Mercado Municipal Thales Ferraz

A primeira coisa que vejo é o aleijado.

Ele se arrasta pela calçada oposta no mesmo sentido que eu, movendo quase rápido as pernas atrofiadas, uma crosta branca e grossa nos joelhos. Não se incomoda com o sol forte, com a calçada quente. Ele tem que chegar antes que tudo acabe, parece uma aranha com suas pernas finas dobradas e articulações inchadas.

É por causa dele que olho em direção ao seu destino: na esquina uma multidão interrompe o trânsito. A patuléia está em volta de um carro branco da polícia, um Santana com letras bem grandes, verdes: 1o BP.

Na calçada de cá as pessoas comentam. Eram dois. Já vinham roubando bicicletas por aqui fazia algum tempo, a polícia vinha de olho neles. Um conseguiu fugir. Esse aí vai apanhar que só a porra. É pouco. A mulher que fala isso não olha para ninguém, olha para a confusão. Na voz a revolta por uma vida de não-conseguires, e a sensação de que a prisão do ladrão de bicicletas vai compensar o salário que não ganhou, a barriga que não a abandonou, as rugas que não saem do seu rosto, o homem que não lhe quer. A idéia de cada soco que caia sobre o rapaz talvez lhe alivie um pouco do fardo que lhe fizeram carregar.

O aleijado se mete na multidão, ansioso, fica embaixo do porta-malas. Ele agora participa de tudo aquilo; talvez ache que a miséria não é só dele.

Os policiais colocam o rapaz no porta-malas do Santana do 1o BP da PM. Não empurram, não batem, apenas não o tratam com gentileza desnecessária. Por cima dele colocam as duas bicicletas apreendidas, de alguma forma é com elas que o prendem ali; talvez não haja violência maior que essa. O dono da loja de roupas femininas, com seu tabuleiro na porta expondo calcinhas baratas, ri satisfeito: “Faz isso com ele não…” Nas pessoas em volta uma satisfação clara pela prisão de um ladrãozinho de merda, pela humilhação sofrida por ele. Talvez isso redima todas as outras que sofreram.

Um casal, com duas crianças no colo, sai da multidão. Ele traz no colo uma menina de talvez dois anos, mas pequena, podia mesmo passar por um. A mulher carrega um bebê de talvez um mês, fralda sobre o rosto o protegendo do sol.

Um homem gordo, barriga grande por fora da camisa, olhar vazio, me pede um cigarro. Eu dou, ele pede o isqueiro. Reparo em suas mãos, que seguram um pífano e um isqueiro. Calça sandálias de couro uns 4 ou 5 números maiores que dançam em seus pés. Atravessa a rua e volta para a confusão, quer ver mais um pouco, talvez consiga entender o que está acontecendo.

O carro da PM dá a partida e se move devagar, esperando que as pessoas finalmente saiam da frente. Assim que vê o caminho livre canta pneu avisando que são policiais, que essa saída intempestiva e poderosa é o que se espera deles. No banco de trás um sujeito, talvez dono de uma das bicicletas, faz um sinal de positivo para alguém do meu lado da rua. No porta-malas o ladrão de bicicletas. Sobre o ladrão, as bicicletas.

As pessoas começam a se afastar, em alguns rostos um sorriso impressionado. Voltam para as lojas de roupas baratas, para o ponto de ônibus, para o quilo de feijão que iam comprar. O dono da loja de roupas femininas pergunta: “De quem é esse dinheiro aqui no chão? As calcinhas eu sei que são minhas”, um riso despreocupado no rosto, e agora ele vai voltar a cuidar da sua vida.

Olho em volta e o aleijado sumiu.

2 thoughts on “Mercado Municipal Thales Ferraz

  1. Belíssima crônica!
    Reparar nas pessoas transferindo suas frustrações e aproveitando das desgraças de um pobre diabo para aliviar suas vidas, não é nada. Difícil é prestar atenção no aleijado.
    Ciao

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