A defesa extemporânea dos ascensoristas

Não dá outra: basta você arranhar um liberal para, debaixo da casca grossa do discurso da livre iniciativa, encontrar um bom e velho reacionário.

O André Kenji achou um artigo do Paulo C. Barreto no Instituto Millenium, em que o sujeito desce a lenha na iniciativa abortada do Sebrae de oferecer a pequenas empresas um software livre de gestão. O Kenji faz boas críticas ao texto do sujeito.

O absurdo do argumento do Paulo Barreto é, para começar, quantitativo: para garantir o trabalho de “dezenas de desenvolvedores e revendores de softwares que vivem desse segmento”, pretende-se abortar potenciais ganhos de produtividade de 800 mil empresas, pelas suas próprias estimativas. Esse mesmo pessoal que reclama do governo por atravancar o desenvolvimento econômico do país ao cobrar impostos altos reclama também quando ele oferece uma ferramenta para o aumento de produtividade. E não tem vergonha de propor obstáculos ao progresso do país em função da defesa dos interesses de “algumas dezenas”, em nome de algum princípio que não se sabe mais qual é.

Seu darwinismo econômico, que normalmente serve para justificar a manutenção dos lucros já existentes, tem limites muito claros. O governo tem que proteger modelos tecnológicos ultrapassados, se isso significa a manutenção do status quo. Deve prejudicar a maioria — 800 mil pequenas empresas representam quantos empregos, e podem gerar mais quantos? — por causa de uma minoria que se mantém aferrada ao passado. Por acaso, é a mesma atitude corporativista que acusam em sindicatos e quetais.

É por essa razão que o Paulo se arrisca em argumentos bobos como este:

Quem vai se arriscar a fazer um programa melhor se o Sourceforge.net – central de distribuição de lançamentos em software livre – fornece outro que faz o mesmo, e sem a chateação das telas “se gostar, pague ao autor”?

A resposta, que pode ser dada por qualquer autista de cinco anos de idade, é lógica: se o outro faz a mesma coisa, então ele não é melhor.

O fato é que não há argumentos suficientes para justificar sua posição. O acesso de 800 mil empresas a boa tecnologia significaria mais produtividade, mais lucros e mais empregos. Ponto. Se nesse processo alguns setores atrasados se perdem, o que se pode fazer? Quando são só trabalhadores em situação parecida, geralmente são estatísticas por cima das quais passar. Eu pensava que era essa essa a dinâmica do capitalismo e que esse era o seu melhor argumento. Por isso o espanto em ver os pensadores do liberalismo econômico defendendo uma posição tão contrária ao que diziam ser seus princípios.

Mas o problema é mais grave. Para tentar justificar essa posição injustificável, o Paulo Barreto ataca a própria idéia de software livre.

Dizer que o Linux só é o que é graças ao apoio de gigantes como a IBM e a Sun é, no mínimo, desconhecimento. Seria mais sensato — e mais de acordo com as leis de mercado — dizer que a IBM e a Sun aderiram ao Linux por ele ser o que é. Desde meados dos anos 90 o Linux é uma das principais apostas da comunidade de desenvolvedores. Representa a ponta mais visível de um movimento grande e que se espalha cada vez mais.

Mais que insistir em não ver o bonde passar, o Paulo parece desconhecer as dimensões do que pode se tornar o movimento open source. Para algo que se pretende think tank como o Instituto Millenium, como disse o Kenji, essa ignorância é uma falha grave. Eu recomendaria que lesse este artigo da Wired para entender melhor as coisas.

Além disso, para defender o ponto de vista dos gigantes o Paulo Barreto chama o auxílio de desenvolvedores de freeware e shareware. O problema é que, em primeiro lugar, o shareware não diz respeito ao modo de produção, mas sim ao modo de distribuição; segundo porque no caso do freeware, já que do ponto de vista puramente financeiro não há diferença, o problema é obrigatoriamente de qualidade, mesmo.

O que o Paulo Barreto está fazendo é simples. Está se comportando como ascensoristas, do tempo em que elevadores tinham portas de safona e eram movidos por alavancas por “profissionais altamente especializados”, embasbacados e revoltados diante do surgimento de elevadores automáticos.

Mas talvez nenhum desses argumentos seja necessário se você rolar a página até o final. É quando tudo o que foi dito ali cai no ridículo graças a uma única frase: “Instituto Millenium é gerado pelo WordPress“. Que, para quem não sabe, é um belo exemplo de software livre.

***

Mas o Kenji está equivocado quando diz que a escolha do software livre deve ser econômica, e não política.

Na verdade, a escolha deve ser feita menos por motivos econômicos econômicos que políticos. Claro que a economia representada pelos custos menores é importante. Muito. Mas o que é fundamental, mesmo, é que o software livre — que pode ser livremente alterado e reconstruído — é a ferramenta necessária para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico.

O Brasil nunca desenvolveu nada que prestasse no ambiente operacional da Microsoft, porque não era possível. Mas adquiriu uma posição de destaque no mundo do software livre com uma boa distribuição do Linux, o Conectiva (hoje Mandriva porque a empresa foi comprada pela Mandrake, um caso de globalização que deveria orgulhar o pessoal do Instituto Millenium e mostrar que mesmo em software gratuito há espaço para lucro).

Enquanto isso, do ponto de vista educacional e tecnológico as possibilidades oferecidas por programas como o Linux são inúmeras. São a garantia de que o país pode avançar tecnologicamente, pode criar massa crítica de cientistas e não apenas se conformar com o papel de mero apertador de patins. Significa, resumidamente, a possibilidade de desenvolver tecnologia e know-how. E conhecimento é uma das coisas que diferenciam países desenvolvidos da ralé analfabeta.

A discussão sobre a adoção estatal do Linux não começou no governo Lula: vem do governo de Fernando Henrique Cardoso e era umas das questões envolvidas na discussão do FUST. A diferença é que na época o ministro da Educação, Paulo Renato — que fez carreira como advogado da Microsoft — indicava uma opção preferencial pelo Windows. A decisão do governo Lula e de gente como Sérgio Amadeu e, indiretamente, Gilberto Gil de abraçar o software livre foi fundamental para que o país fizesse uma das mais acertadas opções de desenvolvimento de sua história, o que, com todos os problemas que o governo Lula enfrenta, indica uma concepção de país soberano. A isso, em outros tempos, costumavam chamar de projeto nacional.

8 thoughts on “A defesa extemporânea dos ascensoristas

  1. Eu não entendo como ainda há pessoas e empresas bem informadas que não perceberam que não há como salvar o ascensorista. O mercado de software muda muito rápido. Não vale mais a pena contratar 30 programadores para passarem 1 ano desenvolvendo em segredo. Quando terminarem já tem coisa melhor no mercado e o que fizeram não valerá nada. É essa a opção que os adversários do software livre querem? O mundo mudou. Ninguém percebeu? Lutar contra o software livre é uma estratégia burra.

  2. Eu já tinha lido esse texto. Acho que foi até pelo link do André, mas não lembro.

    Não dou muita credibilidade às convicções ideológicas desses liberais. Ou advogam um tipo de enxugamento do Estado completamente inviável, ou são simplesmente porta-vozes enrustidos das grandes corporações.

    Sobre essa questão do software livre, existem outras questões nas quais você não tocou, como o argumento da Microsoft de que o custo de manutenção de um programa proprietário é menor que de software livre, pois seria mais fácil e barato o suporte, o treinamento, etc.

    Não tenho muito conhecimento sobre isso, e sinceramente nem tanto interesse assim pelo assunto. Mas acho que se trata sim de uma questão política.

    Eu vejo as empresas de software livre (que lucram muito pouco, o que você poderia ter citado no seu texto) mais ou menos como ONGs, que não colhem diretamente os frutos de seu trabalho, mas ajudam a melhorar o “ecossistema” do mercado de software.

  3. É por essas e outras que, na minha lista de favoritos, você tá lá em primeiro…! Temos que defender com unhas, dentes e o que mais houver, as poucas iniciativas marcadamente soberanas dos nossos governos, sejam eles quais forem!

  4. Peraí um pouquinho:

    O PC Barreto é um maluco, e eu já dei um pau em um texto dele sobre TV Digital. E ele está claramente pisando na bola de novo.

    Mas não estou convicto do caráter “soberano” do software livre, não.

  5. Não entendi que o Paulo C. Barreto esteja “defendendo os interesses dos grandes”. Ao contrário, o que ele procura mostrar é que os pequenos desenvolvedores – como os brasileiros (vou repetir: os pequenos desenvolvedores, como os brasileiros) – é que sairiam perdendo com o software livre. Falar em “soberania”, em “projeto nacional” e em outras palavrinhas de ordem nesse contexto, pode ser um bom truque estilístico para a galera, mas francamente me parece uma ingenuidade muito grande. Mas o mais curioso do seu post, Rafael, fica aqui: você realmente acredita que 800 mil microempresários não têm maior produtividade e empregam mais gente porque não podem pagar uma licença de software? Jura? Você realmente acredita que o Sebrae, reduto do “financiador” das despesas do Lula, estaria contra esses 800 mil microempresários para proteger umas dezenas de outros pobres coitados? É mesmo, Rafael?

  6. É mentira dizer que os pequenos desenvolvedores brasileiros foram os primeiros a sofrer com a onda do software livre. Para muitas funções, como converter determinados arquivos ou ouvir música, anda se mostrou existir um mercado bastante forte para desenvolvedores.

    Mesmo que fosse verdade, isso não deveria ser problema de ninguém. Isso estaria ocorrendo pela existência de melhores opções. PC Barreto aí está utilizando argumentos que não são nada liberais.

    A Microsoft foi a grande perdedora na questão sim. Antigamente, por exemplo, qualquer caixa de supermercado informatizado teria que ter Windows. Hoje, o *padrão* é Linux. Não vai tardar para que as empresas passem a exigir Linux para seus empregados.

    Mas eu nego o aspecto político do software livre. Ele tem ganho espaço por ser mais barato e eficiente.

  7. Engraçado. Ao ler o post, pensei que tinha saído alguma vírgula errada no meu artigo para o Instituto Millenium que invertesse todo o sentido do texto.

    Você diz que não tenho “vergonha de propor obstáculos ao progresso do país em função da defesa dos interesses de ‘algumas dezenas’, em nome de algum princípio que não se sabe mais qual é.”

    Eis o que eu escrevi: “O BB e o Sebrae pretendiam jogar para a maior arquibancada — a das incontáveis pequenas empresas que pulariam de alegria se tivessem como usar (legalmente) um bom programa de gestão a zero real. Mais tarde, porém, se renderam ao grupo mais ‘mobilizado’, que soube gritar mais alto.”

    Ou você induziu os leitores ao erro descaradamente, ou sua capacidade de interpretação de texto não chega ao nível de um vestibular.

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