Quando os mortos são os outros

Nada, absolutamente nada justifica atentados como os de Madri. Não há discussão possível. Terroristas são assassinos e são a escória da humanidade.

Mas o que será que justifica as atitudes ambíguas que tomamos diante de atos tão parecidos, só porque aconteceram em locais diferentes e com pessoas diferentes?

A reação mundial ao atentado de Madri é compreensiva e justa, e merece ainda mais que a dimensão que vem tomando. Mas por que não reagimos da mesma maneira massivamente indignada em relação a todos os outros atentados perpetrados em todos esses anos, quando eles aconteceram no Oriente?

Como o atentado em Istambul, por exemplo.

Assim como na explosão do trem espanhol, ali morreu muita gente. Assim como a explosão do trem espanhol, foi um crime covarde cometido por inimigos do gênero humano. Mas além dos protestos de praxe, da indignação de praxe, não houve tantos clamores por justiça quando se tratou de turcos que explodiam pelos ares — e este blog se inclui nessa lista. Tentar explicar a reação mais tímida e menos chocada pelo menor número de mortos é hipocrisia e cinismo: uma pessoa que seja a morrer dessa forma vil e inútil é gente demais.

Provavelmente não choramos pelos mortos de Istambul porque aquele é o mundo de lá. E os mortos de lá não nos tocam tanto, porque nos são estranhos, e talvez no fundo nos sintamos aliviados por serem eles que estão se matando. Aquele povo esquisito é diferente, se veste diferente, fala diferente e parece que pensa diferente. Mas os mortos da Espanha são como nós, são filhos da mesma civilização. Os espanhóis somos nós. Os turcos, sauditas, os iemenitas não são. Eles são os outros. A dor deles não dói tanto em nós.

Triste, mesmo, é perceber que é mais ou menos esse o sentimento que move os assassinos da Al Qaeda, do ETA e de toda e qualquer organização terrorista. Os mortos são os outros. Mas a criança iraquiana que chora hoje após um atentado, por alguma razão que divisões entre os povos não conseguem apagar, chora no mesmo timbre da criança espanhola.

Talvez a nossa reação seja uma variedade do estupor que tomou conta dos americanos após o 11 de setembro: a sensação de que a certeza de que tínhamos de viver em um mundo à parte e mais civilizado foi abatida pelas bombas dos étrangers. Talvez tão importante quando a indignação humana seja o sentimento de que eles são outros, são diferentes, e que portanto estão acostumados à matança, e que não têm nenhum direito de trazê-las para nós.

De certa forma, os assassinos da Al Qaeda estão conseguindo o que queriam: provar ao mundo a mentira de que esta é uma guerra entre Ocidente e Oriente, entre modos de vida antagônicos e inconciliáveis. E que, enquanto os mortos forem os outros, tudo é admissível.

15 de março de 2004

***

Este post foi escrito há mais de um ano, um pouco depois do atentado terrorista em Madri. Ontem, com os atentados em Londres, a cena se repetiu.

Mas se repetiu também a mesma postura, a mesma idéia de que o que realmente importa são os mortos de cá, quando enumeraram as tragédias causadas pelo terrorismo — Nova York, Madri, Londres — e esqueceram, mais uma vez, os turcos, os iraquianos, os israelenses e os palestinos.

Não haverá chance de paz enquanto não se deixar de dividir os mortos entre os nossos e os deles.

17 thoughts on “Quando os mortos são os outros

  1. Não haverá paz enquanto existirem seres humanos. Descubiram a fórmula do terror. Acharam a caixa de Pandora que soltou o medo no coração de todos.

    O mundo hoje vive à mercê de barbudinhos esquisitos, que quando falam parecem cuspir; que quando brandam suas armas mostram seu caráter maníaco e assassino. Vivemos num mundo de extremos: o lado de lá odeia o lado de cá — e o lado de cá, que tanto atacou o lado de lá, agora tem medo e ataca ainda mais. O conflito de culturas gera o ódio, a discórdia cega e vil. Tomam-se lados, pessoas usam o nome de deus para invocar a fúria em inocentes que cometeram o pecado de estarem indo para o trabalho; de estarem sustentando suas famílias.

    Vemos hoje um combate que não terá fim. São os mortos de lá sendo empilhados junto com os mortos daqui. Nenhum lugar é seguro. Nenhum país é soberano. Nenhuma fronteira é inabalável. A globalização passou para o terror. Todos temem, todos sofrem.

    Os mortos de lá têm menos valor que os daqui porque lá se tornou comum perder parentes, filhos, netos, primos em ataques terroristas. De ambos os lados. A cultura do ódia está disseminada desde os anos 50. Novas gerações estão se desenvolvendo sem compaixão, sem civilidade. Homens, mulheres e crianças estão sendo treinados para viver para morrer. Viver para matar.

    Quando achávamos que viviamos numa época de paz, onde não havia mais nenhuma possibilidade de guerras mundiais, o terrorismo chegou para encher a lacuna que tanto faltava à nossa sociedade. Agora temos um inimigo. Temos contra quem lutar.

    O inimigo de lá é o inimigo daqui.

  2. Eu me fiz essa mesma pergunta hoje de manhã. Atentados a bomba são praticamente diários em Bagdá, e o mundo ocidental lê as notícias desses como se fosse mais um tedioso capítulo de uma guerra distante que se arrasta. Mesma coisa quando atentados aconteciam em Israel. Já quando a explosão atinge um país ocidental cristão, a comoção é imediata. Claro que há a diferença porque atentados não são rotina em Londres, foi um choque, mas as vidas devem ser valorizadas da mesma forma. A diferença que existe é o tratamento da mídia quanto a um atentado e aos outros; e o público se influencia por isso.

  3. Eu tomei um susto quando vi a edição do Jornal Nacional de hoje. Pois eu sequer sabia que tinha havido um atentado em Istambul com mais de 60 mortos. Muito menos um em Casablanca (cerca de 40 mortos, se não me engano). Mesmo do atentado em Bali (quase 100 mortos, a maioria turistas australianos) eu não me lembrava mais.

    O JN fez uma edição sóbria dos fatos, mostrando que o terror está mais vivo do que nunca. Evitou essa valorização excessiva dos “nossos” mortos.

    Quando os trens explodiram em Madri, eu senti “na carne”, dada a minha relação sentimental com a Espanha e os amigos que deixei lá. Hoje, uma prima querida que mora em Londres ligou pra gente antes mesmo da gente saber do fato, nos tranqüilizando.

    Às vezes fico com sensações ambivalentes. Não sei se sou contra a Guerra do Iraque porque me importo com os mortos inocentes de lá, ou se no fundo não ligo a mínima, e gostaria apenas que meus amigos europeus não tivessem que pagar pela idiotice de seus governos.

    Não tenho resposta para isso. Estou quase tão triste hoje quanto no 11 de março. O texto do link abaixo, a estar correto, coloca mais questões a lamentar. Pois a Al-Qaeda parece ter muito claro que a posição burra da aliança anglo-americana só faz atuar em seu benefício:

    “Por que Londres, por que agora?”
    http://www.planetaportoalegre.net/050707_1.htm

  4. São em dias assim, que eu fico achando que vai ser o meu último dia. A vida toda passa pela a minha cabeça.

    Eu penso em me despedir das pessoas, porque mesmo longe… a gente nunca sabe… a gente nunca sabe…

  5. São dias como esse que eu fico achando que é o meu ultimo e começo a entrar em desespero. Nem saio de casa. Fico achando que é o meu ultimo dia viva. A vida fica passando na cabeça. Me lembro momentos a todo instante.

    E eu fico me perguntando se eu deveria me despedir das pessoas e começo a reavaliar um monte de coisas.

    Eu sei, é longe. Mas… pode ser o meu ultimo dia.

  6. Eu queria saber o porquê de tanta comoção com os atentados em Londres. O que aconteceu lá em um dia é o que acontece diariamente, por exemplo, no Iraque. Relativamente ao Iraque, ninguém liga. Ninguém. Aliás, curiosamente, trata-se de país que foi destruído para que os norte-americanos possam saquear o subsolo e encher os tanques de seus carrões de 6 km/l, mas isso é outra história.
    Talvez sejamos reféns de um sentimento hipócrita-classe-média: muitos de nós já estivemos na Inglaterra, na Espanha, temos amigos por aqueles lados. Ao que parece, nenhum de nós irá passar férias de verão em um país árabe em guerra civil.
    Claro, quem lê e acredita na Veja talvez pense diferente. Talvez ache que os terroristas assim agem apenas para nos encher o saco, sem qualquer razão palpável.
    Muita gente vai achar meu discurso datado, et cétera e tal, mas tenho a convicção de que esse tipo de coisa acontece por culpa de Bushes e Blaires e afins. Claro, infelizmente a cobra morde o próprio rabo: os atentados servem de combustível para que essa odiosa extrema direita (sim, é o que esses dois “líderes” são) seja ainda mais linha-dura. Não seria a hora de desviarmos o olhar de Londres e olharmos para Guantánamo ou Bagdad?

  7. Calcula-se em mais de 100 mil mortos em decorrência direta ou indireta (falta de água potável, de vaga em hospitais, remédio, comida, etc) da Guerra (Guerra?) no Iraque, quase todos civis. Do total, apenas 1% eram estadunidenses, e militares, principalmente. Mas como a midia trata estas mortes? Qual comoção é retratada mais enfaticamente? E eu não acho que além de ser por causa da identificação com os de cá, há ainda o fato de que eles são “sinhôzinhos” e as agências de notícia são deles. As de cá só repetem sem pensar, feito papagaios. Basta ver aquela grande bobagem que a mídia brasileira não cansa de remepetir: a de que os ataques de 11 de setembro (de 2001, não de 1973) seriam os “maiores atentados terroristas da história”. Alguém me dê um motivo para eu não considerar Hiroshima e Nagasaki os maiores atentados terroristas da história e ganhe um dôce. Aqui foram mortos 19 trabalhadores sem terra em 1996. No período de 1992 e 1994 foram registrados 367 casos de morte por conflito agrário; entre 1995 e 1998 foram 667 mortes. Praticamente todas de trabalhadores sem terra. Cadê a comoção?

  8. Eita, Elton burro!
    No comentário anterior:
    “E eu não acho que além de ser por causa da identificação com os de cá…”
    leia-se
    “E eu acho que além de ser por causa da identificação com os de cá”

    Escreveu, não leu…

  9. fiz um post indignado sobre os atentados de Londres; pouco depois, pensei sobre isso. quase todos os dias, ouve-se falar sobre atentados no Iraque e em vários outros lugares do Oriente; mas todos parecem acostumados com isso, inclusive eu. Sim, devemos prestar mais atenção àquilo que fazemos com os outros.

  10. “Desde 11/9 defendo que a ‘guerra contra o terror’ é imoral e contraproducente. Sanciona a utilização do estado de terror – bombardeios, torturas, incontáveis mortes de civis no Afeganistão e no Iraque – contra islamo-anarquistas cujo numero é pequeno, mas cujo alcance é mortal. A solução, então, é política, não militar (…) A solução real está em acabar imediatamente com as ocupações de Iraque, Afeganistão e Palestina. Só porque estas três guerras são pouco reportadas e pouco significam para o cotidiano da maioria dos cidadãos europeus, isso não significa que o ódio e a amargura que despertam no mundo muçulmano e suas diásporas são insignificantes.”

    Essas são palavras de Tariq Ali, que reproduzi num post sobre o atentado de ontem. Parece-me que vão bem de encontro às suas colocações.
    Saudações.

  11. um amigo espanhol está aqui em americana, o ricardo.
    há mais de um ano ele disse que os próximos atentados seriam, evidentemente, em londres.
    hoje vi na tv TODO MUNDO falando que os atentados eram esperados.
    eram esperados mas nada fizeram para prevenir?
    porra, incrível o OTIMISMO desses líderes.
    é brincadeira!!!!

  12. Perfeito! É incrível como sabemos pela televisão os nomes e as histórias, necessariamente trágicas e dolorosas, dos mortos em atentados no ocidente. Quanto a história se repete em Gaza ou Damasco, nunca ficamos conhecendo as vítimas e suas famílias. Terrível herança colonialista que persiste na colônia.

  13. A Turquia tem muito mais a ver com o ocidente que com a Arábia Saudita, é um país secular, uma democracia, onde o consumo de álcool é legal, mulheres não precisam usar véu, podem dirigir e têm total independência. Colocá-la neste mesmo saco do “Oriente” parece uma análise um tanto quanto errônea.

  14. Bem posto, Rafael, mas é bem mais complicado. A verdade é que o mundo está, sim, dividido entre nós e eles, ou ocidente e oriente, ou Bem e Mal (dependendo do ponto de vista de alguém). Não há como não fazer distinção entre a política, a sociedade e a cultura ocidental e a islâmica. Até aí, tudo normal, num mundo ideal onde celebram-se as diferenças como riquezas. Neste momento, no entanto, as diferenças identificam o inimigo. A retórica de “nunca haverá paz enquanto os mortos forem os outros” é absolutamente válida. Mas também é real que eles são os outros. Ainda que gostássemos de ser “melhores”, reafirmando a ética cristã como mais tolerante e a sociedade ocidental como mais democrática, esta hipocrisia é perigosa. Não tenho nenhuma idéia do que acontecerá ao mundo nos próximos meses, mas tenho a certeza de que as diferenças ficarão cada vez mais claras. E, talvez, como você mesmo prevê, não haverá paz.

  15. Rafael, recomendo, sobre esse assunto, o livro do Edward Said, “Orientalismo”. Trata justamente dessa questão de vermos o Oriente como “os outros”. Mesmo quando essa visão não é negativa, como quando se coloca numa novela os árabes como sendo alegres, divertidos, amalucanos, sensuais etc., o autor mostra que isso é uma visão preconceituosa e que atende aos interesses colonialistas.

  16. Tahar Ben Jeulon esqueceu-se de mencionar que o preconceito e o racismo resistem até a morte (O Racismo Explicado à MInha Filha).
    Ciao

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