A última queda de Hitler

The Unknown Soldier é um novo documentário sobre o papel da Wehrmacht na condução do Holocausto durante a II Guerra Mundial. Dirigido por Michael Verhoeven e lançado lá fora com alguma repercussão, dificilmente vai chegar ao Brasil. Certamente não vai ter a longa vida nas redes P2P que “Tropa de Elite” teve, por exemplo.

O tema escolhido é importante. Durante algumas décadas, uma Alemanha derrotada e envergonhada se agarrou a uma idéia que a libertava, um pouco, dos compromissos assumidos pela nação durante a era nazista: a de que a Wehrmacht, o Exército alemão, era composta por soldados absolutamente profissionais e isentos das atrocidades cometidas contra os judeus.

A Wehrmacht não foi escolhida à toa. Era uma instituição sólida, herdeira da personificação militar da própria identidade alemã e prussiana. Era algo de que os alemães podiam se orgulhar, uma instituição que por seu histórico parecia convenientemente separada do nazismo: a função da Wehrmacht era guerrear, um objetivo nobre e aceitável, e não matar judeus indefesos. The Unknown Soldier, a julgar pelas resenhas, se pretende uma denúncia dessa mentira.

O ponto frágil dessas novas denúncias é que elas não são, em absoluto, novas. Em 1997, por exemplo, novos documentos e fotos mostraram o que muita gente sempre soube: que a Wehrmacht, a única instituição cuja reputação se manteve incólume depois da derrocada do nazismo, tinha sido participante ativa do processo de limpeza étnica que culminou na Solução Final. Ou seja: do ponto de vista histórico, não há nada de realmente novo em The Unknown Soldier.

Mesmo antes dessas denúncias, acreditar na isenção e inocência da Wehrmacht era principalmente um exercício de negação de bons indícios. Pela extensão do Holocausto, era impossível que a SS fosse sua única executora. Pelo número de campos de concentração, era inconcebível que não fosse criada uma rede de logística e informação extensa e complexa, que envolvesse boa parte da sociedade alemã e dos países aliados ou ocupados, muitos dos quais viram na possibilidade de perseguição aos judeus uma compensação justa pela invasão de seu país. Já faz muito tempo que o mito de que os alemães desconheciam a extensão da política de extermínio não é levado a sério. Eles sabiam, sim; o que ainda se tenta discutir é se concordavam ou não com essa política. Não se trata apenas de reconhecer a existência de movimentos de resistência como o Rosa Branca e alguns outros, localizados e sem verdadeiro apoio popular; e sim de encontrar uma oposição extensa na sociedade, ainda que silenciosa e passiva.

Infelizmente, até essa tentativa é malfadada. “Os Carrascos Voluntários de Hitler”, livro de Daniel Goldhagen, já tinha derrubado essa tese há muito tempo. Foi mais além: demonstrava que a participação do alemão comum no Holocausto não era nada forçada, e que a alegria com que desempenhavam o mister de carrascos se devia principalmente ao anti-semitismo secular espalhado pela região. Matar judeus era algo feito com entusiasmo e senso de dever cívico.

Mas essa é sempre uma tese que incomoda. Como aparente medida de auto-preservação, os alemães preferem esquecer o que aconteceu. Poucas histórias nacionais foram reescritas com tanta sutileza como a alemã nos últimos 60 anos. Para isso, promovem oportunistas a heróis da resistência, fingem que não lembram, dizem que não sabiam.

Essa atitude é compreensível, mas perniciosa. Em última análise, impede ou dificulta o que deveria ser a mais importante tarefa alemã desde o pós-guerra: compreender a extensão do processo histórico que culminou no Holocausto, entender que o Partido Nazista só chegou ao poder por atender não apenas a exigências econômicas de uma Alemanha humilhada, mas a preconceitos e ódios que têm raízes na Idade Média e na perseguição cristã ao judaísmo.

Para isso, é preciso lembrar que não foram o totalitarismo político e o expansionismo bélico as principais características do nazismo: foi o anti-semitismo. Totalitarismo foi marca de regimes díspares como o socialismo soviético e o fascismo italiano — embora este tenha sido esculhambado e farsesco por sua natureza inegavelmente latina. O que fez do nazismo uma aberração única, nunca é demais lembrar, é que ele possibilitou ao Estado alemão montar uma máquina de genocídio étnico em escala industrial

Os alemães projetaram na Wehrmacht uma imagem ideal de si próprios: maiores que Hitler, imunes à histeria nazista, inocentes que se viram envolvidos num redemoinho de loucura com a qual não estiveram, em nenhum momento, comprometidos. A versão alemã de sua história é a negação desse compromisso. Mas, infelizmente, ele não pode ser negado. Como não pode ser negada a grande verdade daquela era: os alemães não foram vítimas de Hitler. Hitler é que foi o instrumento do povo alemão.

5 thoughts on “A última queda de Hitler

  1. Ótimo texto.Parece que as atrocidades cometidas na Alemanha Nazista nunca serão totalmente descobertas, ou assumidas…tudo debaixo do tapete.
    Mas parece um tanto radical dizer que Hitler foi um instrumento do povo alemão…pois penso que o cara era doente e manipulador o suficiente para criar idéias nocivas em cabeças não tão pensantes…Acho que os alemães pecaram pela omissão, mas a loucura veio de Hitler. se encontrou apoio é uma coisa, mas não penso que foi mero instrumento.
    bjo

  2. Embora seu texto contenha muitas qualidades, e pontos de vista válidos, peca pela generalização infeliz e pelas observações tendenciosas. Comentários como “Já faz muito tempo que o mito de que os alemães desconheciam a extensão da política de extermínio não é levado a sério. ” simplesmente não dá para levar a sério. Você já conheceu algum alemão que tenha vivido durante a segunda guerra?
    Vou ficar por aqui,e ainda acho que falei demais…

  3. Barbara…

    Comentários como “Já faz muito tempo que o mito de que os alemães desconheciam a extensão da política de extermínio não é levado a sério” simplesmente não dá para levar a sério. Você já conheceu algum alemão que tenha vivido durante a segunda guerra?

    É pra isso que existem os livros, não é, não?

    A propósito, conheci um ou dois refugiados de campos de concentração, e vários filhos deles. Mas isso não importa.

  4. Se os seres humanos vivessem, como as formigas,trabalhando,tendo sua hierarquia na sociedade,nunca se veria exterminío,gente que manda pessoas para a guerra,como o Obama,que recebe premio Nobel da paz e não tira suas tropas ocupantes do Iraque.Novos Hitles sempre surgirão,basta ver aqui mesmo na Venezuela,hoje ele é um fanfarrão,digo o Chaves.Mas tendo uma montanha de dinheiro para ser armar ele vira um novo Adolf Hitler.A ganancia dos povos foi vista em Companhagen .A segunda guerra foi a guerra do plebiscito,onde o mundo escolheria entre a disciplina ariana e o capitalismo selvagem dos aliados.A Werhmarcht sofreu muito na mão desses monstros Himmeler,Goering fazendo milhares de meninos irem pro front, lutar no frio intenso russo,mau equipado.De quem foi a idéia, que a União Soviética cairia em 4 meses.Ninguém tem o direito de julgar ninguém.Se não, esse ódio viria desde o lavar das Mãos de Poncio Pilatos,quando ele disse que não via maldade nenhuma (NESSE HOMEM),e mesmo assim os judeus disseram para cravá-lo na cruz.

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