Meus verdes anos II
Zilma, professora de português, entra na sala.
– Rafael, trouxe o livro?
– Não.
– Saia.
– Professora, eu não fiz nada!
– Mas vai fazer. Saia.
Santos, professor de inglês, cuja tese de que “tchê” era uma palavra e oxente não gerou algumas discussões:
– Vocês sabem quantas vezes as bombas atômicas que os Estados Unidos e a União Soviética têm podem destruir o mundo?
Eu levanto a mão.
– Uma, professor.
– Nada disso! São mais de 500!
– Uma, professor.
– São mais de 500!
– Só tem um mundo, professor.
Rosa Virgínia, de geografia:
–… Nostradamus preveu que o mundo…
– Nostradamus não preveu nada, professora.
– Como não? Eu tenho o livro!
– Dizem que ele previu algumas coisas. Mas não preveu nada.
Zilma me pega dando cola a Fabiano numa prova e me tira um ponto.
A redação daquele dia foi mais ou menos assim:
“Algumas pessoas xingam suas professoras. Xingam de vagabunda, de piranha, até de coisas ainda mais feias como prostituta. Isso não se deve fazer. Isso é feio.”
Dênisson quebra o pau com Santos e vai para a coordenação de disciplina, que julga o caso grave o suficiente para ir ao padre. Enquanto ele espera, me sento ao seu lado para fazer companhia.
Inara volta e leva os alunos que estão ali para a sala do padre Carvalho. E diz para eu ir também. Não adiantam os meus protestos de inocência. Eu também vou para o padre, revoltado com tamanha injustiça, reiterando meus protestos de inocência, enquanto alguém — Paulo? Dênisson? — enfia a mão no aquário e tenta matar os peixes do padre. Foi a única vez que o padre Carvalho não passou a mão na minha cabeça. Não gostou muito dos meus protestos.
O Arquidiocesano tinha acabado de inventar a punição retroativa. E talvez a preventiva.
Originalmente publicado em 21 de outubro de 2004
This entry was posted on Saturday, September 2nd, 2006 at 12:00 am and is filed under Rafael - ou quase. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can skip to the end and leave a response. Pinging is currently not allowed.
September 2nd, 2006 at 2:14 pm
Cínico, mordaz e subversivo. Algumas coisas não mudam. Mas, Freud tb foi um péssimo aluno.
gd ab e ot findi
September 2nd, 2006 at 6:20 pm
Pequenas histórias maravilhosas, sendo a melhor da bomba. Beijocas
September 2nd, 2006 at 8:45 pm
Reler esses posts é muito divertido, Mais divertido ainda é descobrir que os meus posts preferidos também são os seus.
September 3rd, 2006 at 4:38 pm
Sarcástico e mordaz desde pequeno, hein!
September 6th, 2006 at 4:44 pm
ahahaha. ótimo