato de que aquele slogan tinha uma razão de ser, e ele não tinha nenhuma. Terminou em quarto lugar, com menos de 4%. E o resultado, se é que posso fazer previsões, foi pior do que se ele tivesse ficado em casa. Porque um quarto lugar numa eleição majoritária é desmoralização. Se ele queria entrar em Aracaju, entrou com o pé esquerdo. E ainda levou uma rasteira.

Mas o mais importante, mesmo, é que este foi um momento importante na história política de Sergipe.

Há 10 anos, participei da campanha de um fenômeno político chamado Jackson Barreto. Era uma campanha sem pesquisas, baseada apenas no feeling. Num dos maiores erros de sua história, o Ibope deu a vitória do outro candidato, da situação, no primeiro turno, com 70% dos votos. Todos nós nos despedimos achando que tínhamos perdido. E no entanto Jackson ganhou aquele primeiro turno (teria a eleição roubada no segundo, mas isso é outra história). Aquele foi o ápice da carreira de Jackson, e provavelmente a minha escola em termos de marketing político.

Se a minha leitura de qualitativas estiver correta, se consigo enxergar o que se passa nas ruas, e se os resultados das eleições no interior indicarem alguma coisa, Sergipe está presenciando o nascimento de um novo fenômeno chamado Marcelo Déda.

2 thoughts on “Anotações sobre uma campanha que passou

  1. Eu já o tinha parabenizado pela magnífica vitória num post aí embaixo. Agora parabenizo pela bela e fundamentada análise sobre a campanha.

    Se me permite uma digressão pra cá, em Belém as coisas estão muito diferentes. Provavelmente o PT (Ana Júlia) vai perder, mesmo tendo um governo (Edmilson Rodrigues), em termos gerais, muito melhor que qualquer governo, do centro à direita, desde que eu me entendo por gente.

    E perder para um senador medíocre, popularesco, com muitos problemas na justiça, mentiroso contumaz… Duciomar Costa é o nome dele, e quando digo “ele é ladrão” pra algum eleitor dele, este dá de ombros, reconhecendo a verdade, mas se deixando enfeitiçar pela suposta “humildade” desse safado e sua suposta imagem de “gente do povo”.

    Fiquei puto da vida no dia da eleição com o “corredor polonês” criado por seus cabos eleitorais em frente à escola onde fui mesário. O som tocou alto o dia inteiro, a não ser nos breves minutos em que o juiz eleitoral foi ver o que estava se passando.

    Passei a noite de domingo enraivecido, tanto que minha mãe me obrigou a tomar um calmante, até porque estava com uma puta dor de cabeça do som alto.

    Agora voltei ao tédio normal e percebi que, com vitórias como a que você narrou nesse lindo post, dá pra se ligar o botão do “foda-se” e achar que Belém e Duciomar se merecem…

    Não perdi a esperança de uma virada, só não vou perder tempo e neurônios cultivando-a.

  2. Rafael, tire já esse post do ar. Você está ensinando os seus futuros adversários o que eles não devem fazer e o que eles devem fazer.

    Essas dicas são valiosas, por mais que pareçam óbvias. Se fossem tão óbvias assim, seus adversários não teriam cometido os equívocos que cometeram…

    Portanto, você que é candidato a burguês, cobre do freguês…

    Não dê a receita de graça! :c)

    Abraços,

    Valdemar

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