Um disclaimer e um aviso

Isto é um disclaimer.

Os comentários nos últimos tempos me fizeram pensar um bocadinho sobre o assunto.

Discordo da Horvallis, quando ela diz que blogs devem ser democráticos. Não acho que isso seja necessariamente válido em todos os momentos. Ou mesmo desejável.

Até onde entendo, democracia (se entendida como sinônimo de liberdade de expressão, como parece ser o caso) é alguém ter o direito de falar o que quiser. Isso não quer dizer onde quiser. Se alguém quer me xingar, vá em frente — mas não aqui. Isto não é uma concessão pública. Isto não é sala de espera de posto psiquiátrico conveniado com algum plano de saúde. Eu não pago hospedagem para oferecer um palco aos que, ao contrário da minha santa mãezinha, não me consideram uma bela criação divina. Não seria sequer justo. De vez em quando vejo comentários internet afora reivindicando o direito de falar, no blog dos outros, o que quiser. É um conceito esquisito de democracia.

Aqui aparece de tudo: malucos revoltados com elogios que eventualmente me fazem e cobranças de compromisso social, constatações acerca de minha vagabundagem incorrigível e do fato de a esta altura da vida eu não ter uma profissão. Sem contar os que simplesmente xingam, muitas vezes em português precário. Eu sempre me reservei o direito de permitir apenas os comentários que acho que devem ficar. O critério é absolutamente discricionário: o meu. Não consigo conceber outro lugar onde isso seja tão possível e legítimo quanto aqui. (O Alex já fez um post sobre isso.)

Já do comentário do André Pessoa discordo em um aspecto: pelo que entendi, tenho a obrigação de dar um sentido a um post. Não, não. Eu não tenho nenhuma. Se quiser escrever dez posts seguidos enumerando todos os palavrões que eu conheço, eu escrevo. Se quiser fazer piada de alguém que julgo sem-noção, ou de quem publica aqui algo de que discordo mesmo que esteja na cara que este blog não é de direita nem religioso, eu faço. É isso que me parece que as pessoas às vezes não entendem. Este blog não se propõe a nada com seriedade; sou apenas eu me divertindo. É por isso que ele se chama “Rafael Galvão”. Eu me divirto dando minha opinião, se e quando quero — ainda que ela possa ser deselegante às vezes. Paciência. Do jeito como vejo as coisas, o direito que eu tenho de escrever algo é exatamente igual ao de alguém não ler. Além disso, eu escrevo para mim mesmo, e pago por esse privilégio; ao escrever para os outros eu costumo cobrar.

A única coisa que admito é que, a partir do momento em que abro espaço para comentários, as pessoas têm todo o direito de discordar, embora eu confesse que no meu mundo ideal todo mundo ia concordar comigo — até o sacana do Bia. Mas existe um tom aceitável para isso; são, aliás, regras que já deixei claras há algum tempo. A partir do momento em que acho um comentário desaforado ou engraçado demais — e isso normalmente só ocorre com incautos que caem por aqui de pára-quedas via Google, e que não fazem parte do “corpo de leitores regulares” do blog — eu me reservo todo o direito de debochar do jeito que quiser.

(Eu sinceramente não consigo entender as pessoas que lêem um blog de que não gostam e que deixam comentários ofensivos ou agressivos; são uns bobos com muito tempo na mão e nenhuma capacidade de aproveitá-lo melhor.)

Algo parecido ocorreu quando os Astrólogos de Maria invadiram este blog, pedindo um debate no qual eu jamais entraria por saber que não levaria a nada, em momento algum, porque com fanáticos de direita — e de esquerda, também — qualquer discussão é estéril. A última coisa que este blogueiro pretende é discutir religião, mesmo com pessoas ponderadas. Além disso, embora custe aos zelotes da direita católica compreender, eu simplesmente não os levo a sério. É por isso que morro de inveja do Smart, que tem saco e talento para desmontar com classe, elegância e rigor as bobagens que eles falam — e não recebe comentários desaforados em troca. (Eu não devia escrever isso. Os astrólogos estão processando até a Nasa. E quando Deus está do lado deles, eles só podem ganhar.)

Finalmente, tem a idéia de que sou formador de opinião. Isso me envaidece muito, mas é totalmente despropositado. Este blog tem uma média de 1500 visitas por dia, incluindo as que vêm via Google e que, em sua quase absoluta maioria, nunca voltam — provavelmente porque vieram parar aqui atrás de receitas milagrosas para aumentar o pinto. Não bastam para formar opinião nenhuma (se bastassem eu iria aproveitar: “entrem para a Igreja Rafaélica de Todos os Tostões e me paguem o dízimo”). E ainda que formassem, liberdade de expressão é isso, né? Taí o Bolsonaro que não me deixa mentir.

***

Isto é um aviso.

No próximo dia 16 este blog completa dois anos.

Para marcar o aniversário, a partir de amanhã vou republicar aqueles que acho serem os melhores posts do seu primeiro ano. É uma forma de passar a limpo aqueles tempos, quando o blog era visitado por umas 15 pessoas por dia. E uma forma de aproveitar as férias de inverno.

23 thoughts on “Um disclaimer e um aviso

  1. Eu acho o seguinte: entro aqui porque gosto de ler o que você escreve, e não o que pessoas gostam de comentar. Comentários são interessantíssimos quando servem o propósito inicial deles que é a dicussão. A partir do momento que pessoas entram aqui e gastam seu precioso (sim, é precioso) tempo para reclamar sem razão e xinger sem a menor noção realmente acho que você tem o total direito de apagar os posts que não lhe agradam.

    Não vejo blogs como um espaço onde todos podem escrever o que querem. Por isso blogs tem dono. O que o dono do blog quiser entra; consequentemente, o que ele não quiser não entra. Acho até que isso deveria ser simples para todos entenderem. Insultos e comentários sem fundamento, que servem apenas para deixar desagradável a discussão, merecem ser tirados do ar.

    Além do mais, não vejo aqui comentários somente enaltecendo sua capacidade gramatical ou suas idéias. Vejo muitas críticas, muitas discórdias entre pessoas que aqui entram para comentar. Acho isso muito bom. Se a proposta do blog é ser um espaço de discussão das idéias do autor, então esse aqui serve bem o seu propósito. Vê-se claramente que quando as pessoas se mantém no tópico, concordando ou discordando com você, é muito divertido e esclarecedor ler os comentários.

    Blogs não são democráticos. Nem acho que deveríam ser. Pra isso existem os fórums de discussão.

  2. Um dia, quem sabe, eu ainda escrevo como vc.
    Espero que comentário puxa saco, como esse meu, vc aceite. 🙂

  3. Concordo: quer o direito de escrever qualquer coisa? Vai no mídia independente! Eu gosto de deixar uns comentários, mas também sigo alguns princípios básicos: fico caldao quando não gosto do texto, quando acho desprezível, quando acho vazio, quando acho que não tenho absolutamente nada pra acresecentar e quando, simplesmente, quero fixar calado. Agora, ir pra blogs que não gosto e ficar esbravejando, não! É falta do que fazer (coisa que, aliás, acontece muito comigo), mas é, principalmente, falta de senso do ridículo.

  4. Em primeiro lugar, parabéns pelo aniversário do blog. Como não tenho tempo de ler o blog todo, estou com água na boca para me deliciar com os posts antigos, em versão reloaded.

    Quanto ao meu outro comentário, queria dizer que o motivo dele é que eu acho sim que você é um formador de opinião. E isso, no meu vocabulário, é um grande elogio.

    Abraços,
    André

  5. A minha opinião, sem falar em democracia, é que quem abre uma caixa de comentários aceita de fato a oposição e o debate, e qualquer acontecimento. Sobre isso concordamos. Mas o que quer dizer “cair de pára-quedas” ? Não existem 50 maneiras de cair num blog, há somente uma : a caixa de comentários.
    Sem falar em democracia, há maneira mais inteligentes e respeituosas de tratar os seres humanos. Vi pessoas executadas, neste blog e em alguns outros, somente por haver falado a sua opinião, sem violência nenhuma e sem desrespeito. Foi isso que critiquei. Os loucos e os perversos, é outro problema, mas acho que é melhor apaguar as mensagens do que descer publicamente ao mesmo nível do que eles (não é uma questão de democracia, mas de bom senso). Eu falei em “democracia” por ser o valor oposto ao arbitrário e às execuções que vi em alguns blogs. Falei mais a esse respeito no meu blog :
    http://horvallis.blogspot.com/2005/06/fenomenologia-do-blog-5-das-execues.html
    Acho que ser dono de um blog não dá todos os direitos.

  6. concordo inteiramente contigo. Xingar um blogueiro no seu próprio box de comentários é, no mínimo, falta de educação. Já passei por isso; num dos meus antigos blogs, me disseram algo do tipo: “seu blog é um lixo”. Ok, talvez seja; mas é meu e eu gosto do que está escrito lá; e não vou parar de produzir “lixo” só porque alguém disse isso. Cada um tem o lixo que merece.

  7. Concordo 100% contigo, Rafa. E a aplicação da “democracia” nesse contexto, por quem critica, está distorcida. O que é democrático é o meio Internet e a ‘ferramenta’ blog, exatamente porque todo mundo pode ter um, em iguais condições, e usá-lo como bem entender. Mas, individualmente, o blog não é nem deve ser um ambiente público, mas privado de acesso público – é diferente -, especialmente quando construído individualmente. O autor tem total direito de fazer (e desfazer) o que quiser no seu blog e quem não achar isso bom, cale-se, vá embora, ou use a democrática Internet para criar o seu próprio blog e falar mal à vontade, usando a liberdade que lhe é garantida.

    (olha… ficou tri sério isso… hahah ;D)

    Abraço chê!

  8. Rafael,

    antes de mais os parabéns adiantados pelos dois anos de vida do blogue. É leitura quotidiana e tem direito a linque na minha modesta morada.

    Quanto ao tema em epígrafe. Esquecemos com frequência que a blogosfera, tal como a web são o reflexo da esfera do real.

    O virtual potencia a comunicação é certo mas a escória, as jóias mais brilhantes, os sentimentos mais nobres e as motivações mais soezes habitam o mesmo espaço…

    Abraços e keep up the good work,

    Jorge

  9. Eu acho que se pode exercer perfeitamente a liberdade de expressão de forma educada e diplomática. Eu gosto quando alguém na minha caixa deixa um comentário discordando, de forma inteligente e polida, com assinatura válida, sem avacalhar o blog ou a blogueira. Pelo menos é assim que eu tento agir na casa dos outros. Mas se a pessoa quer chegar no teu blog arrebentando, xingando, então tem que aturar as conseqüências.

  10. …”incautos que caem por aqui de pára-quedas via Google!!!”… é isso q eu sou???
    poxa! mas vc tem toda razão pagar pra ser xingado. Ninguém merece.
    Obs: a do capuccino…

  11. Este, junto com o Polzonoff, foram os primeiros blogs que acompanhei com regularidade. Posso dizer que já discordei de muitas das suas opiniões, mas como elas são expressas de modo tão bom, na maior parte das vezes acabei desistindo de expor meu ponto de vista. Parabéns pelos dois anos de blog.

  12. parece que meu comentario nao foi aceito. ou deu pane. de qualquer forma, excelente comentario.

  13. Eu discordo do modo mais olímpico e fluvial. Voce não pode dizer que não é formador de opinião. Voce é o maior formador de opinião que eu conheço, tanto é que tudo o que voce escreve eu acho legal e concordo.

  14. achei o que eu queria mostrar para voce. está aqui:

    http://commonsblog.org/about_commons.php

    note o trecho: “Comments made on the site will be emailed to the site editor, Iain Murray, and may be subject to editing or deletion. Please remember you are a guest on private property. We shall defend the environmental quality of this blog as staunchly as we would defend any stream, forest or animal we own.”

    Sem falar que o povo do observatorio da imprensa tem um artigo em que se afirma que a responsabilidade pelos comentarios em um blog é do dono do blog (algo absurdo, quando se pensa a primeira vez, mas nem tanto, quando se le o que voce acaba de escrever).

    abracos

  15. Cheguei a cogitar a idéia de simplesmente abolir o espaço de comentários e seguir exemplos como os blogs do Nemo Nox e Sergio Faria, mas resolvi dar um tempo antes de fazer isso. A aprovação prévia dos comentários que recebo em meu blog, que acabei de adotar, foi o último passo que dei antes da abolição definitiva dos mesmos.

  16. Sinceramente nao sei porque vc perde tempo em explicar derminadas coisas, parece até que tá dando safistacao pra alguém, aliás, coisa que te conhecendo bem, você nao faz mesmo.
    Eu hein Rafa, to te estranhando…

  17. Bom, muito bom. Não poderia escrever melhor. Quando transformar esse disclaimer (imagino que seja aviso, em português) em abaixo-assinado, me avise, por favor, para que eu aponha o jamegão.
    (meu paraquedas foi o idelber, espero que isso não me candidate à tecla de “delete”). (-;

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