Molto bella

4 da manhã do sábado e vou fazer o check out no hotel. Desço com minha filha dormindo no meu colo.

Na recepção dois italianos bêbados com um saco plástico com água e cerveja. Com eles estão duas mulheres: uns vinte e poucos anos. Uma, a que tem cabelos mal pintados de louro e uma tatuagem tribal imensa no cóccix, é cearense, pelo sotaque; a outra pode ser de qualquer lugar entre o Rio Grande do Norte e Sergipe. As mulheres preenchem o formulário de check in da Embratur.

Os italianos estão bêbados. Passam a mão pelos corpos das mulheres, as beijam com ardor, mostram aquela lascívia de quem passou a noite em busca de algo que finalmente vão conseguir. Seus movimentos tentam ser fluidos, a fluidez da embriaguez, e mostram a falta de força, de punch dos europeus. Amantes que se querem sensuais, mas que não vão satisfazer suas eleitas, pelo menos não aquelas.

As mulheres conversam esporadicamente entre si, ocupadas consigo próprias. Não olham para mim nem para a minha filha no meu colo.

“Ele me chamou de molto bella, molto bella“, diz a morena para a loura, com a entonação cínica de quem já ouviu aquilo muitas vezes, e há muito deixou de acreditar.

O italiano que fala mais alto encosta-se com força na bunda da loura, os mesmo movimentos fluidos e embriagados e fracos, passa a mão onde pode beija seu pescoço. Mal consegue esperar subirem para o quarto.

Quando o elevador fecha a porta, olho para o funcionário do hotel com o mesmo sorriso cínico da morena ao espalhar aos quatro cantos que tinha sido achada molto bella, molto bella.

“Freqüência boa, a daqui.”

O funcionário olha para mim, se desculpando com um meio sorriso envergonhado:

“A gente não pode negar o check in, pode ser processado por discriminação. É difícil acabar com a prostituição desse jeito.”

Eu não falo mais nada, mas começo a pensar em evitar o Ibis das próximas vezes que for a Fortaleza; talvez jogue fora meu cartão de fidelidade da Accor. E como minha filha estava dormindo posso me permitir rir dos italianos, que saem do lugar onde vi mais mulheres bonitas por metro quadrado para passar uma noite inteira atrás de duas prostitutas baratas em Fortaleza, e então voltar à sua terra vangloriando-se de suas aventuras sexuais na terra da luz e da luxúria.

19 thoughts on “Molto bella

  1. descobri que vc fica alguns dias sem publicar e eu tenho síndrome de abstinência…

    fiz um post sobre a sua midia do cidadão e outro tentando fechar um metodo pro clube de leituras…

    bem vindo de volta

  2. Pois é, vi cenas interessantes e curiosas de estrangeiros versus indústria-do-turismo aqui em Marte também. Estou pensando seriamente em escrever um livro sobre tudo que vi por aqui quando voltar à paulicéia.

  3. Um dia concluí que em determinado período a escravidão seria um sinal de evolução, quando a alternativa era sacrificar prisioneiros de guerra.

    Depois de assistir a um documentário sobre a prostituição infantil em Fortaleza, exibido pelo canal italiano Rai 2, cujos consumidores protagonistas eram, na maioria, italianos, creio que a cena descrita pode ser considerada como no caso do parágrafo anterior.

    Ciao.

  4. sobrou uma enorme curiosidade: que diabos de roupa a morena tinha que você pode ver com tanta plenitude a “enorme tatuagem do cóccix”???

  5. Impossível não notar em Fortaleza a quantidade de gringos enroscados em nativas. E mais: estive em um dos melhores hotéis da cidade no ano passado e fiquei impressionado com a beleza da equipe de massagistas do hotel. Ficou a dúvida: era apenas massagem ou rolava um “algo mais”?

  6. “‘Ele me chamou de molto bella, molto bella’, diz a morena para a loura, com a entonação cínica de quem já ouviu aquilo muitas vezes, e há muito deixou de acreditar.”
    Sei não. Eu, que sou put… arquiteta, ainda insisto em acreditar no que me dizem. É um belo de um alento. E mais: o tal Ibis-Accor, que para nós, os “classe média”, é hotel de boa índole, deve ser hotelzinho-de-quinta-dos-bons-para-comer-putas-baratas-e-contar-lorotas-na-volta-para-casa para esses europeus. Ou será que estou sendo muito alienada e/ou pessimista quanto ao Brasil? Sei não.

  7. Monica, hotel aqui é coisa muito cara e ninguém se hospeda em hotéis de muitas estrelas. Esse conforto todo que se encontra nos hotéis brasileiros so é possivel porque a matéria-prima e, principalmente, a mao-de-obra, sao baratos. Por isso com certeza nao foi porque eles consideram o tal Ibis um hotelzinho de quinta.

    Também com certeza nao é porque eles tem mulheres ma-ga-vi-lho-sas em casa e queriam tentar algo mais weirdo. E’ porque gente idiota existe, porque o italiano médio é MUITO idiota e acha que tem uma imagem a manter. O engraçado é que as ultimas pesquisas revelaram que o italiano é o macho menos sexualmente ativo da Europa inteira!!! Ces tem noçao do que é isso? Perder pra sueco e hungaro? A macharada aqui ficou pau da vida, mas eu so’ digo uma coisinha: cao que ladra nao morde. Alias, outra coisinha: pisello (quer dizer ervilha, aqui quer dizer bilau) de bebado nao levanta nao, ainda mais na presença de baranga… 😉

    Se bem que eu deveria ficar é quieta, ja’ que moro com um italiano 😉

  8. Bom poder ler um texto desses e perceber que não há nada de errado em notar esse tipo de comportamento no nordeste brasileiro. Aliás, a combinação italiano/nordestina é quase sempre como a cena descrita pelo Rafael.
    Eu pessoalmente já presenciei, em 2 hotéis 5 estrelas, um em Natal outro em Ilhéus (BA) esse comércio, e fiquei muito triste, envergonhada e com raiva da Itália, do Brasil, da raça humana.
    Ainda bem que existe gente decente nesse mundo 🙂

    Nem todo italiano faz isso, nem toda mulher nordestina faz aquilo.

    Ah, sou casada com italiano.

  9. Nem uma coisa nem outras. O italiano médio, o pobretão da favela, o empresário suíço, depois de terem ido a Baco, vêem o belo em qualquer canto. E quando retornarem, ã Itália, à favela, à Suiça, terão uma bela aventura para contar. A menos que vejam as meninas no dia seguinte, aí só o favela vai contar que comeu uma gostosa. No ano seguinte italianos e suíços voltam. Favela continua lá.

  10. fui a uma reuniao de negocios num tal ibis desse. sai de lá com a certeza de nao me hospedar num desses , a nao ser por absoluta necessidade… mais de 10 min parada esperando pra ser atendida, ou se eu quisesse q me acotovelasse disputando o lugar com um povo da herbalife… porque eu detesto a herba life ou porque eu odeio esperar ou porque odeio recepcionista q olha p mim com cara de “porra mais uma”… sei lá, por essas e por outras , vou tentar evitar a cadeia ibis. Mas percebi porque os italianos a escolheram… vc é realmente um anonimo ninguem ali..pleonasticamente nao existente!

  11. Olá. Ué, porque só as com “backgroundebunda” tem direito a mudar de vida e a Geralda da Vila Mimosa tem de comer rabada de bode sempre pra mostrar que é “do povo” e pra não desafiar a elite de bosta carioca, brasileira? O Brasil todo está falido, com exceção, talvez, do Roberto Marinho (mórrééu) e de meia dúzia de gato pingado que aparece no programa do Amaury Júnior. Esse papinho de que caça-gringo denigre a imagem da “classemérdia” me faz pensar na lei da OFERTA e da DEMANDA, sabe? Bisous e abraços.

  12. A Letícia tem razão quando diz que a mão de obra aqui é barateada.. Justamente resquício do “Senhor de engenho comendo por trás”. E justamente o quarto de empregada é pequeninho aqui por isso. E daí elas vão procurar um “quarto” melhor lá. Bisous e abraços. Gostei mucho daqui..apesar de não concordar as “pensées” da classe média .. Já conhecia por causa da Dani..

  13. Gi, parecer, aos olhos dos outros, uma coisa que voce nao é é sempre desagradavel. Pergunte pra qualquer brasileira que ja ouviu a inevitavel “ah, entao voce sabe sambar?” no exterior. Ou pergunte pro cara que tomou um tiro na cabeça em Napolis porque parecia com um famoso chefao da mafia. Ou pergunte pro albanes honesto que nao consegue arrumar emprego porque todo albanes tem fama de filho da puta. Ora, por favor. Ter a sua imagem denegrida por causa do que os outros fazem é um porre, sim senhora, e é hipocrisia dizer que nao.

  14. Oi, Leticia. Mas isso eu entendo perfeitamente; a gente fica p. da vida de ser considerado do mesmo saco, mas isso acontece e as pessoas julgam mesmo. Só não gosto de me sentir tão diferente, porque isso acaba em preconceito às vezes. Prefiro nem me afirmar antes se ninguém falou nada. Mas caso um famoso “estereotipador” de plantão vier me achincalhar, aí, claro, vou argumentar com essa pessoa. Mas essas cenas de travestis e outras coisitas mais são freqüentes no aeroporto e nos hotéis. Um reflexo triste da situação do Brasil e da situação que impera aí fora, de imigração, de desespero na maioria. A primeira vez que eu saí do Brasil, tava lá um bando na fila da Air-France e chegaram a falar ou perguntar qualquer coisa pra mim.. E tudo normalmente. E se tivessem sentado do meu lado, puxado papo, eu teria conversado numa boa, igualzinho no vagão de trem Paris-Florença quando conheci um moço-moça. No fim esssa imagem “brasilis” é muito arraigada. Pra resolver vamos ter de mudar muuuuita coisa, lá trás, sobretudo nas agências de turismo. Beijos procê. E pro Rafael, claro.

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