Um post de Natal

O Túlio perguntou se sou ateu.

A pergunta deve se dever à última alegria do post anterior. Crentes não costumam debochar d’Ele; é o limite que a maioria das pessoas encontram, é a última fronteira: brinquem e serão excomungados. O Paulo tirou uma conclusão que parece semelhante, mas que é bem diferente.

A resposta é não. Não sou ateu. Nem de longe, e nem que quisesse. Fé não se explica, e não se evita.

O fato de acreditar em Deus não me impede de achar também que, de certo modo, sua existência seja criação dos seres humanos. Deus também foi criado à minha imagem e semlhança. Assim como Ele existe independentemente do que eu acho ou deixo de achar, o fato de eu ter uma visão bem particular não afeta em nada a Sua existência. As coisas existem independentemente de como eu as veja — e é por isso que a única discussão em que não entro é aquela sobre a existência de Deus, a mais estéril que eu posso imaginar: no fim das contas, tudo se resume a acreditar que Ele existe ou não.

Tampouco sou religioso. Não sou sequer cristão, nesse sentido — já que não acredito em Jesus Cristo como o tal filho de Deus ou parte daquela coisa absurda e incompreensível que é a Santíssima Trindade. Na verdade, vejo Jesus como um fenômeno histórico brilhante. Acho o budismo, que virou moda, uma desculpa apropriada para o século XXI, candomblé — que deveria ser a religião oficial do Brasil — uma lindíssima manifestação animística, e por aí vai.

Talvez por não ser cristão eu não tema mesmo a Deus. A relação aqui é outra.

Mas o fato de não ser cristão não me impede de achar o espírito do Natal uma das coisas mais belas que o ser humano conseguiu inventar. O Natal é uma lembrança do que existe de melhor em nós. Nos lembra que acreditamos — e acreditar é talvez a coisa mais importante do mundo — que alguém foi capaz de dar sua vida por amor ao próximo. Poucas coisas, em toda a história, foram tão importantes quanto essa idéia. Seja obra de quem for — de Jesus, de Mateus, de Paulo, do Vaticano reunido em segredo de Estado — é uma espécie de testamento máximo de humanidade. Nada pode ser mais importante do que isso. Nem mais desejável.

Feliz Natal.

14 thoughts on “Um post de Natal

  1. Assim como Ele existe independentemente do que eu acho ou deixo de achar, o fato de eu ter uma visão bem particular não afeta em nada a Sua existência.

    E eu digo: assim como ele pode não existir independentemente do que eu acho ou deixo de achar, o fato de eu ter uma visão bem particular não afeta nem deixa de afetar a Sua nada certa existência. 😉

    Sobre o Natal: tudo é mesmo relativo, né? Natal para mim é época de obrigações, de sentir culpa por causa da pobreza e de querer dar cestas básicas para fingir que “no fundo não somos tão egoístas assim”. Época de shoppings lotados que não me permitem ir ao correio que existe no shopping perto da minha casa tranqüilamente. Época em que uns parentes me lembram de que devo telefonar para outros parentes com quem não tenho nada a ver. Época em que ir ao centro da cidade é um saco de tão cheias que as ruas ficam. E época de me lembrar de que um tal cristianismo que genialmente nos pegou pelo pé nos ensina que devemos sentir culpa pelos pobres (haja cesta básica!), que devemos dar aquele abraço naquela tia mala sem alça e que devemos oferecer (argh!) a outra face. E mais: é época em que fingimos que no Brasil está nevando quando o que temos por aqui é um calor INSUPORTÁVEL!

  2. Só sei que: se a humanidade se identificou com uma personagem suicida embora eu não me identifique com isso, é o caso de eu me achar fora do barco? Sei lá. Oferecer a própria vida para salvar um bando de imbecis? Como dizem, “cada um, cada um”. Tortura? Sou a favor do “Tortura nunca mais”. E pretendo fazer também a carteirinha do “Hedonismo sempre que possível”, se é que existe essa entidade. Se não existir, pouco me importa, pois não faço questão de ser militante por coisa nenhuma. Humanidade para mim significa bondade extrema, mas também maldade extrema. Ser humano é isso. É ser um monte de coisas, e ser ignorante sobre A COISA, se é que existe esse troço. E o que eu sei é que tô puta porque tô querendo ir ao shopping perto da minha casa e não consigo por causa da porra do Natal.

  3. Não sei o que é esse espírito de natal.Quando era criança, pra mim o natal tinha qe ser o dia mais feliz do ano.Passaram-se natais e nada era diferente, até um dia conclui que natal era um dia igual aos outros, o que mudava é que minha mãe fazia uma comida diferente e agente esperava até meia noite para dormir.Fim.Era isso.Meu pai ateu e minha mãe tentando passar um pouco de religiosidade pra mim, mas não adianta, até hoje não entendi.

  4. Caro Rafael,
    Tenho vindo diariamente aqui para imprimir e ler depois. Esse mês de dezembro está sendo um sufoco, mas não posso passar sem os teus textos.
    Obrigado pelo presente de escrever sempre!

    Feliz Natal!

  5. Rafael, minha pergunta não foi por causa do seu post e do que vc falou. É até bobo o motivo pelo qual perguntei isso: toda pessoa que eu considero culta (e são), que lê bastante, escreve bem e tudo o mais, na sua grande maioria, são ateus. Leio blogs de várias pessoas e vejo que as mais inteligentes não acreditam em Deus. Achei estranho e, como te acho uma pessoa inteligentíssimo, resolvi perguntar. É só curiosidade pra eu ver se acreditar em Deus fosse coisa de gente burra – não que isso iria mudar minha opinão sobre se eu acredito ou não Nele, acredito, mas não como a maioria das pessoas nem como as religiões falam, pois não tenho nenhuma religião. Entendeu, então, pq te perguntei isso?
    Olha, isso que vc falou do Natal foi super legal, nunca tinha pensado dessa maneira.
    Então é isso, abraço! E feliz Natal para vc!

  6. Tenho diversos amigos geniais que são ateus e até percebo este padrão que o Túlio também percebeu. Sou uma pessoa religiosa, mesmo que de uma maneira bem particular. A Umbanda é parte das mais importantes da minha vida, mas acho que todos podem não acreditar em Deus, ou acreditar em níveis diferentes, como tenho visto… Só sei que este seu post sobre o Natal foi dos mais interessantes que já li. Abraços.

  7. Feliz Natal pra você também. Se ele existe ou não, não sei. Mas nós existimos e nós merecemos ser felizes.
    Abração

  8. “Leio blogs de várias pessoas e vejo que as mais inteligentes não acreditam em Deus.”
    Nossa, isso dá pano pra manga. Só que estou com preguiça de escrever hoje,sabe como é, Natal é amanhã e coisa e tal.

    Gostei do texto.

  9. O espírito natalino nunca tomou conta de mim; pelo contrário, o sentimento que me dá geralmente é de tristeza, exatamente porque seria o testamento máximo de humanidade, caso tivesse acontecido. E como eu não acredito nisso,
    me parece que foi preciso inventar um sacrifício tão grande, como o do filho de deus, pra que pudéssemos nos sentir melhor.

    PS:não acho que o candoblé devia ser a religião oficial do Brasil,embora concorde que ela tem mais a ver conosco do que qualquer cristianismo;
    eu preferia que nosso povo fosse educado sem presença de divindades que oprimem em vez de libertar.

  10. “Leio blogs de várias pessoas e vejo que as mais inteligentes não acreditam em Deus.”

    Túlio, peço licença para guardar essa sua frase e usá-la num momento propício. Provavelmente na Semana Santa.

    Em tempo: Feliz Natal, Rafael!

  11. Sou catolico e gostei do texto que é bem legal, uma historia boa para reflexao e pensarmos um pouco no verdadeiro espirito do natal.

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