Sonhos eróticos de um publicitário

Era o comercial que eu sempre quis fazer.

Comercial de sabão em pó. Certo, há produtos mais glamurosos, mas não é de glamour que se fala aqui. Não se trata do tipo do sensacionalismo do Oliviero Toscani, aquele mondo cane chic que só engana os bobos e os bestas. Um anúncio do Toscani é como um filme de hollywood que denuncia o seu própro star system, sua própria canalhice, mas utilizando-se das mesmas técnicas.

O que eu queria fazer era um comercial revolucionário de verdade. Um comercial de sabão em pó. Criar a grande obra de arte da publicidade moderna, coisa de deixar Ogilvy e Bernbach se remoendo em seus caixões. Uma obra para mudar os conceitos da propaganda, essa vagabunda que vive bajulando uma humanidade burra e, em troca, recebe as mais torpes acusações.

Comerciais de sabão em pó são aqueles em que o menino mal educado entra em casa com os pés sujos de lama, aquele pequeno porco que não recebeu educação. E a mãe olha para ele com um sorriso no rosto e uma expressão de “fazer o quê se eu não dei educação a esse nojentinho?”, o sorriso que bois dariam se conseguissem fazer outra coisa que não babar. E ela pega a roupa imunda do filho porco e bota na máquina, ainda o sorriso bovino no rosto, e mostra a embalagem para a câmera. E depois da assinatura volta à cena a família unida, feliz da vida, sorrindo num grande abraço, o menino quase brilhando de tão limpo, e tão bonito, e os cabelos sedosos como num outro comercial, esse de xampu.

Não, não. É outro o comercial que eu queria fazer:

Sabão Momo
Institucional
Filme
30″
Porquinho

Menino de cerca de 10 anos entra em casa imundo, pingando lama como João Ratão pingou feijão.

A mãe olha para o garoto e fica transtornada. Segura o menino pelo braço e começa a dar-lhe tapas fortíssimos, e arranca a roupa com alguns safanões.

ATOR: Pára, mãe! Faz isso não, mãe!

ATRIZ: Seu moleque mal educado! Você só se suja assim porque não é você quem lava esta merda! Sabe quanto custou essa camisa, seu bostinha?

ATOR: Ai, mãe! Pára, mãe!

ATRIZ: Estudar que é bom você não quer, né, seu vagabundo? E não é você quem limpa a casa!

E ela vai para a área de serviço, jogando com raiva a roupa no tanque. Close em sua mão pegando o Sabão Momo. Começa a enxagüar a camisa.

ATRIZ: Esse moleque puxou ao desgraçado do pai, ave Maria!

Corta para packshot do produto.

OFF e LET.: Sabão Momo. Limpa até as porcarias do seu filho imundo.

Volta o menino, encolhido sobre sua cama, chorando. A mãe grita em off:

ATRIZ (em OFF): Se você fizer isso mais uma vez, seu relaxado, eu lhe mato de porrada!

Close no olhar assustado do menino.

Republicado em 11 de setembro de 2010

16 thoughts on “Sonhos eróticos de um publicitário

  1. Depois o canalha é o Toscani…nunca vou deixar você chegar nem perto do meu filho. Se visse ele voltanbdo da escola, encheria a cara dele de porrada de dó de mim, quem lava a roupa dele.

  2. Gênio!
    Como um Kelsen da Publicidade, vc acaba de inventar sua Teoria Pura (da Publicidade).
    Eu tbm faria um comercial nesse estilo aí, sem essa técnica toda, pq eu não entendendo disso.
    Houve um tempo atras, (e eu já disse isso tudo aqui antes) em que o mote da coca-cola (em constante “evolução”), era “coca-cola é isso aí”.
    Na minha propaganda (comercial) ideal, que claro seria de coca-cola, tal mote viria após uma tremenda duma talagada num copo gigante e extra-gelado do refrigerante, seguido de um ESTRONDOSO ARROTO: “coca-cola é isso aí”.
    Não é genial??
    rs
    abrassss

  3. Tu é muito chato, Rafael.

    Existem filmes maravilhosos detonando o star system hollywoodiano. Ninguém diz que o Billy Wilder é um farsante por ter feito Crepúsculo dos Deuses.

    Fora isso, gostei do comercial.

  4. É, faltam comerciais mais reais e menos plásticos. Provavelmente o sabão Momo não venderia tanto quanto o concorrente representado pela família feliz, mas seria um soco muito bem dado nos estômagos dessa gente passiva que já se habituou a esse tipo de propaganda inverossímil.

  5. engasguei com a coca cola de novo.
    imaginar o olhar assustado do menino made me al warm inside.

    mas como estratégia de venda não funciona. se o pentelho porco traumatizar e passar a cuidar das roupas, gasta-se menos sabão, e etc.

  6. Uma coisa que eu sempre quis ver é um comercial de remédio contra gripe que mostre o moleque no dia seguinte assistindo aula, em vez de estar andando de bicicleta.

  7. Com uma mãe dessas, mesmo que o filho pare de sujar a roupa com barro, vai sujar com sangue. Que, diga-se de passagem, é muito mais difícil de tirar. Aí, sim, o sabão ia estourar as vendas. =)

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